Rios e estradas

Linhão integra Roraima, mas 160 sistemas seguem fora da rede nacional

Localidades isoladas geram a própria energia, em geral com diesel, e o subsídio é pago na conta de luz do país. Roraima saiu da lista em 2025.

Ilustração abstrata em verde-escuro com pontos dourados espalhados, alguns ligados por uma linha fina e outros soltos
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Em 10 de setembro de 2025, a linha de transmissão entre Manaus e Boa Vista foi energizada a partir da sede do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), em Brasília. Roraima era o último estado fora do Sistema Interligado Nacional (SIN), a rede que liga usinas e cidades do país.

Mesmo assim, o Brasil ainda tinha 160 sistemas isolados em dezembro de 2025. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), eles atendiam cerca de 1,97 milhão de pessoas.

O que é um sistema isolado

São redes públicas de distribuição de energia que não estão ligadas ao SIN, por razões técnicas ou econômicas. Segundo a EPE, existem no Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Pernambuco, neste caso em Fernando de Noronha.

Em geral, a energia vem de usinas térmicas locais, a óleo diesel. Em 2024, esses sistemas consumiram 3.090 gigawatts-hora, cerca de 0,55% do consumo nacional. No fim de 2025, eram pouco mais de 450 mil unidades consumidoras, quase 0,5% do total do país.

Quem paga a conta

Gerar energia com diesel no meio da floresta custa caro. A diferença é coberta pela Conta de Consumo de Combustíveis (CCC), regulada pela Lei 12.111, de 2009.

A CCC reembolsa a diferença entre o custo total da geração isolada e o custo médio da energia comprada pelas distribuidoras no mercado regulado. O dinheiro sai da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), um fundo do setor elétrico. A CDE é paga principalmente por meio de encargos nas tarifas de todo o país. Ou seja, o consumidor de qualquer estado ajuda a pagar a luz das localidades isoladas.

O linhão de Roraima

A linha Manaus–Boa Vista, conhecida como Linhão de Tucuruí, tem 724 quilômetros e opera em 500 quilovolts, segundo a EPE. Atravessa a Terra Indígena Waimiri-Atroari e nove municípios do Amazonas e de Roraima.

O leilão foi em 2011, e o contrato, assinado em 2012. A licença prévia saiu em 2015, mas foi suspensa em 2016 por causa da travessia da terra indígena. Em 2019, o Conselho de Defesa Nacional declarou a linha de interesse da defesa nacional.

A licença de instalação veio em setembro de 2021, após acordo judicial com os Waimiri-Atroari. O plano prevê R$ 134 milhões em compensações à associação da comunidade. As obras foram retomadas em outubro de 2022.

Para a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a data oficial da interligação de Boa Vista foi 1º de janeiro de 2026. A agência decidiu isso em dezembro de 2025.

O que mudou

Segundo a EPE, de janeiro a setembro de 2025 houve 243 perturbações com corte de carga em Roraima, três delas com blecaute. Após a interligação, até o fim de fevereiro de 2026, foram 23, sem blecaute.

O suprimento é misto: cerca de 55% da carga vem pela linha, e o restante, de usinas locais. A EPE cita estimativa do Ministério de Minas e Energia de queda de R$ 540 milhões por ano na CCC.

A conta local também mudou. A distribuidora passou a pagar custos de transmissão e encargos que antes não existiam ali.

O que diz a EPE: Em informe técnico de maio de 2026, a empresa afirma que a linha “acaba com o isolamento elétrico de Roraima” e oferece suprimento “com maior segurança e estabilidade”. A EPE reconhece que a interligação “adicionou à tarifa encargos setoriais e custos de transmissão”.

Nem todo Roraima entrou na rede. Em outubro de 2025, pouco mais de 9 mil unidades consumidoras seguiam isoladas no estado, segundo a EPE. O Amazonas passou a liderar o consumo isolado do país. Para essas cidades, o diesel e a CCC continuam sendo a regra.

Fontes