Rios e estradas

Dólar a R$ 5,40 rende mais ao exportador e encarece insumo importado

Soja e milho faturam em dólar e pagam custos em reais; adubo e diesel importados ficam mais caros com a alta da moeda americana.

Ilustração abstrata em verde-escuro e dourado, sem elementos figurativos, usada como imagem provisória
Imagem provisória: ilustração abstrata nas cores do jornal, até que uma foto licenciada seja publicada.Ilustração: Imagem provisória

Na segunda-feira (26), o dólar à vista fechou em alta de 8,21%, a R$ 5,4029. No mesmo pregão, o Ibovespa, índice que reúne as ações mais negociadas da B3, a bolsa de valores de São Paulo, caiu 13,88%, aos 176.608 pontos. Os dados são do Bom Dia Mercado.

O movimento veio depois do segundo turno de 25 de outubro, vencido por Lula. A RumoNews relata que a alta desfez uma aposta de semanas na vitória de Flávio Bolsonaro.

Esta reportagem olha para outra conta. Para quem vende soja e milho ao exterior, um dólar mais alto rende mais reais por venda. Para quem compra insumos de fora, o efeito é o contrário.

Quanto rende a exportação em reais

O exportador recebe em dólar, mas paga em reais parte dos custos, como salários, frete e combustível. Em artigo de 2019, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), ligado à USP, escreveu que o agro é um “setor que exporta bastante e importa pouco”.

Em agosto, a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) registrou 9,81 milhões de toneladas de soja em grão exportadas, alta de 5,2%. A receita foi de US$ 4,411 bilhões, 14% acima de um ano antes. A Secex é um órgão do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Em setembro, a receita da soja em grão subiu 11,9%, segundo levantamento da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp) com dados do MDIC.

O efeito chega ao porto. O indicador do Cepea para Paranaguá, no Paraná, marcou R$ 155,55 por saca de 60 quilos em 26/10. A alta foi de 2,06% sobre sexta-feira (23), quando estava em R$ 152,41, segundo a tabela publicada pelo Notícias Agrícolas.

Na bolsa, ações de exportadoras também subiram. A Suzano avançou 10,08%, a R$ 47,40, e a Vale subiu 4,01%, a R$ 64,38. As ações preferenciais da Petrobras caíram 8,18%, a R$ 53,88, segundo o Bom Dia Mercado.

O Arco Norte é o conjunto de portos do Norte por onde saem grãos. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) registra que, de janeiro a julho de 2026, esses portos responderam por 46,12% do milho exportado. A Conab contou 82,9 milhões de toneladas de soja exportadas no país no período.

Quem paga em dólar

O câmbio pesa do outro lado. Segundo o MDIC, citado pelo Notícias Agrícolas, o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes usados na agricultura. Quando o dólar sobe, o adubo de fora custa mais em reais.

Antes da alta de hoje, o preço já subia. No primeiro semestre de 2026, o país importou 18,3 milhões de toneladas de fertilizantes, por US$ 7 bilhões. O preço médio foi 16,5% maior que um ano antes, com dados de comércio exterior citados pelo Agrolink.

O adubo pesa muito na conta da lavoura. Segundo o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), ele responde por 46,7% do custeio da soja em Mato Grosso na estimativa para a safra 2026/27. O diesel, combustível de caminhões e máquinas, também entra na conta. Segundo a Poder360, o Brasil compra no exterior mais de 25% do diesel que consome, e importadores alertam para risco de escassez.

O que diz a Conab: Texto da Agência Gov sobre o boletim logístico afirma: “As exportações de milho e soja cresceram no acumulado até julho de 2026, com escoamento aquecido pelos portos do Arco Norte.” Não encontramos manifestação pública da Conab sobre o câmbio desta segunda-feira.

O que isso significa

Quem sente o dólar alto no dia a dia é o consumidor de produtos importados e de combustível. Importadores de insumos têm margem menor, e o custo do plantio sobe. Para o interior, o que pesa é o preço da saca e o custo do adubo na safra 2026/27, não o pregão de um dia.

O dólar de R$ 5,40 é uma alta de um dia. Antes dela, a moeda estava perto de R$ 4,99, cálculo nosso a partir do percentual divulgado. O pânico pode reverter ou se aprofundar, e ativos podem perder valor. Nada aqui é recomendação de compra ou venda.

Como fizemos: Usamos o fechamento de 26/10/2026 do Bom Dia Mercado e da RumoNews, acessados no mesmo dia; dados da Secex sobre agosto, reportados pelo Boca; levantamento da Faesp sobre setembro, publicado pelo Agrolink em 19/10/2026; boletim da Conab de agosto, pela Agência Gov; tabela do Cepea para Paranaguá, acessada em 26/10/2026. Calculamos o dólar anterior (5,4029 dividido por 1,0821, perto de R$ 4,99) e a receita média da soja exportada em agosto (cerca de US$ 450 por tonelada). Não encontramos análise com nome de economista sobre o efeito do dólar nos exportadores em 26/10. Não houve contato direto com Conab, MDIC ou Cepea, e os dados não medem o resultado líquido de cada produtor.

Fontes