Os 99,8% com luz não mostram os 1,5 milhão de fora na Amazônia
Especialistas estimam 1,5 milhão de pessoas sem energia pública na Amazônia. A TV Brasil leva o tema ao Arapiuns, no Pará, nesta segunda (26).

Cerca de 1,5 milhão de pessoas na Amazônia ainda não têm acesso ao serviço público de energia elétrica. A estimativa é de especialistas ouvidos pelo programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, que vai ao ar nesta segunda-feira (26).
No Brasil, 99,8% dos domicílios têm acesso à rede elétrica, segundo o IBGE citado pelo programa. Quase tudo está ligado. A média nacional, porém, não mostra quem fica de fora.
Quantas pessoas ficam sem luz? Depende da conta
Não há um número único. As fontes usam métodos e datas diferentes, por isso os números não se somam nem se comparam diretamente.
Quatro contas para quem fica sem energia na Amazônia Números citados entre 2022 e 2026, na unidade que cada fonte usa
| Número | O que mede | Fonte |
|---|---|---|
| 1,5 milhão | pessoas sem serviço público de energia, na região amazônica | Especialistas, via Caminhos da Reportagem (2026) |
| 1,2 milhão | pessoas sem acesso à energia elétrica | Cenário Energia, 24/02/2026, sem fonte indicada no texto |
| 990 mil | pessoas na Amazônia Legal | Iema, estimativa de 2022 |
| 70.495 | domicílios, além de 993 escolas e 217 unidades de saúde | MME, dados de julho de 2024 |
Fonte: Caminhos da Reportagem (TV Brasil); Cenário Energia; Iema, via Diálogo Chino (2022); MME, via Idec (2025). Elaboração: redação.
A estimativa mais baixa, de 2022, fica cerca de 510 mil pessoas abaixo da do programa. Nenhuma das fontes traz uma lista de comunidades sem luz.
O que a média esconde
O índice de 99,8% soma duas formas de acesso. A rede geral, ligação às distribuidoras, chega a 99,3% dos domicílios. Os 0,5 ponto percentual restantes são atendidos por fontes alternativas, fora da rede, segundo a PNAD Contínua de 2024 do IBGE.
No Norte, a diferença aparece na zona rural. Ali, a rede geral chega a 85,2% dos domicílios, no mesmo levantamento.
Anã e São Miguel: a luz que acaba cedo
A comunidade de Anã fica a quatro horas de barco de Santarém, pelo rio Arapiuns. Os geradores a diesel funcionam só de três a quatro horas por noite, segundo o programa.
Sem geladeira, as famílias recorrem ao sal e a alimentos industrializados, o que afeta a dieta e a saúde. O posto de saúde usa energia solar para manter vacinas refrigeradas, além de internet e telemedicina.
São Miguel, a cinco horas de Santarém, também pelo rio Arapiuns, usa sistemas solares para geladeiras, freezers, televisores e ventiladores. A oferta é limitada, e as famílias planejam o consumo para não sobrecarregar o sistema.
O que o Estado deve às comunidades
O direito ao atendimento já está previsto em lei. O Decreto 11.628, de 2023, define o Luz para Todos como programa para a população do meio rural e para moradores de regiões remotas da Amazônia Legal sem acesso ao serviço público de distribuição.
Em maio de 2026, o Decreto 12.964 ampliou o programa. O prazo das obras rurais foi estendido até dezembro de 2028, e comunidades ribeirinhas e extrativistas entraram entre as prioridades, segundo a Agência Brasil.
Os resultados ainda ficam atrás das metas. Em 2024, seis dos nove estados da Amazônia Legal não cumpriram a meta prevista, segundo levantamento do Idec com dados do MME.
Em setembro de 2026, a Aneel publicou a Resolução Normativa nº 1.166, que cria o sandbox Energias da Floresta. Sandbox é um ambiente de testes com regras flexíveis para projetos-piloto. Entre os objetivos estão combater a pobreza energética e envolver povos e comunidades tradicionais.
O que diz o Ministério de Minas e Energia (MME): Em nota publicada em março de 2025, a pasta afirmou que os dados do Luz para Todos “não representam o número real de famílias atendidas pelo programa”, porque excluem ligações ainda pendentes de homologação. Sobre a reportagem de 2026, não houve resposta do ministério para este texto.
O que isso significa
A média de 99,8% é verdadeira, mas incompleta. Ela mede a rede e não as casas que a rede ainda não alcança. Conforme a fonte, entre 990 mil e 1,5 milhão de pessoas ficam sem acesso.
O que vem a seguir são as obras do Luz para Todos até dezembro de 2028 e os projetos-piloto do sandbox. Sem uma lista por comunidade, a distância entre a meta e a luz na casa fica difícil de medir. Pela lei, o programa existe justamente para levar energia a essas famílias.
Como fizemos: Usamos a reportagem da Agência Gov (25/10/2026), a nota da EBC (23/10/2026) e a página do programa na TV Brasil, acessadas em 25/10/2026. A diferença de 0,5 ponto percentual entre 99,8% e 99,3% é nosso cálculo, com dados da PNAD Contínua 2024 lidos na reportagem do Movimento Econômico, pois a página do IBGE não foi acessada. Os números de 2022, 2024 e 2026 usam métodos diferentes e não são comparáveis entre si. Não houve contato com a Aneel nem com o MME para este texto.
Fontes
- Caminhos da Reportagem aborda desafios da universalização da energia elétrica em áreas remotas da Amazônia — Agência Gov, 25/10/2026 (acesso em 25/10/2026)
- Caminhos da Reportagem aborda desafios da universalização da energia elétrica em áreas remotas da Amazônia — EBC, 23/10/2026 (acesso em 25/10/2026)
- Luz para os povos da floresta — TV Brasil (acesso em 25/10/2026)
- Decreto nº 11.628, de 4 de agosto de 2023 — Câmara dos Deputados (acesso em 25/10/2026)
- Governo amplia Luz para Todos na Amazônia Legal — JB, 11/05/2026 (com Agência Brasil)
- Luz para Todos não cumpriu meta em seis dos nove estados da Amazônia Legal em 2024, diz Idec — eixos, 19/03/2025
- Aneel aprova sandbox que testará soluções energéticas em comunidades isoladas — eixos, 18/09/2026
- ANEEL estabelece diretrizes para o Sandbox Regulatório Energias da Floresta — Atlas Público
- ANEEL abre consulta pública para regulamentar projeto Energias da Floresta — Cenário Energia, 24/02/2026
- Energia solar avança na Amazônia, mas por que tão lentamente — eixos, republicado do Diálogo Chino, 13/04/2022
- PNAD: Brasil tem avanço em coleta e energia, mas falha em moradia — Movimento Econômico, 22/08/2025



