Análise assinada

Fumaça em Manaus pede brigadas permanentes, não só emergência

Manaus cancelou o aniversário de 357 anos por causa da fumaça. O combate ao fogo precisa virar estrutura permanente, com brigadas e punição.

Análise assinada. A interpretação pertence ao autor e não representa necessariamente a posição editorial do Jornal Brasil Soberano.

Pessoa de macacão amarelo com o logotipo do Ibama segura uma planta seca e queimada, com o chão escuro de uma área atingida pelo fogo ao fundo
Agente com uniforme do Ibama segura planta queimada durante operação de combate a incêndios na Amazônia, em 2019.Foto: Vinícius Mendonça / Ibama / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Na quarta-feira (21), a Prefeitura de Manaus cancelou toda a programação do aniversário da cidade, que completa 357 anos no dia 24. A causa foi a fumaça das queimadas, que deixou o ar da capital em estado crítico. Segundo a Gazeta da Amazônia, a decisão seguiu recomendações da Defesa Civil municipal e da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa).

A decisão está certa. A própria prefeitura resume o motivo: “a prioridade é proteger a saúde e preservar a vida das pessoas”. O problema é o que vem depois. Quando a fumaça volta a cada seca forte, a emergência deixa de ser exceção.

Os focos de calor, pontos de fogo detectados por satélite, mostram a dimensão. Segundo o Inpe, o Amazonas teve 8.177 deles entre 1º de janeiro e 18 de outubro de 2026. É 111% mais que no mesmo período de 2025, mas 49% abaixo da média histórica do estado, segundo a Gazeta da Amazônia.

Em setembro, foram 3.726 focos, quase quatro vezes os 942 do mesmo mês de 2025, também segundo o Inpe, citado pelo O Liberal. Entre 1º e 10 de outubro, o Painel do Fogo do Censipam, órgão federal que monitora a região, registrou 1.380 focos, contra 372 no mesmo período do ano passado. Na capital, a concentração de partículas finas (PM2,5), que entram nos pulmões, chegou a 401,4 microgramas por metro cúbico em 17 de outubro, às 6h30. A Defesa Civil municipal classificou o índice como péssimo, segundo O Liberal.

Não é a primeira vez

Em outubro de 2023, a fumaça também levou a prefeitura a suspender eventos. Entre eles estava o festival Boi Manaus, que tradicionalmente marca o aniversário da capital, segundo o Brasil Agro. Três anos depois, o roteiro se repete.

A resposta federal também aparece em números. Segundo a ClimaInfo, o Ibama já aplicou cerca de R$ 2 milhões em multas por incêndios ilegais na Amazônia. Na última semana de operações, foram 19 autos de infração e 250 hectares embargados. Um boletim de 14 de outubro registra 238 profissionais do Prevfogo, o grupo de brigadistas do Ibama, em duas frentes de combate no Amazonas.

Em 9 de outubro, o comandante do Corpo de Bombeiros do Amazonas, coronel Orleilso Muniz, disse que o estado “ainda não havia recebido apoio” federal, segundo O Liberal. No mesmo período, o governo federal dizia ter oferecido apoio. A discordância mostra o mesmo problema: a ajuda chega como operação de emergência, não como rotina.

A lei existe. Falta estrutura permanente

Em 31 de julho de 2024, entrou em vigor a Lei 14.944, que criou a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF). A política organiza o uso e o controle do fogo com planejamento e com a participação de União, estados, municípios e sociedade. Ela prevê brigadas florestais, equipes treinadas para prevenir e combater incêndios.

A lei também permite a queima controlada, mas só com autorização e dentro de um plano de manejo. Há dois argumentos contrários, e ambos têm resposta nos fatos. O primeiro é antigo: queimar é ferramenta de quem trabalha na roça. A lei reconhece isso. Mas ela separa a queima autorizada do incêndio criminoso, e separar as duas na prática exige gente em campo o ano inteiro.

O segundo argumento é que o fogo virou arma da disputa eleitoral. Segundo a Gazeta da Amazônia, o presidente do Ibama, Jair Schmitt, disse que a “guerra política nas redes sociais” pode estar incentivando incêndios criminosos. É uma hipótese. Não há prova pública disso até agora, e o governo federal diz investigar se houve ação coordenada. Do outro lado, o prefeito Renato Junior atribuiu a fumaça a outros lugares: “Manaus não está em chamas. As chamas vêm de outros municípios e até de outros Estados”. A disputa política também existe aqui. Qualquer que seja a causa, porém, a resposta é a mesma: brigada, fiscalização e punição.

O terceiro argumento é o custo. Manter brigadas permanentes exige orçamento planejado, enquanto a emergência já produz gastos e perdas: eventos cancelados, aulas suspensas e 82 atendimentos de urgência ligados à fumaça em Manaus entre 1º e 8 de outubro, segundo a Secretaria de Estado da Saúde do Amazonas (SES-AM). A própria SES diz que esses registros, isoladamente, não permitem estabelecer relação de causa e efeito.

O que diz o Ibama: Segundo a Gazeta da Amazônia (20/10/2026), o presidente do instituto, Jair Schmitt, afirmou que a “guerra política nas redes sociais” pode estar incentivando incêndios criminosos. A reportagem trata a hipótese como não comprovada.

O que segue em aberto é a autoria do fogo. A investigação federal ainda precisa dizer se houve ação coordenada, e não há resposta pública para isso hoje.

O que não está em aberto é a necessidade de estrutura permanente. Manaus cancelou a festa porque o ar não permitia. Na próxima seca, a cidade vai depender de brigadistas, fiscalização e punição já funcionando. Soberania na Amazônia também é o Estado chegar antes da fumaça, e não só depois.

Como fizemos: A coluna reúne dados do Inpe, do Censipam e do Ibama publicados em reportagens entre 9 e 21 de outubro de 2026, além da Lei 14.944/2024 apresentada pela Agência Câmara. Os percentuais são mantidos com atribuição. Focos de calor não medem área queimada nem identificam a causa do fogo.

Fontes