Análise assinada

A direita chega limpa a 2030 se Flávio não sujar a marca

Lula disse em 19 de outubro que esta é sua última disputa; para o editor, o voto tático de 25 de outubro existe para a direita chegar limpa a 2030.

Análise assinada. A interpretação pertence ao autor e não representa necessariamente a posição editorial do Jornal Brasil Soberano.

Fachada do Palácio do Congresso Nacional, com as duas torres altas e as cúpulas côncava e convexa, sob céu claro
Fachada do Palácio do Congresso Nacional, sede da Câmara dos Deputados e do Senado, em Brasília, em 13 de junho de 2019.Foto: Leonardo Sá / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 19 de outubro, em Porto Alegre, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aos 80 anos, disse que esta é a sua “última disputa eleitoral”. O registro é do Poder360. Vença quem vencer em 25 de outubro, uma coisa ficou dita: em 2030, Lula não estará na disputa.

Começo sendo franco, porque o leitor de direita despreza quem engana: votar em Lula é votar no PT. Ele defende um voto tático: um último mandato de Lula, vigiado por um Congresso de direita, para que a direita chegue a 2030 com a marca limpa. É o mal menor, e os números do primeiro turno mostram por quê.

No primeiro turno, em 4 de outubro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), teve 47,03% dos votos válidos. Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), teve 45,16%. Votos válidos excluem os brancos e nulos. A diferença, de 1,87 ponto percentual, equivale a cerca de 2,2 milhões de votos.

O caso Dark Horse, um filme sobre o pai do candidato, o ex-presidente Jair Bolsonaro, pesa sobre a campanha. Segundo a Agência Brasil, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), incluiu Flávio como investigado em julho, a pedido da Polícia Federal (PF). As suspeitas incluem lavagem de dinheiro (ocultar a origem de recursos ilegais) e corrupção.

A conta do primeiro turno

Somados, os votos de Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (Partido Social Democrático, PSD) e Romeu Zema (Novo) chegam a 5,34% dos votos válidos. Os três declararam apoio a Flávio para o segundo turno. Essa soma é quase três vezes a distância entre ele e Lula.

Não há garantia de que esses votos migrem. Cury confirmou o seu apoio em 8 de outubro, mas ressalvou que ele “não representa adesão irrestrita”. Zema anunciou o seu em 5 de outubro, e Caiado, em 6. O gráfico compara as duas somas; a tabela mostra a posição de cada candidato.

Gráfico de barras mostra que a soma dos votos de Cury, Caiado e Zema, 5,34 pontos percentuais, supera a diferença de 1,87 ponto entre Flávio e Lula no primeiro turno de 2026 Fonte: TSE, apuração do primeiro turno de 4 de outubro de 2026, divulgada pela imprensa (ver Fontes). Valores em pontos percentuais dos votos válidos. Elaboração: redação.

Três candidatos que apoiam Flávio somam 5,34% dos votos válidos Percentual dos votos válidos e posição no segundo turno, 1º turno de 4 de outubro de 2026

Candidato Partido Votos válidos 2º turno
Flávio Bolsonaro PL 47,03% Candidato
Lula PT 45,16% Candidato
Augusto Cury Avante 2,89% Apoia Flávio
Renan Santos Missão 2,24% Liberou os eleitores
Ronaldo Caiado PSD 2,18% Apoia Flávio
Romeu Zema Novo 0,27% Apoia Flávio

Fonte: TSE, apuração divulgada pela imprensa; posições segundo as reportagens listadas em Fontes. Elaboração: redação.

O freio existe — e é grande

O PL elegeu a maior bancada da Câmara dos Deputados, com 121 deputados, e terá 28 senadores, segundo a Agência Brasil. Se Lula vencer, o PL fica com a maior bancada de oposição na Câmara. Uma oposição forte fiscaliza, bloqueia o que precisa bloquear e se prepara para 2030.

O filme teria sido bancado com dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master. Segundo a Agência Brasil, a suspeita é que ele tenha repassado R$ 61 milhões ao filme, a pedido do senador. Flávio não negou a autenticidade das gravações publicadas pelo Intercept Brasil, em que pede recursos ao banqueiro. Ele diz que não há nada de errado em buscar dinheiro privado para o filme.

A promessa de mandato único não resolve o problema: a PEC (proposta de emenda à Constituição) precisa de três quintos dos votos nas duas Casas. Segundo a Gazeta do Povo, a proposta, apresentada em março, não avançou no Senado. Para o analista Leandro Gabiati, da consultoria Dominium, o principal objetivo da PEC é simbólico e eleitoral. Promessa parada não é freio constitucional.

A própria direita já fez essa conta

Kim Kataguiri, cofundador do Movimento Brasil Livre (MBL), disse em 13 de maio: “Flávio Bolsonaro é um bandido e a direita brasileira não pode ser refém de bandido”. Em 2025, já o havia chamado de corrupto por causa da rachadinha (quando servidores devolvem parte do salário ao político), recordou O Antagonista. Aliados de Tarcísio de Freitas, sem se identificar, veem a derrota de Flávio como chance para 2030, segundo o PlatoBR. O colunista Sílvio Ribas, da Gazeta do Povo, escreveu que uma vitória de Lula dá boa chance de os Bolsonaro ficarem fora da eleição seguinte.

O que diz o campo de Flávio Bolsonaro: Zema, que o apoia, resume a posição: “Voto contra o PT, voto no Flávio Bolsonaro”. Sobre 2030, Flávio diz que não disputará a reeleição se eleito e defende o fim da reeleição para presidente. Essas posições vêm de declarações públicas, reportadas pela Agência Brasil e pela Gazeta do Povo.

O que isso significa

Com a maior bancada da Câmara na oposição, a direita pode disputar cada ponto da agenda nacional. Ocupada em explicar Vorcaro, ela não disputa nada. Perder uma eleição dói. Ver a direita amarrada a uma família e a um inquérito por uma geração dói mais, e não passa.

Lula disse que esta é sua última disputa. Um nome limpo da direita poderá ganhar em 2030, mas só se a marca não ficar suja agora. O dia 25 de outubro existe para isso.

Como fizemos: A análise usa os votos válidos do primeiro turno de 4 de outubro de 2026, atribuídos ao TSE pelas reportagens. A soma dos percentuais de Cury, Caiado e Zema é comparada à diferença entre Flávio e Lula. Apoio declarado não garante transferência de votos, e a coluna não usa pesquisas eleitorais para estimar o resultado do segundo turno.

Fontes