Análise assinada

Flávio ofereceu terras raras aos EUA como moeda de campanha

Flávio prometeu, se eleito, parceria de longo prazo com os EUA em terras raras. Documento de campanha projeta investimentos de grande escala em dez anos.

Análise assinada. A interpretação pertence ao autor e não representa necessariamente a posição editorial do Jornal Brasil Soberano.

Vista aérea da mina de terras raras de Mountain Pass e de sua planta de processamento, no deserto da Califórnia
A mina de terras raras de Mountain Pass, na Califórnia, a principal fonte dos minerais nos Estados Unidos; a Serra Verde, em Goiás, foi vendida a um grupo americano.Foto: Tmy350 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 28 de março, no palco da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), nos Estados Unidos (EUA), o senador Flávio Bolsonaro (PL, Partido Liberal) fez uma oferta. Disse que o Brasil é “a solução da América” para romper a dependência da China em terras raras. Pediu ainda que o “mundo livre” observasse “com enorme atenção” a eleição brasileira.

Terras raras são minérios usados em ímãs de motores de carros elétricos, celulares e drones. Esta coluna junta as datas e os documentos dessa oferta. O achado é que a oferta reaparece em Washington, em um documento de campanha e no debate na TV. A promessa mais concreta depende da eleição de 25 de outubro.

Em 9 de julho de 2025, Trump enviou a Lula uma carta com tarifa de 50% sobre exportações brasileiras. Na mesma noite, Flávio agradeceu a Trump na rede X, antigo Twitter, segundo o SBT News. A reportagem diz que ele criticou o irmão Eduardo por agradecer pelas tarifas, mas não citou a própria publicação.

Em 16 de junho de 2026, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Eduardo Bolsonaro a 4 anos e 2 meses de prisão. Segundo a Agência Brasil, ele buscou tarifas e sanções americanas para travar o julgamento do pai. Ainda cabe recurso.

Da tribuna americana ao debate na TV

Em 26 de maio, Flávio foi recebido por Trump na Casa Branca, em Washington. Segundo a CNN Brasil, ele prometeu, se eleito, parcerias de longo prazo com os EUA em terras raras, com investimento protegido.

Em setembro, veio à tona um documento de 22 páginas com a marca “Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign”. Chamado “Prosperity Partnership”, ele projeta investimentos de grande escala em mineração, refino e processamento ao longo de dez anos, segundo o Estado de Minas. O autor, André Marinho, do partido Novo, disse que o estudo foi iniciativa exclusivamente dele e que não o enviou a autoridades americanas.

Em 9 de outubro, a Reuters noticiou que o acesso dos EUA a minerais brasileiros virou ponto central de disputa tarifária. A tabela 1 resume as datas. No debate da Band, em 18 de outubro, Lula perguntou se Flávio entregaria as terras raras aos americanos. Segundo o Correio Braziliense, Flávio chamou a acusação de “fake news” e acusou o governo Lula de não defender empresas brasileiras diante das tarifas.

A oferta de terras raras foi repetida entre março e outubro de 2026 Eventos citados na coluna, por data, de julho de 2025 a outubro de 2026

Data Evento
9 jul 2025 Trump anuncia tarifa de 50% sobre exportações brasileiras
28 mar 2026 Flávio diz no CPAC que o Brasil é “a solução da América”
26 mai 2026 Flávio é recebido por Trump na Casa Branca
set 2026 Documento de campanha com parceria mineral com os EUA vem à tona
16 set 2026 Lula sanciona lei dos minerais críticos
9 out 2026 Reuters noticia que acesso dos EUA a minerais brasileiros vira disputa tarifária
18 out 2026 No debate da Band, Lula questiona Flávio, que chama acusação de “fake news”

Fontes: Poder360, NSC Total, CNN Brasil, O Povo (Agência Brasil), Estado de Minas, Reuters, O Tempo, Correio Braziliense e SBT News, listados ao final. Elaboração: redação.

O peso da projeção

A apresentação associa a parceria a investimentos de grande escala ao longo de dez anos. São projeções do documento, não compromissos firmados nem investimentos já realizados. Compará-las ao preço de uma aquisição existente ajudaria a medir sua ambição, mas não demonstraria que os recursos estão garantidos.

O contraste com a lei de setembro

Em 16 de setembro, Lula sancionou a lei dos minerais críticos, que trata de minérios considerados estratégicos. Segundo O Tempo, ela cria um conselho que pode barrar contratos e parcerias com empresas ou governos estrangeiros.

Esta coluna não pede que ninguém goste de Lula. Registra apenas um contraste factual: a lei que permite barrar contratos com estrangeiros foi sancionada em setembro. No mesmo ano, o candidato adversário de Lula ofereceu parcerias sobre o mesmo minério nos EUA.

O que diz Flávio Bolsonaro: No debate da Band, ele chamou de “fake news” a acusação de que entregaria as terras raras aos americanos, segundo o Correio Braziliense. No CPAC, afirmou que o Brasil é “a solução da América” para romper a dependência da China, segundo o Poder360. As declarações citadas não tratam diretamente da apresentação descrita pelo Estado de Minas.

O que isso significa

Os fatos mostram uma oferta feita em Washington e repetida na campanha. O valor citado é uma projeção, e o autor do documento diz que o estudo não foi enviado a autoridades americanas.

Sou da direita que defendeu a Lava Jato e sabe o quanto o agro sustenta o comércio exterior. Para mim, Flávio Bolsonaro é uma falsa direita justamente no tema das riquezas do Brasil. Terras raras são patrimônio do país, e não moeda de campanha. A eleição de 25 de outubro, no segundo turno, decide quem conduz as negociações sobre esse patrimônio a partir de 2027.

Como fizemos: Esta coluna de opinião usa reportagens da CNN Brasil, do Poder360, da Agência Brasil, do Correio Braziliense, do Estado de Minas, de O Tempo, da Reuters, de A Crítica e do SBT News. As declarações são mantidas com data e atribuição. A apresentação descrita pelo Estado de Minas é tratada como documento de projeções, não como acordo firmado entre Brasil e Estados Unidos.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que Flávio se arrependeu e apagou a publicação de agradecimento a Trump, e que o encontro com Trump foi em 26 e 27 de maio. A reportagem do SBT News não relata arrependimento nem exclusão, e o encontro foi em 26 de maio. A versão anterior também dizia que o conselho da lei pode revisar aquisições estrangeiras; segundo O Tempo, ele pode barrar contratos e parcerias com empresas ou governos estrangeiros. E atribuía a Flávio, segundo o Correio Braziliense, a frase de que foi aos EUA defender empresas brasileiras; a reportagem não registra essa frase.

Fontes