Flávio mira o dinheiro das facções, mas não cita o Coaf
Postos de combustível movimentaram R$ 52 bi entre 2020 e 2024. Flávio fala em sufocar o dinheiro das facções, mas o discurso não cita o Coaf.

Em 18 de junho de 2026, num evento na Faria Lima, em São Paulo, Flávio Bolsonaro pediu ao mercado financeiro ajuda para “asfixiarmos financeiramente essas organizações narcoterroristas”. Seu aliado Guilherme Derrite (PP-SP) foi além: “Temos certeza de que, juntos, podemos tirar de circulação essas fintechs de fachada”.
Segundo a Gazeta do Povo, a fala não trouxe nenhuma medida específica para o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a Receita Federal ou as fintechs. Fintechs são empresas de tecnologia que oferecem contas digitais e pagamentos. Os dados mostram quanto dinheiro está em jogo.
O Coaf recebe comunicações de operações suspeitas e as encaminha à polícia e ao Ministério Público (MP). O plano de Flávio, registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), quer declarar o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e as milícias organizações narcoterroristas. A proposta prevê bloquear os bens dos grupos, e o rótulo trata o tráfico organizado como terrorismo. Em maio, Flávio se reuniu com Donald Trump e pediu que os Estados Unidos classificassem PCC e CV como terroristas.
Mas o rótulo, sozinho, não bloqueia conta. Alguém precisa encontrar o dinheiro, ligar a conta ao crime e pedir o bloqueio. Hoje, esse trabalho passa pelo Coaf, pela Receita e pela polícia. Especialistas ouvidos pela Folhapress dizem que o plano desconhece o sistema de segurança pública.
Quanto dinheiro está em jogo
Em agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal (PF), mirou mais de mil postos de combustível em dez estados. Esses postos movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, o que dá cerca de R$ 10,4 bilhões por ano, segundo o Poder360.
Uma única fintech movimentou mais de R$ 46 bilhões no mesmo período, cerca de 88% do total dos postos. Os fundos sob suspeita têm patrimônio de cerca de R$ 30 bilhões, e patrimônio não é movimentação. Por isso, esse valor não se soma aos anteriores. A tabela mostra cada elo e sua situação.
Um dos elos do combate financeiro ficou sem regra por sete meses Valores em R$ bilhões, correntes e sem correção pela inflação, 2020 a 2026
| Elo | Papel no combate | Situação verificada |
|---|---|---|
| Coaf | Recebe comunicações de operações suspeitas e as encaminha às autoridades | Não citado no discurso de 18 de junho |
| Regra da Receita sobre fintechs | Obriga fintechs a informar movimentações à Receita | Revogada em janeiro de 2025; restabelecida com publicação em 29 de agosto |
| Fintech investigada | Movimenta contas digitais e pagamentos | R$ 46 bi em 2020–2024 |
| Postos de combustível | Movimentação investigada pela PF | Mais de mil postos; R$ 52 bi em 2020–2024 |
| Fundos sob suspeita | Patrimônio investigado | R$ 30 bi de patrimônio |
| Taxa sobre apostas (Cide-Bets) | Financiaria o combate ao crime organizado | Retirada em fevereiro de 2026; estimativa da Fazenda de R$ 3 bi e do Banco Central de R$ 30 bi |
Fonte: Poder360; Agência Brasil; Fenacon; Metrópoles; Conselho Federal de Contabilidade (CFC); Gazeta do Povo. Elaboração: redação.
Um elo ficou sem regra por cerca de sete meses
Em janeiro de 2025, a Receita revogou uma instrução normativa (IN) sobre informes de transferências instantâneas, como as do Pix. A Agência Brasil relata que a revogação prejudicou a fiscalização das fintechs, e a própria Receita falou em “vácuo regulamentar”. A exigência voltou depois das operações da PF, com a IN 2.278, publicada em 29 de agosto, segundo a Fenacon. Entre a revogação e a volta, passaram-se cerca de sete meses.
