Opinião

Floresta em pé precisa render mais do que a ilegalidade

Governo reservou até R$ 45 milhões em 2026 para o preço mínimo dos extrativistas. Colunista defende crédito, logística e preço justo na bioeconomia.

Artigo de opinião. O texto reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Brasil Soberano.

Ilustração abstrata em verde-mata e dourado, com círculos que lembram frutos e sementes entre formas de folhas, sem pessoas nem texto
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Para 2026, o governo federal reservou até R$ 45 milhões para garantir preço mínimo a extrativistas de todo o país. O valor está na Portaria Interministerial 13, de janeiro. Quando o açaí, a castanha ou a borracha são vendidos abaixo do mínimo, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) paga a diferença.

No dia 2 de setembro, o Senado aprovou a política de minerais críticos, com até R$ 7 bilhões em incentivos, segundo a Agência Brasil. As duas políticas têm objetivos diferentes, e não se trata de tirar de uma para dar à outra. Mas a diferença de escala diz algo sobre prioridades.

A conta de quem coleta

O preço mínimo é um bom instrumento. A Política de Garantia de Preços Mínimos para os Produtos da Sociobiodiversidade (PGPM-Bio) protege a renda quando o mercado despenca. Mas os limites são estreitos.

Pela portaria, cada família pode receber no máximo R$ 2 mil por ano pelo açaí e R$ 3 mil pela castanha. Somando todos os produtos, o teto é de R$ 18 mil. E o pagamento depende de haver orçamento disponível.

Para receber, o extrativista precisa estar com o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF) ativo e sem pendências em outros cadastros federais. Também precisa lançar a nota fiscal no sistema da Conab e ter conta bancária. Para quem mora a dias de barco de uma agência, cada exigência pesa.

A economia ilegal não pede nada disso. A madeira sem origem e o ouro sem nota pagam na hora, em dinheiro vivo. Essa é a concorrência real da bioeconomia na Amazônia, e ela vence pela simplicidade.

A primeira é crédito que chegue. Linhas para cooperativas e associações de extrativistas devem aceitar as garantias que essas comunidades têm, como contratos de venda e planos de manejo aprovados.

A segunda é logística. Sem barco, armazém e energia para beneficiar o produto na origem, o coletor vende barato a quem tem frete. O valor agregado fica em Belém, em Manaus ou fora do país.

A terceira é preço justo e compra previsível. Escolas, hospitais e quartéis da região podem comprar produtos da floresta de forma regular. Um comprador público fixo dá ao extrativista o que o mercado raramente oferece: a certeza de vender.

Nada disso substitui a fiscalização. Mas fiscalizar sem oferecer alternativa é pedir a quem vive na floresta que escolha a pobreza dentro da lei.

O que diz o governo federal: A Estratégia Nacional de Bioeconomia, criada pelo Decreto 12.044, de 2024, define a bioeconomia como modelo baseado no uso sustentável da biodiversidade. O objetivo declarado é a “agregação de valor” e a “geração de trabalho e renda”. Entre as diretrizes estão a bioindustrialização e a redução das desigualdades regionais. Pelo decreto, recursos, metas e indicadores ficam a cargo do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia.

A floresta em pé só vence o desmatamento e o garimpo quando vale mais em pé do que no chão. Isso não acontece por discurso, mas por crédito, frete e preço. O orçamento federal de 2027 é a próxima chance de mostrar se a bioeconomia é política de Estado ou só um bom slogan.

Fontes