SisGAAz tem primeira unidade prevista para 2026 e verba sem previsão
O SisGAAz, da Marinha, deve vigiar 5,7 milhões de km² de mar. Projeto iniciado em 2009, ele segue em implantação gradual e sem previsibilidade orçamentária.

O Brasil tem sob sua jurisdição cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados de mar. Jurisdição é o direito de fiscalizar e decidir o que acontece nessas águas. Essa área é chamada de Amazônia Azul.
Para vigiá-la, a Marinha do Brasil desenvolve o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz). Em abril de 2026, a Revista Sociedade Militar (RSM) descrevia o projeto em implantação gradual, com base em informações da Marinha.
O que o sistema deve fazer
O projeto começou em 2009, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de 2019. A ideia é reunir sensores e informações num só sistema, para a Marinha acompanhar o que passa no mar.
Segundo a RSM, o programa prevê sensores, telecomunicações e um sistema que organiza os dados. Na primeira fase, radares de curto e médio alcance chegam a 50 milhas náuticas, cerca de 80 quilômetros. Radares além do horizonte devem vir depois, para cerca de 200 milhas.
A primeira unidade costeira fica no Farol de Castelhanos, em Ilha Grande (RJ). Segundo a Click Petróleo e Gás, o Consórcio Miramar, formado pelas empresas SIATT e BEN, a constrói. Ela terá radares, câmeras ópticas e infravermelhas e equipamentos de identificação automática de navios (AIS, sigla em inglês).
Onde o projeto está
O programa tem histórico de atrasos. Em março de 2014, a Marinha lançou um pedido de propostas. A revista DefenceIQ deu no título o valor de 4,4 bilhões de dólares, sem explicar o que ele cobre.
Em 2019, um estudo do Ipea afirmou que o programa “encontra-se parado em fase de reformulação por conta de restrições orçamentárias” desde 2015, segundo o Money Times. Em julho de 2025, a Sociedade Militar publicou declaração do gerente do programa. Ele é o capitão de mar e guerra Maurício Pires Malburg: “Estamos implementando capacidades gradualmente, mas com o olho no futuro, incluindo sensores óticos e infravermelhos.”
Em abril de 2026, a Agência Marinha de Notícias, citada pela RSM, disse que o SisGAAz “não possui previsibilidade orçamentária para sua manutenção e expansão”. O orçamento total da Marinha caiu cerca de 60% em dez anos. Foi de R$ 7 bilhões em 2015 para R$ 3 bilhões em 2025, segundo a Sociedade Militar, que cita a CNN Brasil.
Para a primeira unidade, a previsão de abril de 2026 era de entrega no primeiro semestre. A entrada efetiva em operação depende da conclusão do cronograma da Marinha.
Três sistemas vigiam espaços diferentes, com dados públicos desiguais
Além do SisGAAz, o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), do Exército, cuida da fronteira terrestre. O Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), operado pelo Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), cobre a floresta. A tabela compara os três.
Só o Sisfron tem custo estimado em auditoria; o SisGAAz não tem valor atualizado Área coberta e situação verificada até 23/10/2026
| Sistema | Área | Situação verificada |
|---|---|---|
| SisGAAz (Marinha) | Mar, cerca de 5,7 milhões de km² | Implantação gradual, sem previsibilidade orçamentária |
| Sisfron (Exército) | Fronteira terrestre | Projeto piloto estimado em R$ 12 bilhões, prazo de 10 anos (TCU, 2016) |
| Sipam (Censipam) | Amazônia Legal e Amazônia Azul | Em operação, segundo o Censipam |
Fonte: Sociedade Militar (2025 e 2026); Tribunal de Contas da União (TCU), Acórdão 543/2016; Censipam. Elaboração: redação.
No Sisfron, o Tribunal de Contas da União (TCU) registrou em 2016 “baixa execução dos subsistemas” do projeto piloto, um diagnóstico com data e recorte próprios.
O Censipam, subordinado ao Ministério da Defesa, diz atuar também na Amazônia Azul. O SisGAAz, porém, é um projeto separado, da Marinha.
A foz do Amazonas, onde o rio encontra o mar, pode ser o trecho mais sensível. A página do 4º Distrito Naval diz que cabe à Marinha proteger essa desembocadura. Nas fontes consultadas, não há detalhe público de radares do SisGAAz nessa área nem na Margem Equatorial.
O que diz a Marinha: Em reportagem de julho de 2025, o gerente do programa afirmou que o SisGAAz está sendo implantado “gradualmente”. Em abril de 2026, a Agência Marinha de Notícias disse que o sistema “não possui previsibilidade orçamentária”, segundo a RSM.
O que isso significa
O SisGAAz existe como projeto desenhado, com uma primeira unidade prevista para 2026. O orçamento não tem previsão, e a expansão não tem prazo definido nas fontes consultadas.
Ficam abertas três perguntas: se a unidade do Rio já opera, quando chega a próxima e quanto custa o restante. As fontes consultadas não respondem a nenhuma delas.
Como fizemos: Usamos reportagens da Sociedade Militar (2025 e 2026), o Money Times sobre o estudo do Ipea (2019), o Acórdão 543/2016 do TCU e páginas do Censipam e da Marinha. Consultamos tudo em 23/10/2026. Não fizemos cálculos, e não houve contato direto com a Marinha nesta apuração.
Fontes
- Sistema da Marinha com tecnologia para proteger 5,7 milhões de km² de Amazônia Azul entra em implantação progressiva — Revista Sociedade Militar, 23/04/2026
- Revolucionário sistema da Marinha usa radares e satélites para monitorar a Amazônia Azul — Revista Sociedade Militar, 22/07/2025
- O Brasil está prestes a inaugurar o maior sistema de vigilância marítima de sua história — Click Petróleo e Gás, 03/04/2026
- Atraso no programa de proteção à Amazônia Azul pode trazer risco à segurança marítima, diz estudo — Money Times, 27/03/2019
- Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz): soberania, vigilância e defesa das águas jurisdicionais brasileiras — Ipea, repositório
- Brazil puts out RFP for $4.4 billion SisGAAz programme — DefenceIQ, 21/05/2014
- Projeto do Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras é avaliado pelo TCU — TCU, 17/03/2016
- Atuação do Censipam — Censipam (gov.br)
- 4º Distrito Naval — Marinha do Brasil
- Farol de Castelhanos - Angra dos Reis, RJ — Wikimedia Commons (foto da capa)



