Análise assinada

Medir a própria floresta é soberania, e o Inpe merece verba estável

Satélites e aviões medem a floresta e o carbono da Amazônia. Quem mede o próprio território exerce soberania, e o Inpe precisa de verba estável.

Análise assinada. A interpretação pertence ao autor e não representa necessariamente a posição editorial do Jornal Brasil Soberano.

Imagem de satélite em falsa cor mostra áreas de desmatamento em tons rosados e roxos, cortadas por estradas e por um rio escuro, com manchas de nuvens brancas
Imagem de satélite CBERS-4 mostra desmatamento recente em Novo Progresso, no Pará, na Amazônia, captada em 2017 e 2018.Foto: Coordenação-Geral de Observação da Terra/INPE / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

No Brasil, quem mede a floresta é o Estado. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, o desmatamento na Amazônia somou 3.335 km², segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A área é 41,8% menor que a do ciclo anterior. O número saiu de sistemas desenvolvidos pelo próprio instituto.

Medir o próprio território é mais que estatística. Um país que vê a sua floresta com olhos próprios decide com informação própria. Um país que depende de medições feitas por outros aceita o que outros dizem sobre o seu chão.

Nesta quarta-feira (21), a revista científica Nature publicou um estudo liderado por cientistas do Inpe. Ele usou dados de voos de pequenos aviões entre 2010 e 2024. Em média, a Amazônia liberou 1,17 bilhão de toneladas de dióxido de carbono (CO2) a mais do que absorveu a cada ano. O CO2 é o principal gás do efeito estufa.

O Inpe divulgou a queda de 41,8% em 16 de outubro. O próprio instituto ressalva que o número da Amazônia é uma estimativa, baseada em imagens prioritárias. O Prodes é o levantamento anual oficial do desmatamento. Já o Deter é um sistema de avisos em tempo próximo ao real.

Medir é o primeiro passo para decidir

A pesquisa também aponta a causa principal. Segundo o Inpe, as atividades humanas, especialmente o desmatamento e as queimadas, dominam as emissões de carbono em dois dos três grupos de anos analisados. As queimadas foram a principal fonte, e o instituto associa 98% delas à ação humana.

Se a causa é humana, a política pública pode mudar o resultado. Mas o Estado só age sobre o que consegue ver, e em tempo útil. Por isso a medição não é detalhe técnico.

Só uma série longa e contínua permite comparar um ano com o outro. É assim que se sabe se uma queda é real.

Os dois argumentos contra, e o que os fatos mostram

O primeiro argumento é o dinheiro. Por que um instituto nacional depende de recursos de fora? A pergunta é legítima, e os dados ajudam a respondê-la.

O Fundo Amazônia é gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), banco público brasileiro, e recebe doações não reembolsáveis. Entre 2009 e 2018, a Noruega deu cerca de 93,8% do total, e a Alemanha, 5,7%, segundo o Poder360. O projeto SIM-Biomas, de R$ 147,6 milhões, será executado pela Fundação de Ciência, Aplicações e Tecnologia Espaciais (Funcate), com a parte técnica a cargo do Inpe.

O risco real é a concentração. Um instituto estratégico que depende de um único grande doador fica exposto a mudanças de prioridade do outro lado do Atlântico.

A história recente mostra como a pressão política pode atingir a ciência. Em agosto de 2019, o diretor do Inpe, Ricardo Galvão, foi exonerado depois de criticar o presidente Jair Bolsonaro. Segundo reportagem do Senado, a crise começou com a divulgação de dados de desmatamento.

O segundo argumento diz que inteligência artificial (IA) não substitui a fiscalização em campo. Nisso, a crítica está certa. O próprio Inpe diz que o Deter produz avisos para orientar a fiscalização. Quem age sobre a área são os órgãos de fiscalização ambiental.

Mas a conclusão não é contra o monitoramento. Sem essa medição, a fiscalização tem menos informação para decidir onde agir. O SIM-Biomas quer integrar Prodes e Deter, usar IA na análise de imagens e criar indicadores de risco de desmatamento e degradação.

O projeto tem prazo previsto de execução de 60 meses. Depois disso, a continuidade depende de decisões futuras do Estado. Doações podem ajudar, mas não deveriam ser o alicerce.

Monitorar a floresta é exercer soberania. O Inpe merece um financiamento público que dure mais que um projeto, para que o Brasil continue sabendo o que acontece no seu território.

O que diz o Inpe: Ao anunciar a aprovação do SIM-Biomas, o diretor Antônio Miguel Vieira Monteiro afirmou que a decisão “é uma grande notícia para as políticas públicas ambientais e climáticas brasileiras”. A nota está publicada no site do Inpe, em 19/10/2026.

Como fizemos: Usamos notas oficiais do Inpe de 16/10, 19/10 e 21/10/2026, o artigo da Agência FAPESP de 21/10/2026 e as reportagens citadas em Fontes, acessados em 22/10/2026. Não fizemos cálculos próprios: as áreas, as emissões e os valores são os publicados pelas fontes. Os dados de satélite medem área desmatada e alertas, não as causas de cada desmatamento.

Fontes