Seca reduz carga por barco e ameaça o frete em Manaus e Porto Velho
Com o Rio Negro e o Rio Madeira em queda, barcos levam menos carga, e a taxa de seca pode encarecer o transporte para cidades ribeirinhas.

Em 9 de outubro, o Rio Negro marcou 17,92 metros no Porto de Manaus. Oito dias antes, estava em 18,73 metros. A navegação continua, mas, segundo uma trading ouvida pela CNN Brasil, cada barco leva menos carga.
Em 24 de setembro, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) homologou a regra da chamada “taxa de seca”. O nome técnico é Low Water Surcharge (LWS), uma sobretaxa que empresas de navegação de contêineres podem cobrar quando o rio fica raso. Segundo a agência, a cobrança só pode ser feita se o Rio Negro, em Manaus, chegar a 17,7 metros ou menos.
Menos carga em cada viagem
Uma trading, empresa de comércio de produtos agrícolas que a CNN Brasil não identifica, diz que as embarcações levam cerca de 30% menos carga. A mesma empresa prevê perda de até 60% da capacidade por viagem no pico da seca, em novembro, e afirma que o quadro é compatível com o padrão sazonal.
A Centronave, entidade do setor de navegação, fala em risco de “interrupção do transporte marítimo de cargas para Manaus durante a seca de 2026”. O alerta vale se as empresas não recuperarem os custos pela sobretaxa. Calado é a profundidade que o casco do navio fica submerso: quanto menos água, menos carga cabe.
Um estudo da consultoria Alvarez & Marsal, citado pela entidade, estima que uma redução de 2 metros no calado diminui em 35% a capacidade dos navios. Segundo o mesmo estudo, o custo por contêiner sobe cerca de 63%.
Cidades que dependem do barco
Em Porto Velho, Rondônia, o Rio Madeira estava em 2,46 metros na sexta-feira (16). Na segunda-feira (19), subiu para 3,15 metros, ainda 78 centímetros abaixo da média de outubro, segundo a Defesa Civil municipal.
A prefeitura decretou desastre de nível II, com validade de 180 dias. Segundo o Rondoniaovivo, cerca de 22,9 mil pessoas em 85 localidades são afetadas, incluindo comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas. O decreto busca permitir o fornecimento de água potável “por meio de caminhões-pipa e embarcações”.
Segundo o Rondoniagora, “bancos de areia, pedras e outros obstáculos podem dificultar a passagem de barcos”. Em Manaus, o problema aparece na travessia. Em 9 de outubro, uma balsa rumo ao Porto da Ceasa avançava devagar, com bancos de areia expostos. Segundo o Amazonas1, ela “precisa avançar com cautela para evitar encalhar”.
Rio Negro e Rio Madeira caem em outubro, e o Madeira segue abaixo da média Cotas em metros, por data de medição, 2026; cada rio tem sua própria régua
| Local | Data | Cota (m) |
|---|---|---|
| Rio Negro, Porto de Manaus | 1º/10 | 18,73 |
| Rio Negro, Porto de Manaus | 9/10 | 17,92 |
| Referência da Antaq para a taxa de seca, Manaus | — | 17,7 |
| Rio Madeira, Porto Velho | 6/10 | 2,62 |
| Rio Madeira, Porto Velho | 16/10 | 2,46 |
| Rio Madeira, Porto Velho | 19/10 | 3,15 |
| Média de outubro, Porto Velho | — | 3,93 |
Fonte: Porto de Manaus, via Amazonas1 e CPG Click Petróleo e Gás; Defesa Civil de Porto Velho, via CPG Click e Rondoniagora; SipamHidro (Censipam), via Rondoniaovivo; Antaq. Elaboração: redação.
Em julho, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) disse acompanhar o abastecimento de combustíveis na Região Norte. Segundo a agência, não houve desabastecimento nas duas maiores secas registradas na região desde 2023.
Os patamares de restrição
Para o Rio Madeira, um relatório do Ministério de Portos e Aeroportos fixa 4 metros para o início de restrições operacionais e 2 metros para a possível paralisação da navegação. O CPG Click Petróleo e Gás, que cita reportagem da Folha de S.Paulo de 18 de outubro, diz que esses patamares não proíbem automaticamente todas as embarcações.
Segundo o mesmo site, até 19 de outubro não havia confirmação de suspensão geral do transporte na hidrovia. Em 2025, o Madeira movimentou 12,1 milhões de toneladas, 20,4% a mais que em 2024, segundo o ministério.
O que diz a Antaq: Em nota de 13 de agosto, atualizada em 20 de outubro, a agência afirma que “não esteja configurado para 2026 cenário de seca extrema semelhante ao observado nesses anos”, referindo-se a 2023 e 2024. A nota também exige aviso prévio de 30 dias antes de qualquer cobrança da sobretaxa.
O que segue em aberto
A conta ainda não está fechada. A regra da Antaq exige análise de cada empresa. A Centronave questiona o gatilho de 17,7 metros, porque, segundo a entidade, há restrições antes desse nível, e pede dragagens nos trechos críticos. A Antaq diz acompanhar a dragagem dos rios Madeira, Amazonas e Tapajós desde maio.
Com o pico previsto para novembro, o efeito mais visível até agora está na carga transportada por viagem. O custo extra para as empresas ainda depende da análise da Antaq. Os dados não mostram uma interrupção geral da navegação.
Como fizemos: A análise reúne cotas publicadas entre 1º e 19 de outubro de 2026, notas da Antaq e reportagens sobre carga e custos de navegação. A queda de 81 centímetros do Rio Negro é a diferença entre as medições de 1º e 9 de outubro. As réguas de Manaus e de Porto Velho têm referências próprias e não são comparadas entre si.
Fontes
- Antaq homologa rito da taxa de seca e nega conflito com a Marinha — Agência iNFRA, 25/09/2026 (acesso em 23/10/2026)
- Centronave alerta para risco de interrupção do transporte de cargas para Manaus na seca de 2026 — Agência iNFRA, 13/10/2026 (acesso em 23/10/2026)
- Antaq reforça ações preventivas diante dos impactos da estiagem na região amazônica — Antaq (acesso em 23/10/2026)
- Seca nos rios do Norte reduz carga de barcaças e acende alerta para o agro — CNN Brasil, 19/10/2026 (acesso em 23/10/2026)
- Rio Negro cai para 17,92 metros e dificulta travessia de balsas — Amazonas1, 09/10/2026 (acesso em 23/10/2026)
- Rio Negro desceu a 18,59 m no Porto de Manaus em 2 de outubro — CPG Click Petróleo e Gás, 04/10/2026 (acesso em 23/10/2026)
- Rio Madeira volta a subir, mas permanece abaixo do nível de referência para restringir a navegação — CPG Click Petróleo e Gás, 19/10/2026 (acesso em 23/10/2026)
- Rio Madeira sobe para 3,15 metros, mas continua abaixo da média de outubro — Rondoniagora, 19/10/2026 (acesso em 23/10/2026)
- Estiagem: seca faz praias surgirem no Rio Madeira e Porto Velho decreta emergência — Rondoniaovivo, 07/10/2026 (acesso em 23/10/2026)
- ANP monitora abastecimento de combustíveis na Região Norte para reduzir impacto do El Niño — DGABC, 03/07/2026 (acesso em 23/10/2026)
- Manaus commercial port, Brazil 06 — Wikimedia Commons (foto da capa) (acesso em 23/10/2026)



