Análise assinada

Plano de Flávio tem números para prisões e rótulo para o dinheiro

Nesta coluna: o plano de Flávio Bolsonaro promete 500 mil vagas em quatro anos. Para o dinheiro das facções, oferece rótulo e bloqueio de bens.

Análise assinada. A interpretação pertence ao autor e não representa necessariamente a posição editorial do Jornal Brasil Soberano.

Vista aérea de torres comerciais às margens do rio Pinheiros, com a Ponte Estaiada ao fundo, cercadas por bairros de casas baixas de telhado vermelho
Vista aérea de torres comerciais às margens do rio Pinheiros, em São Paulo, em outubro de 2007.Foto: Caio do Valle / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Mais de mil postos de combustíveis foram alvo de irregularidades na Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025 contra o dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo a Receita Federal, esses postos movimentaram cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Uma única fintech, empresa de serviços financeiros digitais, movimentou R$ 46 bilhões no mesmo período.

Combater o crime organizado exige ação tanto nas ruas quanto nas estruturas financeiras. O plano de Flávio Bolsonaro, lido com atenção, concentra-se na ponta mais visível do problema.

Força para baixo

Quem defende a polícia sabe o que o policial enfrenta no beco. Ninguém aqui é contra prender bandido. O problema é acreditar que só a força resolve.

O plano aposta quase tudo nela. Prevê cinco presídios de segurança máxima no modelo de El Salvador e 500 mil novas vagas prisionais em quatro anos. Propõe reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos. Quer acabar com a progressão de regime, a passagem para condições mais brandas, nos crimes hediondos.

Para criminosos armados de fuzil, o texto diz que “bandido armado com fuzil na mão vai ser abatido pelas forças de segurança”, segundo o SBT News. Paiva, da Universidade Federal do Ceará (UFC), ouvido pela Folhapress, classifica as medidas como “populistas, sem evidência”.

Segundo a Folhapress, Grillo, da Universidade Federal Fluminense (UFF), e outros especialistas dizem que penas maiores e prisão em massa não reduziram o crime historicamente.

Apelo para cima

Em 18 de junho, Flávio foi à Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, e pediu ao mercado ajuda para “asfixiar economicamente as facções criminosas”. Seu aliado Guilherme Derrite disse que é possível tirar de circulação as “fintechs de fachada”, ou seja, empresas usadas para esconder dinheiro.

Segundo a Gazeta do Povo, porém, não houve medida específica para o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a Receita ou as fintechs. O Coaf recebe alertas de movimentações suspeitas. Na favela, o plano promete abate. Na Faria Lima, promete parceria.

Há uma medida financeira no plano: Flávio quer declarar PCC, Comando Vermelho (CV) e milícias como organizações narcoterroristas, ou seja, ligadas ao tráfico. O plano também prevê bloquear os bens dessas organizações. Em dezembro de 2025, o Senado rejeitou um destaque que equiparava ações de facções ao terrorismo; Flávio não estava no plenário, segundo a Bahia Notícias. Rótulo não é rastreamento.

Os aliados no caminho do dinheiro

Em abril, Flávio declarou “apoio integral, 100%” ao pré-candidato ao Senado Márcio Canella. Em 15 de outubro, a Polícia Federal (PF) prendeu Canella, que é investigado e não foi condenado. Segundo a PF, o grupo usava uma rede de postos para lavar dinheiro.

Um relatório do Coaf apontou cerca de R$ 7,6 bilhões em transações suspeitas em seis anos. Flávio disse à CNN Brasil que foi surpreendido com a prisão.

Em maio, o The Intercept Brasil divulgou um áudio em que Flávio chama de “irmão” o banqueiro Daniel Vorcaro. Nele, Flávio cobra R$ 134 milhões. Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro de 2025.

Flávio negou o áudio no primeiro momento, dizendo “é mentira”. Depois, confirmou a cobrança e disse que era patrocínio para um filme sobre seu pai.

Sejamos justos com o que é verdade. Flávio votou a favor do projeto antifacção, aprovado por 64 votos a 0 no Senado em 10 de dezembro de 2025. Após a operação contra o CV no Rio, em outubro de 2025, ele arrecadou cerca de R$ 872 mil. O valor, segundo o Diário do Rio, era para famílias de quatro policiais mortos.

Outras reportagens deram valores menores, como R$ 531 mil, segundo a Poder360. A tabela abaixo mostra os números citados.

Só as prisões têm metas numéricas no plano de Flávio Valores e datas como publicados pelas fontes, de 2020 a 2026; valores não corrigidos pela inflação

Dado Valor Período
Novas vagas prisionais previstas 500 mil 4 anos (proposta)
Presídios de segurança máxima previstos 5 Proposta
Movimentação dos postos investigados R$ 52 bi 2020 a 2024
Movimentação de uma fintech R$ 46 bi 2020 a 2024
Transações suspeitas apontadas pelo Coaf no caso Canella R$ 7,6 bi 6 anos
Votos a favor do PL Antifacção no Senado 64 a 0 10/12/2025
Arrecadação para famílias de policiais mortos R$ 531 mil a R$ 872 mil Nov. 2025

Fonte: SBT News (plano); Poder360 e Receita Federal (movimentações); Congresso em Foco (Coaf); Portal Tela (votação no Senado); Diário do Rio e Poder360 (arrecadação). Valores não corrigidos pela inflação. Elaboração: redação.

O que diz Flávio Bolsonaro: Segundo o SBT News, o plano prevê declarar PCC, CV e milícias como organizações narcoterroristas e bloquear seus bens. Sobre o caso Canella, ele disse à CNN Brasil que foi surpreendido com a prisão. Sobre o áudio com Vorcaro, confirmou a cobrança e disse que era patrocínio para um filme.

O que isso significa

A direita que respeita a polícia quer o crime cercado por cima e por baixo. Quer o fuzil apreendido na comunidade e o fundo bloqueado na avenida. Um plano que só olha para baixo deixa o policial no beco e o chefe no escritório.

Combater o crime da esquina ao andar de cima não é slogan de esquerda. É o que qualquer delegado sério faz: segue o dinheiro até onde ele mora. Por isso defendo um voto tático no dia 25: Lula governaria vigiado por uma oposição de direita no Congresso. Sem defender um governo Flávio, a direita pode cobrar o combate ao dinheiro do crime e preparar um candidato melhor para 2030.

Como fizemos: A análise usa as propostas publicadas pelo SBT News e os valores da Receita Federal citados pelo Poder360, além das demais reportagens listadas. A média de 125 mil vagas por ano divide 500 mil por quatro. Os valores são nominais e as movimentações são fluxos suspeitos apontados em investigações, não prova de quanto dinheiro tem origem criminosa.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que Vorcaro foi preso um dia depois de Canella; o correto é que ele foi preso pela primeira vez em novembro de 2025. A versão também atribuía à PF a liderança de Canella e o valor de R$ 7,6 bilhões; o valor vem de um relatório do Coaf, e a liderança não foi confirmada. Por fim, dizia que o plano “reduz” a maioridade penal; o plano prevê apoiar e sancionar a redução.

Fontes