Taxa sobre apostas e credibilidade
Flávio votou a favor do projeto antifacção, aprovado por 64 votos a 0 no Senado em 10 de dezembro de 2025. O texto previa a Cide-Bets, uma contribuição sobre apostas para financiar o combate ao crime organizado.
Em fevereiro de 2026, a Câmara aprovou, por votação simbólica, um destaque que retirou a taxa do texto. O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) citou estimativas diferentes: R$ 3 bilhões da Fazenda e R$ 30 bilhões do Banco Central. A distância entre elas é de dez vezes. As declarações públicas analisadas não detalham a posição de Flávio sobre a taxa.
Em áudio revelado pelo The Intercept Brasil, Flávio chama de “irmão” o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Na gravação, ele pede cerca de R$ 134 milhões para um filme sobre o pai. Ele confirmou o pedido e a relação, disse que foi financiamento privado, sem dinheiro público, e negou irregularidade. Nenhuma reportagem consultada liga esse dinheiro ao PCC, mas o Banco Master aparece em investigações da PF.
O que diz Flávio Bolsonaro: Ele pediu ao mercado financeiro ajuda para “asfixiarmos financeiramente” as facções. Sobre a prisão de aliados no Rio, disse que quem tem envolvimento comprovado com PCC ou CV “tem que pagar dentro da lei” (Gazeta do Povo; Metrópoles). Sobre o áudio com Daniel Vorcaro, confirmou o pedido e a relação e negou irregularidade (Diário de Pernambuco; O Liberal). As declarações analisadas não detalham o papel do Coaf nem a aplicação das regras de fintechs.
O que isso significa
Os números mostram a escala: postos e uma fintech movimentaram dezenas de bilhões de reais entre 2020 e 2024. Para bloquear bens, o Estado precisa encontrar o dinheiro e ligar a conta ao crime. As declarações analisadas não detalham como o Coaf, a Receita ou as fintechs entrariam nessa etapa.
O segundo turno, em 25 de outubro, decide entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) quem comanda esse trabalho a partir de 2027.
Como fizemos: A análise usa as falas e reportagens citadas nas Fontes. Os valores da Operação Carbono Oculto são de 2020 a 2024, em reais correntes. A média anual divide o total por cinco; a proporção de 88% compara dois valores do mesmo período, e os cerca de sete meses são o intervalo entre a revogação e a nova instrução. As estimativas da taxa sobre apostas são mantidas sem ano de referência, e as propostas são apresentadas conforme os resumos publicados.
Fontes
- Flávio mira fintechs de fachada contra o crime organizado na Faria Lima — Gazeta do Povo
- Coaf: aberto o prazo para envio da Declaração de Não Ocorrência ao CFC — Conselho Federal de Contabilidade
- Coaf: aberto o prazo para envio da Declaração de Não Ocorrência ao CFC — Legismap
- Vamos declarar PCC, CV e milícias como organizações narcoterroristas, diz Flávio Bolsonaro — Band
- Planos de governo 2026 — Atlas Público
- Plano de Flávio Bolsonaro desconhece sistema de segurança pública, dizem especialistas — Bem Paraná/Folhapress
- Terras raras: se eleito, Flávio diz que fará parcerias estratégicas com EUA — CNN Brasil
- Flávio Bolsonaro agradece Rubio por classificação de PCC e CV como terroristas — Diário de Pernambuco
- Receita voltará a exigir declaração de fintechs após operações da PF — Agência Brasil
- Receita voltará a exigir declaração de fintechs após operações da PF — Fenacon
- Postos, fintechs e portos: saiba quais foram os alvos da PF — Poder360
- Senado aprova texto base do PL Antifacção — Jovem Pan
- Centrão salvou bets no PL Antifacção com vista grossa do governo Lula — Metrópoles
- Em áudio, Flávio Bolsonaro cobra R$ 134 milhões de Daniel Vorcaro — Diário de Pernambuco
- Flávio Bolsonaro nega irregularidade em vínculo com o banqueiro Daniel Vorcaro — O Liberal
- Flávio se diz surpreso com prisão de aliados no RJ: “pagar dentro da lei” — Metrópoles
- Quando será o segundo turno das eleições? Veja a data — Movimento Econômico



