Fronteiras

Reag aparece no PCC e no Master, separada do filme de Flávio

A PF suspeita que fundos da Reag tenham movido cerca de R$ 250 milhões para o PCC, e as fontes consultadas não ligam o filme Dark Horse à facção.

Edifício-sede do Banco Central em Brasília, com duas torres de vidro escuro ligadas por uma coluna central de concreto, sob céu azul
Edifício-sede do Banco Central do Brasil, em Brasília, em março de 2023. O BC decretou a liquidação da Reag em janeiro de 2026.Foto: Leonardo Sá / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A Polícia Federal (PF) suspeita que fundos da gestora Reag tenham movimentado cerca de R$ 250 milhões para o Primeiro Comando da Capital (PCC). Gestora é a empresa que administra fundos de investimento em nome de clientes. A Reag nega. Segundo a Agência Pública, os mesmos fundos aparecem na suposta fraude do Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro.

Em novembro de 2025, Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, escreveu a Vorcaro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”. A mensagem foi enviada um dia antes da prisão do banqueiro, que ocorreu em 18 de novembro, segundo a Agência Pública. O caso Master e o filme Dark Horse têm Vorcaro em comum, mas são investigações diferentes.

A Operação Carbono Oculto, de 28 de agosto de 2025, mirou o uso de postos de combustíveis e fundos de investimento para lavar dinheiro do PCC. Lavar dinheiro é ocultar a origem ilegal de valores. A Reag Investimentos estava entre os alvos, segundo o Poder360. Em janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação da Reag, o encerramento da empresa pelo próprio regulador.

Quanto cada caso envolve

A Receita Federal investiga 40 fundos imobiliários e multimercado com patrimônio de cerca de R$ 30 bilhões, segundo o Poder360. Patrimônio é o total de bens do fundo, não o dinheiro lavado. A Agência Pública cita uma fraude de pelo menos R$ 12 bilhões sob investigação no Banco Master.

A suspeita da PF sobre o PCC envolve cerca de R$ 250 milhões, e ainda não foi provada. Em março de 2026, o fundador da gestora, João Carlos Falbo Mansur, negou à CPI do Crime Organizado qualquer ligação com o PCC. Ele disse que o Banco Master era apenas um cliente da Reag. Os valores abaixo medem coisas diferentes e não devem ser somados.

Os valores do caso medem coisas diferentes e não se somam Valores citados nas fontes, em reais, entre agosto de 2025 e outubro de 2026

Valor O que mede Fonte
R$ 30 bilhões Patrimônio de 40 fundos investigados pela Receita Federal Poder360
Pelo menos R$ 12 bilhões Fraude investigada no Banco Master Agência Pública
R$ 250 milhões Movimentação suspeita de fundos da Reag para o PCC, segundo a PF Agência Pública
R$ 134 milhões (US$ 24 milhões) Valor negociado por Vorcaro para o filme Dark Horse CNN Brasil; Aos Fatos

Fonte: Poder360, Agência Pública, CNN Brasil e Aos Fatos. Valores nominais, sem correção pela inflação, pois não comparam anos. Elaboração: redação.

O rastro do dinheiro do filme

Segundo o Intercept, Vorcaro negociou US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Parte do dinheiro foi para o Havengate, um fundo no Texas administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. Em setembro de 2025, Flávio cobrou de Vorcaro pagamentos atrasados, segundo a reportagem.

Em 22 de julho de 2026, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), abriu inquérito a pedido da PF, com aval da Procuradoria-Geral da República (PGR). A apuração trata de lavagem de dinheiro, evasão de divisas (tirar dinheiro do país sem declará-lo às autoridades) e corrupção. Flávio é investigado, não réu.

A PF descreve uma divergência “severa” entre os valores que saíram do Brasil e os registros de retorno, segundo a CNN Brasil. Em outubro, a corporação pediu ao Ministério da Justiça cooperação dos Estados Unidos para rastrear o dinheiro. O ConJur informou que a PF também pediu a prorrogação do inquérito.

As versões de Flávio

Flávio afirma que o patrocínio foi privado e lícito, e que Vorcaro topou financiar o filme numa época sem nada de errado. Segundo a CNN Brasil, ele diz que a diferença nas contas se deve a “um contrato que não foi cumprido”. Em 13 de maio, antes da publicação das conversas pelo Intercept, ele respondeu a jornalistas: “É mentira”. Naquela noite, publicou um vídeo confirmando as mensagens, segundo o Aos Fatos.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele diz que o patrocínio de Vorcaro foi privado e lícito, e que não houve nenhuma contrapartida por ser senador. Atribui a diferença nas contas a “um contrato que não foi cumprido”, segundo a CNN Brasil. Diz que o dinheiro foi todo para o filme.

O que isso significa

Os números mostram escalas e investigações diferentes. As fontes consultadas não associam Flávio ao PCC: o inquérito trata de lavagem, evasão de divisas e corrupção. A checagem do Aos Fatos contou 43 declarações enganosas de Flávio sobre o caso.

Um relatório da PF ainda pede esclarecimentos sobre origem, trajeto, destino e beneficiários finais do dinheiro, segundo a CNN Brasil. Essas respostas dependem da cooperação com os Estados Unidos. Os eleitores votam no dia 25 de outubro com o inquérito ainda aberto.

Como fizemos: A tabela reúne valores divulgados pela Agência Pública, pelo Poder360, pela CNN Brasil e pelo Aos Fatos. Eles descrevem patrimônio, fraude investigada, movimentação suspeita e financiamento do filme, grandezas diferentes que não podem ser somadas. As investigações seguem sem decisão final.

Correção: uma versão anterior deste texto falava em 43 declarações falsas de Flávio. A contagem do Aos Fatos é de 43 declarações enganosas. A versão também atribuía a Flávio a negativa de uso de dinheiro público; essa afirmação vem de perícia contratada pela produtora do filme, segundo a CNN Brasil. As menções a Eduardo Bolsonaro como investigado e a manchetes com a cifra de R$ 11,5 bilhões foram retiradas.

Fontes