Fronteiras

PF investiga servidores por cobrar propina na fronteira de Roraima

Operação Zaqueu cumpre cinco mandados contra servidores e empresários suspeitos de cobrar propina para liberar cargas vindas da Guiana.

Pista de uma ponte sobre o Rio Tacutu, com placa verde que informa o nome da ponte e a extensão de 230 metros, sob céu nublado
Ponte sobre o Rio Tacutu, na divisa entre Bonfim (RR) e Lethem (Guiana), em foto de arquivo; a imagem não é da operação.Foto: SallesNeto BR / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Na terça-feira (20), a Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Zaqueu. A ação cumpriu cinco mandados de busca e apreensão contra servidores públicos e empresários. Eles são suspeitos de cobrar propina para liberar mercadorias vindas da Guiana sem a conferência devida.

Um mandado de busca e apreensão é uma ordem da Justiça para procurar e recolher provas. A conferência é a checagem que a Receita Federal faz nas cargas que entram no país. Quando o servidor cobra para não fiscalizar, o controle da fronteira passa a ter preço.

O que a lei manda fazer na fronteira

A Constituição diz que a faixa de fronteira, de até 150 quilômetros de largura, “é considerada fundamental para defesa do território nacional”. Essa faixa acompanha todas as divisas terrestres do país.

Uma lei de 1991 dá à Receita Federal a vigilância das Áreas de Livre Comércio de Boa Vista e de Bonfim, em Roraima. A mesma lei atribui ao órgão a repressão ao contrabando e ao descaminho, sem prejuízo da competência da PF. Descaminho é fugir do pagamento de imposto devido na entrada de mercadoria.

O que apuraram as reportagens

Segundo o Metrópoles, ouvindo colaboradores da investigação, ônibus de excursão vindos de Manaus pagavam R$ 1 mil no início. O valor subiu para R$ 3 mil e chegou a R$ 10 mil. O mesmo texto diz que, quando o pagamento não era feito, “as mercadorias acabavam submetidas à fiscalização”.

O Hermes Vissotto cita outro valor, de cerca de R$ 200 por carro de passeio em cada travessia. Pelos números dessa reportagem, um ônibus no valor de R$ 10 mil equivale a 50 carros pagando R$ 200 (conta nossa).

Segundo o Hermes Vissotto e o Paipee, os pagamentos iam para chaves Pix e contas em nome de familiares e intermediários. O Hermes Vissotto diz ainda que a análise financeira aponta 47 transferências de uma servidora, que somam quase R$ 25 mil. Essa informação não aparece nas outras reportagens consultadas.

Só o Hermes Vissotto relata que a Justiça Federal afastou os servidores por 120 dias. As demais reportagens não trazem essa medida. O local também varia: algumas citam o posto de Bonfim, na divisa com Lethem, na Guiana, e outras falam em Boa Vista. A PF não divulgou onde cumpriu os mandados.

Quem são os investigados e o que se apura

A PF não informou a que órgão pertencem os servidores investigados. O Hermes Vissotto diz que são servidores da Receita Federal, mas essa informação não aparece nas demais reportagens. As reportagens listam possíveis crimes: corrupção passiva, concussão (exigir vantagem por causa do cargo), facilitação de contrabando ou descaminho, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

Até aqui, todos são investigados. Como resume o De Olho no Acre, as suspeitas “são objeto de investigação e não representam uma condenação dos envolvidos”. As reportagens consultadas não trazem manifestação dos investigados nem das defesas.

O que diz a Polícia Federal: segundo o Metrópoles, a corporação afirma que o objetivo da operação é coletar elementos probatórios. Não localizamos nota oficial da PF sobre o caso até a publicação.

O que vem agora

Ao fim da fase de provas, a PF envia o resultado à Justiça Federal. Depois, cabe ao Ministério Público Federal (MPF) decidir se apresenta denúncia. Só então um juiz pode aceitar a acusação e abrir ação penal.

A Receita Federal aparece como apoio à operação. O Metrópoles registra a frase: “A operação contou com o apoio institucional da Receita Federal do Brasil”.

Ainda não se sabe quantas pessoas participaram, quais empresas estavam envolvidas e quanto foi pago ao todo. Os valores citados vêm de reportagens, e não de documento oficial. Se confirmadas, as suspeitas apontam uma falha no ponto em que o Estado deveria checar cargas.

Como fizemos: Usamos reportagens publicadas em 20/10/2026 por ac24horas, Roraima 1, Metrópoles, Portal O Fato, De Olho no Acre, Hermes Vissotto e Paipee, acessadas em 25/10/2026. Os valores e as falas vêm dessas reportagens, não de autos ou nota da PF. A conta de 50 carros é nossa: R$ 10 mil divididos por R$ 200. A faixa de 150 km vem da Constituição. Não tivemos acesso aos autos da investigação.

Fontes