Militares agiram em 1930 e 1955; em 2022, entregaram relatório ao TSE
Da revolta de 1930 ao relatório de 2022, o papel militar em eleições contestadas mudou. Em 2026, não encontramos nota pública da Defesa sobre o resultado.

Em 11 de novembro de 1955, o ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Lott, colocou tropas em movimento no Rio de Janeiro. A ação afastou o presidente interino, Carlos Luz, considerado adversário da posse de Juscelino Kubitschek. Segundo a História do Mundo, o objetivo era garantir a posse do presidente eleito.
O segundo turno de 25 de outubro de 2026 traz de volta uma pergunta antiga: o que as Forças Armadas fazem quando um resultado é contestado? Este texto compara quatro disputas desde 1930. Em duas, militares agiram. Em duas, o caminho foi a Justiça Eleitoral.
A Constituição de 1988 define a missão militar no artigo 142. As Forças Armadas ficam “sob a autoridade suprema do Presidente da República” e se destinam “à defesa da Pátria” e “à garantia dos poderes constitucionais”. O texto não menciona a apuração de votos.
Em duas crises, militares agiram; em duas, a Justiça Eleitoral decidiu Disputas presidenciais contestadas, 1930 a 2022
| Ano | Quem contestou | Como terminou |
|---|---|---|
| 1930 | Aliança Liberal, que alegou fraude na eleição de Júlio Prestes | Revolta armada; junta militar assumiu em 24/10 e passou o poder a Vargas em 3/11 |
| 1955 | UDN, que pediu a anulação da eleição de Juscelino Kubitschek | Lott agiu em 11/11; Nereu Ramos assumiu; JK tomou posse em janeiro de 1956 |
| 2014 | PSDB, com pedido de auditoria da campanha de Aécio Neves | Auditoria do partido, apresentada em 2015, não encontrou fraude |
| 2022 | Coligação de Bolsonaro (PL, PP e Republicanos) | TSE rejeitou o pedido e multou a coligação em R$ 22,9 milhões |
Fonte: ver Fontes. Elaboração: redação.
Quando militares decidiram a crise
Em 1930, a contestação virou revolta. A Aliança Liberal questionou a candidatura de Júlio Prestes, indicado pelo presidente Washington Luís, e alegou fraude. Em outubro, a revolução foi deflagrada, segundo a História do Mundo.
Em 24 de outubro, uma junta militar provisória foi instalada no Rio, conforme o Decreto 19.398. Em 3 de novembro, a junta passou o comando a Getúlio Vargas, segundo a Archontology.
Em 1955, a disputa foi outra. Juscelino Kubitschek venceu a eleição de 3 de outubro com 35,68% dos votos, segundo a Wikipédia em inglês. A UDN passou a defender a anulação do resultado e um “governo de emergência”, de acordo com a História do Mundo.
Em 10 de novembro, Lott pediu demissão em protesto, depois que Carlos Luz se recusou a punir o coronel Jurandir Mamede. No dia seguinte, Lott organizou o contragolpe. Nereu Ramos assumiu a Presidência, e Kubitschek tomou posse em janeiro de 1956.
Quando a Justiça Eleitoral decidiu
Em 2014, o PSDB seguiu outro caminho. Em 30 de outubro, o partido pediu ao TSE uma auditoria do sistema de votação. O pedido foi assinado por Carlos Sampaio, coordenador jurídico da campanha de Aécio Neves. Segundo ele, não se tratava de recontagem nem de questionamento do resultado.
Em 5 de novembro de 2015, o TSE divulgou o resultado da auditoria do partido, que não encontrou fraude. O presidente da corte, Dias Toffoli, afirmou: “Volto a dizer que não foi encontrada nenhuma evidência em tal sentido”.
Em 2022, a contestação foi para o tribunal. Em 22 de novembro, a coligação de Jair Bolsonaro, formada por PL, PP e Republicanos, pediu a anulação de votos de urnas eletrônicas. No dia seguinte, o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, rejeitou o pedido. Ele chamou os argumentos de “absolutamente falsos” e multou a coligação em R$ 22,9 milhões por litigância de má-fé, segundo a AFP.
Enquanto isso, apoiadores de Bolsonaro montaram acampamentos em frente a quartéis, como o QG do Exército em Brasília. Em 8 de janeiro de 2023, atos golpistas atingiram a capital. A Procuradoria-Geral da República (PGR) disse que o acampamento tinha “perenidade, estabilidade e permanência”. Até fevereiro de 2023, a PGR havia denunciado mais de 600 pessoas. Denúncia não é condenação.
