Fronteiras

Força Nacional reforça Tabatinga, mas MPF vê PF com dois delegados

Portaria nº 1.313/2026 autoriza a Força Nacional a apoiar a PF na fronteira com a Colômbia; ação do MPF aponta queda no número de delegados.

Embarcação da Polícia Federal atracada em porto às margens de um rio, em Tabatinga (AM), com as palavras POLÍCIA FEDERAL pintadas na parte superior
Embarcação da Polícia Federal atracada no porto de Tabatinga (AM), em fevereiro de 2024; a foto não mostra a Força Nacional.Foto: Ridiculopathy / Wikimedia Commons (CC0)

Na segunda-feira (26), o Diário Oficial da União (DOU) publicou a Portaria nº 1.313/2026. Ela autoriza a Força Nacional de Segurança Pública (FNSP) a apoiar a Polícia Federal (PF) na faixa de fronteira de Tabatinga, no Amazonas, vizinha da Colômbia.

A portaria tem data de 22 de outubro, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). Mas o reforço é temporário. O problema de fundo, segundo o Ministério Público Federal (MPF), é a falta de delegados na própria PF da cidade.

A Força Nacional reúne policiais militares, policiais civis, bombeiros militares e peritos cedidos pelos estados. Foi criada por decreto em 2004, e os governadores podem pedir sua atuação, segundo a CNN Brasil. Os agentes continuam ligados às corporações de origem durante a missão.

Ou seja, a força chega por missão e não cria vagas fixas na região. A faixa de fronteira tem até 150 quilômetros de largura ao longo das fronteiras terrestres, conforme a Constituição (artigo 20, parágrafo 2º).

O que a portaria autoriza

Segundo a nota do MJSP, a atuação visa preservar a ordem pública e a segurança das pessoas e do patrimônio na região. A PF coordena a operação e oferece apoio logístico. A força atuará junto às polícias do Amazonas, no âmbito do Plano Amazônia: Segurança e Soberania (Plano Amas).

Estão previstos patrulhamento terrestre, fiscalização da fronteira seca e policiamento fluvial, com duas embarcações, uma delas blindada. O MJSP não informa quantos agentes serão enviados. Diz apenas que o contingente seguirá o planejamento da Diretoria da Força Nacional.

O prazo inicial é de 90 dias, segundo o Newsrondônia, que cita a portaria publicada no DOU. A nota do MJSP que consultamos não traz esse prazo. Não é a primeira vez na cidade. A Portaria MJSP nº 954, de 11 de junho de 2025, já autorizou o apoio à PF em Tabatinga, também por 90 dias, segundo o Okai, que reproduz o texto.

O que o MPF aponta na PF

Em 15 de julho de 2026, o MPF entrou com uma ação civil pública contra a União. É o processo com que o Ministério Público pede à Justiça que o governo cumpra uma obrigação.

Segundo o MPF, os delegados, que conduzem as investigações, caíram de cinco em 2023 para dois em 2026. É uma redução de 60%. Entre 2024 e março de 2026, os inquéritos, ou seja, as investigações policiais em andamento, subiram de 95 para 141. A média por delegado passou de 19 para mais de 70 procedimentos.

O MPF diz que faltam também escrivães e agentes, sem informar números. Segundo o órgão, a PF anunciou em junho novas delegacias em Tefé, Humaitá e Itaituba. O MPF argumenta que essa expansão não pode prejudicar as unidades de fronteira que já funcionam.

O MPF pede um diagnóstico completo da União em 15 dias e o restabelecimento provisório de cinco delegados em até 30 dias. Pede ainda um plano emergencial para manter os cartórios da delegacia e a conclusão de inquéritos parados há mais de 60 dias, sob multa diária de R$ 5 mil. Não encontramos decisão judicial sobre o pedido nas fontes consultadas.

O que diz o Ministério da Justiça e Segurança Pública: em nota de 27/10/2026, o MJSP descreve a atuação como apoio à PF, com a PF na coordenação. Até a publicação, não localizamos manifestação da PF nem da União sobre a ação do MPF.

O que isso significa

O reforço tem prazo. Com 90 dias, ele cobre cerca de três meses. Se contado a partir de 26 de outubro, termina por volta de 24 de janeiro de 2027.

Já o déficit de delegados é de pessoal permanente. A portaria não cria cargos nem nomeia servidores. O que segue em aberto é se a União vai recompor o quadro da delegacia, como pede o MPF.

Como fizemos: Usamos a Portaria nº 1.313/2026, conforme a nota do MJSP de 27/10/2026 e a reportagem do Newsrondônia de 26/10/2026, além da ação do MPF de 15/07/2026, acessados em 27/10/2026. Não conseguimos abrir o texto da portaria no DOU, e o prazo de 90 dias vem apenas do Newsrondônia. A redução de 60% é a conta de cinco para dois delegados. A data de 24 de janeiro de 2027 é conta nossa: 90 dias a partir de 26 de outubro. Os números de inquéritos e de procedimentos por delegado são do MPF e não foram recalculados.

Fontes