Rios e estradas

Ponte Brasil-Bolívia: contrato de 2025 não cabe na previsão de 2027

Obra com ordem de serviço de agosto de 2025 tem prazo de 36 meses. Documentos de 2026 mostram projetos em elaboração e a estrada boliviana ainda em estudo.

Ilustração abstrata em cores da marca do Jornal Brasil Soberano, sem representar a ponte nem o rio
Imagem provisória: ilustração abstrata enquanto não há foto licenciada da ponte sobre o Rio Mamoré.Ilustração: Imagem provisória

Em 8 de agosto de 2025, o governo federal assinou a ordem de serviço para a ponte sobre o Rio Mamoré. A obra vai ligar Guajará-Mirim, em Rondônia, a Guayaramerín, na Bolívia. Pouco mais de 14 meses depois, os documentos verificados não informam data firme de entrega.

A pergunta deste texto é o que a ponte muda para o comércio e a integração, e se a obra cumpre os prazos anunciados. A resposta curta: a obra começou devagar, e as datas anunciadas antes não se confirmaram.

Do “projeto pronto” ao contrato de 2025

Em agosto de 2023, o ministro dos Transportes, Renan Filho, disse à Rede Amazônica: “Nós estamos com o projeto 100% pronto”. O prazo era começar as obras no primeiro semestre de 2024, segundo o Portal Amazônia. Esse prazo não foi cumprido.

Em 14 de novembro de 2023, Renan Filho assinou o edital em Brasília. O custo estimado era de R$ 429,5 milhões, a ser pago pelo Brasil. A estrutura teria 1,22 quilômetro e um vão central sustentado por cabos.

O Tribunal de Contas da União (TCU) entrou no caso em 2024. Em 28 de agosto, mandou o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) anular a desclassificação do Consórcio Mamoré. O processo voltou à fase de julgamento das propostas.

Em 8 de agosto de 2025, a ordem de serviço foi assinada em Porto Velho, com o presidente Lula e Renan Filho presentes. O contrato é do Consórcio Mamoré, no valor de R$ 421,4 milhões. Ele inclui projeto básico, que é o estudo técnico inicial, e projeto executivo, que detalha a obra.

Marcos verificados, 2023 a 2026

Data O que aconteceu
08/08/2023 Renan Filho diz que o projeto está “100% pronto”
14/11/2023 Edital assinado; custo estimado de R$ 429,5 milhões
28/08/2024 TCU manda anular a desclassificação do Consórcio Mamoré
08/08/2025 Ordem de serviço assinada; contrato de R$ 421,4 milhões
Março de 2026 DNIT informa canteiro instalado e sondagens em andamento
Maio de 2026 Contrato ainda na fase de projeto básico
14/08/2026 Governo boliviano diz que a obra brasileira já começou

Fonte: notas e reportagens listadas em Fontes. Valores nominais.

O que os sinais de 2026 mostram

Em março, o DNIT informou que a obra entrou na fase de execução. As etapas citadas são a instalação do canteiro de obras e as sondagens, que são furos no solo e no rio para medir o terreno. Em maio, a documentação do contrato ainda tratava do projeto básico, segundo o site O Antagonista.

Em julho, o prefeito de Guajará-Mirim, Fábio Garcia de Oliveira, afirmou que “as obras não estão paralisadas”. Um texto publicado no mesmo mês dizia que o projeto ainda estava na fase de sondagem. As fontes consultadas não descrevem pilares ou vão da ponte já erguidos.

O lado boliviano ainda está em estudo

Em 14 de agosto de 2026, uma nota do governo boliviano informou que a Administradora Boliviana de Carreteras (ABC), órgão de estradas do país, assinou contrato para o estudo técnico da via de acesso. A estrada teria cerca de 18,3 quilômetros. O estudo de custos leva 10 meses, e só depois se buscará financiamento.

A nota também prevê controles aduaneiros, policiais e sanitários no complexo de fronteira. Ela estima cerca de 400 empregos diretos e indiretos na região. Na prática, a ponte só vira rota comercial quando a estrada boliviana estiver pronta.

O site News Rondônia descreve a obra como “estratégica para consolidar o corredor bioceânico da Amazônia Norte”. Um corredor bioceânico liga o Atlântico ao Pacífico. Não encontramos estimativa pública verificada de volume de carga que a ponte deve movimentar.

O que diz o DNIT: Em março de 2026, o superintendente André Santos afirmou: “Trata-se de uma obra estruturante para a integração regional e internacional.” A declaração foi divulgada pelo site News Rondônia. Não localizamos atualização pública do DNIT sobre o cronograma desde então.

O que isso significa

O contrato existe, e a obra começou em etapas preliminares, segundo o DNIT e o governo boliviano. A previsão de entrega em 2027, feita em 2024, não cabe no prazo de 36 meses do contrato de 2025. Contado a partir da ordem de serviço, esse prazo chega a agosto de 2028.

Uma reportagem de julho estimou a conclusão entre 2030 e 2035, por projeção do próprio texto. Não há cronograma oficial atualizado e verificado. Ficam em aberto três pontos: a data de entrega, o financiamento da estrada boliviana e a fase atual dos projetos.

Como fizemos: Usamos notícias, decisões do TCU, a reportagem sobre a ordem de serviço e uma nota do governo boliviano, publicados entre 2023 e 14/08/2026, acessados em 25/10/2026. Os valores são nominais, sem correção pela inflação: R$ 429,5 milhões no edital e R$ 421,4 milhões no contrato. O prazo de agosto de 2028 é cálculo nosso: 36 meses a partir de 8/8/2025, sem considerar atrasos. Não localizamos o contrato assinado nem o painel de obras do DNIT.

Fontes