As Forças Armadas tiveram outro papel nesse período. Militares integravam a comissão de transparência do TSE, segundo a Agência Brasil. Em 9 de novembro de 2022, o Ministério da Defesa entregou ao tribunal o relatório da equipe técnica militar. O TSE disse que o documento não apontou fraude nem inconsistência.
Em ofício, o ministro Paulo Sérgio Nogueira apontou “relevante risco à segurança do processo”. Ele citou o acesso à rede durante a compilação do código-fonte, segundo a Istoé.
Em 2026, a Defesa preparou a votação
Em 21 de julho de 2026, o Diário Oficial publicou o Decreto nº 13.073. Ele autoriza as Forças Armadas a atuar na garantia da votação, na apuração e no apoio logístico. O TSE indica os municípios e os períodos, e a atuação depende de pedidos da Justiça Eleitoral, segundo a Gazeta do Povo.
Em 12 de agosto, o ministro da Defesa, José Múcio, assinou a Portaria GM-MD nº 4.190. Ela aprova a diretriz para essas missões e ativa seis Comandos Operacionais Conjuntos, segundo o Atlas Público. O texto não menciona aceitar ou contestar resultados.
O que diz o Ministério da Defesa: em 2022, o ministro Paulo Sérgio Nogueira alertou o TSE, em ofício, sobre riscos no relatório militar, segundo a Istoé. Sobre o resultado de 2026, não localizamos declaração pública da pasta até a publicação.
Os quatro casos mostram um padrão. Quando militares agiram, em 1930 e 1955, o desfecho saiu das decisões dos comandos. Nos dois casos mais recentes, a contestação foi ao TSE, e nenhuma prova de fraude foi encontrada.
Em 2026, o que a Defesa publicou trata de preparar a votação e a apuração. Uma posição sobre o resultado, se existir, precisaria constar de documento oficial. Até este texto, não encontramos esse documento.
Como fizemos: Consultamos documentos e reportagens em 26/10/2026. Usamos o Decreto 19.398 (1930), o artigo 142 da Constituição, reportagens da AFP, Istoé, Agência Brasil, Congresso em Foco, Gazeta do Povo e Atlas Público, e a Wikipédia em inglês para a porcentagem de 1955. As páginas do CPDOC/FGV não abriram, então os fatos de 1930 e 1955 vêm de referências secundárias. Não enviamos perguntas à Defesa para esta análise, e o texto não traz cálculo próprio.
Fontes
- Decreto nº 19.398, de 11 de novembro de 1930 — Planalto (acesso em 26/10/2026)
- Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, artigo 142 — Planalto (acesso em 26/10/2026)
- Junta militar de 1930 — Archontology (acesso em 26/10/2026)
- Revolução de 1930 — História do Mundo (acesso em 26/10/2026)
- Golpe Preventivo de 1955 — História do Mundo (acesso em 26/10/2026)
- 1955 Brazilian presidential election — Wikipedia em inglês (acesso em 26/10/2026)
- Preventative Coup of November 11 — Wikipedia em inglês (acesso em 26/10/2026)
- PSDB pede ao TSE auditoria no sistema de apuração de votos — Congresso em Foco, 31/10/2014 (acesso em 26/10/2026)
- Auditoria do PSDB não encontrou fraude na eleição de 2014 — Congresso em Foco, 05/11/2015 (acesso em 26/10/2026)
- TSE multa coligação de Bolsonaro por “má-fé” ao pedir anulação de votos — O Povo (AFP), 23/11/2022 (acesso em 26/10/2026)
- PGR denuncia mais 152 pessoas por atos golpistas de 8 de janeiro; total chega a 653 — O Povo, 04/02/2023 (acesso em 26/10/2026)
- Defesa entregará relatório sobre urnas ao TSE na quarta-feira — Agência Brasil, 07/11/2022 (acesso em 26/10/2026)
- Ministério da Defesa entrega relatório sobre urnas eletrônicas ao TSE — Istoé, 09/11/2022 (acesso em 26/10/2026)
- Lula autoriza emprego das Forças Armadas para garantir segurança nas eleições de 2026 — Gazeta do Povo, 21/07/2026 (acesso em 26/10/2026)
- Ministério da Defesa aprova diretriz para emprego das Forças Armadas — Atlas Público, 14/08/2026 (acesso em 26/10/2026)
- Henrique Batista Duffles Teixeira Lott, General, Ministro da Guerra, participa da inauguração do Colégio Militar de Belo Horizonte — Wikimedia Commons (domínio público) (acesso em 26/10/2026)



