Defesa do território

SisGAAz tem primeira unidade prevista para 2026 e verba sem previsão

O SisGAAz, da Marinha, deve vigiar 5,7 milhões de km² de mar. Projeto iniciado em 2009, ele segue em implantação gradual e sem previsibilidade orçamentária.

Farol de Castelhanos, em Ilha Grande (RJ), com a galeria da torre em primeiro plano e o mar ao fundo, sob um nascer do sol
O Farol de Castelhanos, em Ilha Grande (RJ), local previsto para a primeira unidade de vigilância costeira do SisGAAz.Foto: Cesar Barreto / Marinha do Brasil / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

O Brasil tem sob sua jurisdição cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados de mar. Jurisdição é o direito de fiscalizar e decidir o que acontece nessas águas. Essa área é chamada de Amazônia Azul.

Para vigiá-la, a Marinha do Brasil desenvolve o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz). Em abril de 2026, a Revista Sociedade Militar (RSM) descrevia o projeto em implantação gradual, com base em informações da Marinha.

O que o sistema deve fazer

O projeto começou em 2009, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de 2019. A ideia é reunir sensores e informações num só sistema, para a Marinha acompanhar o que passa no mar.

Segundo a RSM, o programa prevê sensores, telecomunicações e um sistema que organiza os dados. Na primeira fase, radares de curto e médio alcance chegam a 50 milhas náuticas, cerca de 80 quilômetros. Radares além do horizonte devem vir depois, para cerca de 200 milhas.

A primeira unidade costeira fica no Farol de Castelhanos, em Ilha Grande (RJ). Segundo a Click Petróleo e Gás, o Consórcio Miramar, formado pelas empresas SIATT e BEN, a constrói. Ela terá radares, câmeras ópticas e infravermelhas e equipamentos de identificação automática de navios (AIS, sigla em inglês).

Onde o projeto está

O programa tem histórico de atrasos. Em março de 2014, a Marinha lançou um pedido de propostas. A revista DefenceIQ deu no título o valor de 4,4 bilhões de dólares, sem explicar o que ele cobre.

Em 2019, um estudo do Ipea afirmou que o programa “encontra-se parado em fase de reformulação por conta de restrições orçamentárias” desde 2015, segundo o Money Times. Em julho de 2025, a Sociedade Militar publicou declaração do gerente do programa. Ele é o capitão de mar e guerra Maurício Pires Malburg: “Estamos implementando capacidades gradualmente, mas com o olho no futuro, incluindo sensores óticos e infravermelhos.”

Em abril de 2026, a Agência Marinha de Notícias, citada pela RSM, disse que o SisGAAz “não possui previsibilidade orçamentária para sua manutenção e expansão”. O orçamento total da Marinha caiu cerca de 60% em dez anos. Foi de R$ 7 bilhões em 2015 para R$ 3 bilhões em 2025, segundo a Sociedade Militar, que cita a CNN Brasil.

Para a primeira unidade, a previsão de abril de 2026 era de entrega no primeiro semestre. A entrada efetiva em operação depende da conclusão do cronograma da Marinha.

Três sistemas vigiam espaços diferentes, com dados públicos desiguais

Além do SisGAAz, o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), do Exército, cuida da fronteira terrestre. O Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), operado pelo Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), cobre a floresta. A tabela compara os três.

Só o Sisfron tem custo estimado em auditoria; o SisGAAz não tem valor atualizado Área coberta e situação verificada até 23/10/2026

Sistema Área Situação verificada
SisGAAz (Marinha) Mar, cerca de 5,7 milhões de km² Implantação gradual, sem previsibilidade orçamentária
Sisfron (Exército) Fronteira terrestre Projeto piloto estimado em R$ 12 bilhões, prazo de 10 anos (TCU, 2016)
Sipam (Censipam) Amazônia Legal e Amazônia Azul Em operação, segundo o Censipam

Fonte: Sociedade Militar (2025 e 2026); Tribunal de Contas da União (TCU), Acórdão 543/2016; Censipam. Elaboração: redação.

No Sisfron, o Tribunal de Contas da União (TCU) registrou em 2016 “baixa execução dos subsistemas” do projeto piloto, um diagnóstico com data e recorte próprios.

O Censipam, subordinado ao Ministério da Defesa, diz atuar também na Amazônia Azul. O SisGAAz, porém, é um projeto separado, da Marinha.

A foz do Amazonas, onde o rio encontra o mar, pode ser o trecho mais sensível. A página do 4º Distrito Naval diz que cabe à Marinha proteger essa desembocadura. Nas fontes consultadas, não há detalhe público de radares do SisGAAz nessa área nem na Margem Equatorial.

O que diz a Marinha: Em reportagem de julho de 2025, o gerente do programa afirmou que o SisGAAz está sendo implantado “gradualmente”. Em abril de 2026, a Agência Marinha de Notícias disse que o sistema “não possui previsibilidade orçamentária”, segundo a RSM.

O que isso significa

O SisGAAz existe como projeto desenhado, com uma primeira unidade prevista para 2026. O orçamento não tem previsão, e a expansão não tem prazo definido nas fontes consultadas.

Ficam abertas três perguntas: se a unidade do Rio já opera, quando chega a próxima e quanto custa o restante. As fontes consultadas não respondem a nenhuma delas.

Como fizemos: Usamos reportagens da Sociedade Militar (2025 e 2026), o Money Times sobre o estudo do Ipea (2019), o Acórdão 543/2016 do TCU e páginas do Censipam e da Marinha. Consultamos tudo em 23/10/2026. Não fizemos cálculos, e não houve contato direto com a Marinha nesta apuração.

Fontes