Presença do Estado

Reajuste de 14,35% no transporte escolar rural fica abaixo da inflação

Pela conta com o IPCA, R$ 100 de 2023 viraram R$ 114,35 com o reajuste, mas a inflação exigia R$ 115,46.

Barco de passageiros de dois andares navegando em um rio largo ao entardecer, com pessoas sentadas no convés e mata na margem ao fundo
Barco que transporta crianças de comunidades quilombolas do Rio Trombetas, em Oriximiná (PA), em 15 de outubro de 2014.Foto: Carolina Teixeira de Melo Franco / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Em agosto de 2026, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) reajustou em 14,35% o valor por aluno do transporte escolar rural. A Resolução nº 14 do Conselho Deliberativo do FNDE corrige os valores fixados em 2023 e vale para este ano.

Mas a inflação subiu mais que o reajuste. Entre junho de 2023 e setembro de 2026, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 15,46%. O IPCA é calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e o reajuste não devolve o poder de compra que o valor tinha em 2023.

O apoio federal tem dois programas, ambos executados pelo FNDE. O Programa Nacional de Apoio ao Transporte do Escolar (Pnate) repassa dinheiro a estados e municípios. O Programa Caminho da Escola ajuda a comprar ônibus, barcos e bicicletas.

Na Amazônia, esse dinheiro ajuda a pagar o combustível da lancha que busca o aluno na beira do rio. Cada governo cuida do transporte da própria rede: o estado, dos alunos estaduais, e o município, dos alunos municipais, conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).

Reajuste fica abaixo da inflação

Os cálculos usam a variação mensal do IPCA, na série do Banco Central. Começamos em junho de 2023, primeiro mês inteiro depois da Resolução nº 8, de 16 de maio de 2023, que fixou os valores daquele ano. Somados em sequência até setembro de 2026, esses meses acumulam 15,46%. O reajuste de 14,35% fica 1,11 ponto percentual abaixo.

Gráfico de barras mostra que o reajuste de 14,35% do valor por aluno ficou abaixo da inflação acumulada de 15,46% entre junho de 2023 e setembro de 2026 Fonte: FNDE, Resolução CD/FNDE nº 14/2026; IBGE (IPCA), via Banco Central, série 433. Elaboração: redação.

Em termos reais, o valor por aluno perde cerca de 1%. Na prática, cada R$ 100 do valor de 2023 viram R$ 114,35 com o reajuste. Para acompanhar a inflação, seriam R$ 115,46. A tabela mostra a diferença.

Reajuste fica R$ 1,11 abaixo da inflação a cada R$ 100 Em reais, a partir de uma base hipotética de R$ 100 em junho de 2023; IPCA acumulado até setembro de 2026

Cenário Valor (R$)
Base: valor de 2023 100,00
Com reajuste de 14,35% 114,35
Corrigido pelo IPCA (15,46%) 115,46

Fonte: FNDE, Resolução CD/FNDE nº 14/2026; IBGE (IPCA), via Banco Central, série 433. Elaboração: redação.

Como o dinheiro chega à rede

O Pnate pode pagar combustível, manutenção, seguro, pneus e consertos, além de empresas contratadas para o transporte. Os repasses vão direto a estados e municípios, sem convênio, em duas parcelas anuais, de preferência em março e agosto. O repasse de cada rede é o número de alunos rurais do ano anterior, no Censo Escolar (levantamento anual de matrículas), multiplicado pelo valor por aluno. Por isso, um reajuste no valor por aluno altera o total de todas as redes.

Quem compra a lancha e quem fiscaliza

O Caminho da Escola segue o Decreto 11.162, de 2022, alterado em 2025. Ele apoia a compra de ônibus, embarcações e bicicletas com especificações padronizadas, com prioridade para alunos da zona rural. Estados e municípios podem aderir a uma ata de registro de preços nacional, gerenciada pelo FNDE, ou seja, um preço já negociado em licitação. Desde 2025, o próprio FNDE também pode comprar diretamente.

As orientações do programa usam as categorias “Lancha Escolar ou Barco Escolar”. A manutenção cabe ao governo que tem a posse da embarcação, o uso pelos estudantes é gratuito e a operação deve seguir as regras da Marinha.

Para uma família ribeirinha, a dúvida é quem paga e quem cobra. A primeira porta é a secretaria de educação responsável pela escola, municipal ou estadual. Os conselhos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) analisam as contas antes do FNDE. Em caso de suspeita de mau uso, esse conselho é o canal previsto para fiscalizar.

O que diz o FNDE: Em sua página oficial, o fundo afirma que o Pnate “tem o objetivo de apoiar o transporte dos estudantes das redes públicas de educação básica, residentes em áreas rurais”, em “caráter suplementar”. O órgão diz que executa a política, transfere os recursos e analisa as prestações de contas.

O que isso significa

O reajuste de 2026 não recompõe a inflação desde 2023. A diferença é pequena, cerca de 1%, mas tende a crescer sem novo reajuste.

Os próximos valores dependem de nova resolução do Conselho Deliberativo do FNDE. Os dados aqui não mostram quanto custa a lancha em cada município, nem quantos alunos são atendidos hoje. Para medir o efeito real, seria preciso cruzar esses valores com o Censo Escolar e com as contas de cada rede.

Como fizemos: A análise usa a Resolução CD/FNDE nº 14/2026, a Resolução nº 8/2023 e a série mensal do IPCA do IBGE, divulgada pelo Banco Central, de junho de 2023 a setembro de 2026. As variações mensais foram encadeadas para chegar ao acumulado de 15,46%. A tabela usa uma base hipotética de R$ 100 para comparar percentuais, sem estimar o gasto efetivo de cada rede.

Fontes