Análise assinada

Demarcar terras indígenas é infraestrutura de soberania

A delimitação de Waimiri Atroari e Mura do Médio Madeira corrige pendências do Estado, mas exige homologação, registro e proteção permanente dos territórios.

Análise assinada. A interpretação pertence ao autor e não representa necessariamente a posição editorial do Jornal Brasil Soberano.

Estrada de terra avança entre vegetação na entrada da Terra Indígena Waimiri Atroari
Entrada da Terra Indígena Waimiri Atroari, em Presidente Figueiredo, no Amazonas, fotografada em julho de 2013.Foto: James Martins / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

A Funai aprovou nesta sexta-feira (6) os estudos de identificação e delimitação de Waimiri Atroari e Mura do Médio Madeira. As duas áreas somam cerca de 1,5 milhão de hectares. O avanço técnico merece reconhecimento, mas ainda não completa o dever do Estado brasileiro.

Defendemos a demarcação como infraestrutura de soberania. Ela define onde direitos constitucionais são exercidos, onde a fiscalização deve atuar e quais limites o desenvolvimento precisa respeitar. Um país não fortalece seu território quando deixa parte dele sujeita à invasão e à incerteza.

O Estado precisa corrigir danos causados pelo próprio desenvolvimento

A história de Waimiri Atroari mostra por que a revisão de limites não é um gesto abstrato. A Funai registra que a BR-174, a Usina Hidrelétrica de Balbina e a mineração em Pitinga reduziram o território tradicional do povo Kinja ao longo do século 20.

Foram decisões associadas à ocupação e ao desenvolvimento nacional. Elas produziram benefícios econômicos, mas também transferiram perdas territoriais a quem já vivia ali. Soberania sem responsabilidade histórica transforma o interior em espaço de sacrifício permanente.

A terra foi homologada em 1989, e a revisão começou em 2014. Passaram-se 12 anos até a aprovação do novo relatório. Esse prazo mostra que reconhecer um direito no papel não basta quando o procedimento administrativo se estende por mais de uma década.

As duas delimitações respondem a pressões territoriais diferentes Áreas e contextos apresentados pela Funai em 6 de novembro de 2026

Terra Área Pressão histórica destacada
Waimiri Atroari 1,24 milhão ha BR-174, Balbina e mineração em Pitinga
Mura do Médio Madeira 268 mil ha Ocupação associada à BR-319 e conflitos fundiários

Fonte: Funai. Os dois relatórios ainda não representam homologação presidencial.

Mura do Médio Madeira reúne cerca de 830 pessoas em Humaitá e Manicoré. A Funai aponta continuidade da ocupação Mura desde o período colonial e registros de lotes indígenas nas décadas de 1910 e 1920. A delimitação reconhece uma presença anterior à atual fronteira de ocupação econômica.

A região está sob influência da BR-319. Rodovias podem integrar comunidades e melhorar serviços, mas também ampliar pressão fundiária quando o Estado chega depois dos interesses privados. A resposta soberana não é fingir que esse conflito não existe. É demarcar, licenciar com rigor e fiscalizar.

Homologar sem proteger seria completar apenas metade da tarefa

Desde 2023, a Funai aprovou 23 Relatórios Circunstanciados de Identificação e Delimitação (RCIDs), com cerca de 10 milhões de hectares. No mesmo período, 20 territórios foram homologados, somando mais de 3,2 milhões de hectares. Os números referem-se a etapas e conjuntos diferentes.

Essa diferença impede uma conta simplista de quantas terras faltam. Ainda assim, revela o trabalho necessário entre estudo, declaração, homologação e registro. Cada fase exige capacidade administrativa, decisão política e continuidade entre governos.

A Coiab afirma que pelo menos 27 terras na Amazônia estão prontas para serem demarcadas. A organização não apresenta a lista e os estágios dos processos na carta pública. Mesmo sem esses detalhes, a cobrança indica que a pauta não termina nas duas áreas desta semana.

Também não se deve confundir demarcação com ausência de desenvolvimento. Territórios reconhecidos sustentam modos de vida, produção, conhecimento e proteção ambiental. A Constituição garante aos povos indígenas direitos originários sobre suas terras, e o artigo 231 é a base citada pela Funai para a revisão de Waimiri Atroari.

O contraponto legítimo é a necessidade de segurança jurídica para todos os moradores e empreendimentos. Justamente por isso, o processo técnico deve ser criterioso, público e concluído. Prolongar pendências alimenta conflitos em vez de resolvê-los.

O que diz a Funai: a presidenta Lucia Alberta Baré afirma que terra regularizada precisa de proteção e chama a demarcação de reparação histórica. A diretora substituta Nina Paiva Almeida esclarece que a assinatura dos relatórios vence apenas a primeira etapa do processo demarcatório.

O próximo compromisso deve ser concluir as etapas administrativas sem nova paralisia. Depois da homologação, será necessário registrar as áreas e garantir presença estatal permanente. Isso inclui fiscalização ambiental, proteção das comunidades e serviços públicos construídos com os povos.

Defender a demarcação é defender um Brasil que conhece seus limites e cumpre sua Constituição. O Estado que construiu estradas e usinas na Amazônia também precisa construir direitos. Sem isso, a soberania fica incompleta exatamente onde o território mais exige responsabilidade.

Como fizemos: Usamos os relatórios e o histórico divulgados pela Funai em 6 de novembro e a carta pública da Coiab. Não somamos áreas de etapas diferentes nem tratamos as 27 terras citadas pela organização como processos prontos para decreto. A defesa da demarcação como política de soberania é posição editorial, distinta dos dados administrativos apresentados.

Fontes