Rios e estradas

Seca reduz carga por barco e ameaça o frete em Manaus e Porto Velho

Com o Rio Negro e o Rio Madeira em queda, barcos levam menos carga, e a taxa de seca pode encarecer o transporte para cidades ribeirinhas.

Caminhão carregado de sacos e fardos descarrega mercadorias em porto fluvial, com trabalhadores em um carrinho de mão e barcos atracados ao lado
Mercadorias são descarregadas de caminhão em porto fluvial de Manaus, ao lado de barcos atracados.Foto: Ridiculopathy / Wikimedia Commons (CC0 1.0)

Em 9 de outubro, o Rio Negro marcou 17,92 metros no Porto de Manaus. Oito dias antes, estava em 18,73 metros. A navegação continua, mas, segundo uma trading ouvida pela CNN Brasil, cada barco leva menos carga.

Em 24 de setembro, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) homologou a regra da chamada “taxa de seca”. O nome técnico é Low Water Surcharge (LWS), uma sobretaxa que empresas de navegação de contêineres podem cobrar quando o rio fica raso. Segundo a agência, a cobrança só pode ser feita se o Rio Negro, em Manaus, chegar a 17,7 metros ou menos.

Menos carga em cada viagem

Uma trading, empresa de comércio de produtos agrícolas que a CNN Brasil não identifica, diz que as embarcações levam cerca de 30% menos carga. A mesma empresa prevê perda de até 60% da capacidade por viagem no pico da seca, em novembro, e afirma que o quadro é compatível com o padrão sazonal.

A Centronave, entidade do setor de navegação, fala em risco de “interrupção do transporte marítimo de cargas para Manaus durante a seca de 2026”. O alerta vale se as empresas não recuperarem os custos pela sobretaxa. Calado é a profundidade que o casco do navio fica submerso: quanto menos água, menos carga cabe.

Um estudo da consultoria Alvarez & Marsal, citado pela entidade, estima que uma redução de 2 metros no calado diminui em 35% a capacidade dos navios. Segundo o mesmo estudo, o custo por contêiner sobe cerca de 63%.

Cidades que dependem do barco

Em Porto Velho, Rondônia, o Rio Madeira estava em 2,46 metros na sexta-feira (16). Na segunda-feira (19), subiu para 3,15 metros, ainda 78 centímetros abaixo da média de outubro, segundo a Defesa Civil municipal.

A prefeitura decretou desastre de nível II, com validade de 180 dias. Segundo o Rondoniaovivo, cerca de 22,9 mil pessoas em 85 localidades são afetadas, incluindo comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas. O decreto busca permitir o fornecimento de água potável “por meio de caminhões-pipa e embarcações”.

Segundo o Rondoniagora, “bancos de areia, pedras e outros obstáculos podem dificultar a passagem de barcos”. Em Manaus, o problema aparece na travessia. Em 9 de outubro, uma balsa rumo ao Porto da Ceasa avançava devagar, com bancos de areia expostos. Segundo o Amazonas1, ela “precisa avançar com cautela para evitar encalhar”.

Rio Negro e Rio Madeira caem em outubro, e o Madeira segue abaixo da média Cotas em metros, por data de medição, 2026; cada rio tem sua própria régua

Local Data Cota (m)
Rio Negro, Porto de Manaus 1º/10 18,73
Rio Negro, Porto de Manaus 9/10 17,92
Referência da Antaq para a taxa de seca, Manaus — 17,7
Rio Madeira, Porto Velho 6/10 2,62
Rio Madeira, Porto Velho 16/10 2,46
Rio Madeira, Porto Velho 19/10 3,15
Média de outubro, Porto Velho — 3,93

Fonte: Porto de Manaus, via Amazonas1 e CPG Click Petróleo e Gás; Defesa Civil de Porto Velho, via CPG Click e Rondoniagora; SipamHidro (Censipam), via Rondoniaovivo; Antaq. Elaboração: redação.

Em julho, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) disse acompanhar o abastecimento de combustíveis na Região Norte. Segundo a agência, não houve desabastecimento nas duas maiores secas registradas na região desde 2023.

Os patamares de restrição

Para o Rio Madeira, um relatório do Ministério de Portos e Aeroportos fixa 4 metros para o início de restrições operacionais e 2 metros para a possível paralisação da navegação. O CPG Click Petróleo e Gás, que cita reportagem da Folha de S.Paulo de 18 de outubro, diz que esses patamares não proíbem automaticamente todas as embarcações.

Segundo o mesmo site, até 19 de outubro não havia confirmação de suspensão geral do transporte na hidrovia. Em 2025, o Madeira movimentou 12,1 milhões de toneladas, 20,4% a mais que em 2024, segundo o ministério.

O que diz a Antaq: Em nota de 13 de agosto, atualizada em 20 de outubro, a agência afirma que “não esteja configurado para 2026 cenário de seca extrema semelhante ao observado nesses anos”, referindo-se a 2023 e 2024. A nota também exige aviso prévio de 30 dias antes de qualquer cobrança da sobretaxa.

O que segue em aberto

A conta ainda não está fechada. A regra da Antaq exige análise de cada empresa. A Centronave questiona o gatilho de 17,7 metros, porque, segundo a entidade, há restrições antes desse nível, e pede dragagens nos trechos críticos. A Antaq diz acompanhar a dragagem dos rios Madeira, Amazonas e Tapajós desde maio.

Com o pico previsto para novembro, o efeito mais visível até agora está na carga transportada por viagem. O custo extra para as empresas ainda depende da análise da Antaq. Os dados não mostram uma interrupção geral da navegação.

Como fizemos: A análise reúne cotas publicadas entre 1º e 19 de outubro de 2026, notas da Antaq e reportagens sobre carga e custos de navegação. A queda de 81 centímetros do Rio Negro é a diferença entre as medições de 1º e 9 de outubro. As réguas de Manaus e de Porto Velho têm referências próprias e não são comparadas entre si.

Fontes