Presença do Estado

Plano de Flávio contra facções não cita regras novas para fintechs

O Banco Central limitou a R$ 15 mil o Pix e a TED de instituições sem autorização, mas o plano de Flávio não menciona o tema.

Fachada de pedra com três grandes portas em arco, com grades de ferro e letreiros dourados da Bovespa
Fachada do antigo edifício da Bovespa, a bolsa de valores de São Paulo, no centro da cidade, em fevereiro de 2017.Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 18 de junho de 2026, Flávio Bolsonaro foi à Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, falar de crime organizado. Ele pediu ao mercado que ajudasse a sufocar financeiramente os grupos que chama de narcoterroristas. Segundo a Gazeta do Povo, ele não apresentou medidas específicas para o Coaf, a Receita Federal ou as fintechs.

O contraste aparece nos números. O governo federal já fixou valores e prazos para essas empresas. O plano de governo de Flávio não cita essas regras, segundo o SBT News.

Fintechs são empresas de tecnologia que oferecem serviços financeiros, como contas digitais e pagamentos. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) foi criado pela Lei 9.613, de 1998, para receber, examinar e identificar ocorrências suspeitas de atividade ilícita.

Em 28 de agosto de 2025, uma megaoperação contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) cumpriu mais de 350 mandados de prisão e busca em oito estados. A Operação Carbono Oculto fez parte dela, junto com as operações Tank e Quasar. Segundo o Poder360, uma fintech atuava como “banco paralelo” da facção e movimentou mais de R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024.

A Operação Fluxo Oculto, desdobramento da Carbono Oculto, mirou seis fintechs em 28 de maio de 2026. Ela foi deflagrada pelo Ministério Público paulista e pela Receita Federal. O grupo movimentou mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025, segundo a CNN Brasil. Duas empresas citadas, a YAW e a Ceopag, negam irregularidades.

O que o governo já exige

Em janeiro de 2025, a Receita revogou uma regra ligada às fintechs, em meio a uma onda de notícias falsas sobre cobrança de impostos no Pix. Segundo a Agência Brasil, a própria Receita admitiu que a revogação prejudicou a fiscalização e ajudou o crime organizado. Em 28 de agosto de 2025, o órgão editou a Instrução Normativa 2.278, que restabelece a exigência da declaração e-Financeira para fintechs. Nessa declaração, os bancos já informam à Receita os valores movimentados por clientes.

Em 5 de setembro de 2025, o Banco Central (BC) limitou a R$ 15 mil as transferências por Pix e TED feitas por instituições sem autorização. Pix é o sistema de pagamentos instantâneos; TED, a transferência entre bancos. O teto também vale para instituições que usam prestadores de tecnologia para acessar o sistema. Esses prestadores, os PSTIs, precisam de capital mínimo de R$ 15 milhões. A tabela 1 reúne essas regras e seus prazos.

Governo já fixou valores e prazos para fintechs; plano de Flávio não cita o tema Valores e prazos de normas publicadas entre agosto de 2025 e maio de 2026

Medida Órgão Valor, prazo ou norma
Teto para Pix e TED de instituições sem autorização Banco Central R$ 15 mil
Capital mínimo dos prestadores de tecnologia (PSTIs) Banco Central R$ 15 milhões
Prazo para instituições sem autorização pedirem autorização Banco Central De dez/2029 para mai/2026
Declaração e-Financeira também para fintechs Receita Federal IN RFB 2.278, de 28/08/2025

Fonte: CNN Brasil; Agência Brasil; Lex (IN RFB 2.278). Acesso em 20/10/2026. Valores fixados em normas, não séries históricas. Elaboração: redação.

O que o plano de Flávio diz

O plano de governo registrado por Flávio no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) propõe declarar PCC, Comando Vermelho (CV) e milícias como organizações narcoterroristas. O plano promete também “bloquearemos ativos e desarticularemos a lavagem de dinheiro que sustenta as facções”, segundo o SBT News. Para o crime armado, o texto fala em abate e em cinco novos presídios de segurança máxima.

Na íntegra das propostas publicada pelo SBT News, o texto não menciona fintechs, Coaf, Receita Federal nem Banco Central. No evento da Faria Lima, o ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo Guilherme Derrite disse que o setor poderia tirar de circulação fintechs de fachada. Flávio pediu a “unidade de todo o mercado financeiro”, segundo a Gazeta do Povo.

Um voto e uma lacuna

Há um fato a favor de Flávio. Ele votou a favor do projeto antifacção, aprovado no Senado por 64 votos a zero em 10 de dezembro de 2025, segundo a Gazeta do Povo. A crítica aqui é de prioridade, não de conluio: as fontes consultadas não ligam Flávio ao dinheiro do PCC.

O que diz Flávio Bolsonaro: No evento da Faria Lima, ele pediu a unidade do mercado financeiro para ajudar a sufocar grupos que chama de narcoterroristas, segundo a Gazeta do Povo. Seu plano propõe declarar PCC, CV e milícias organizações narcoterroristas e bloquear seus ativos, segundo o SBT News. As propostas publicadas não detalham a aplicação das regras de fintechs adotadas em 2025.

O que isso significa

Uma fintech movimentou, em média, cerca de R$ 9,2 bilhões por ano entre 2020 e 2024, em valores nominais. Outro grupo, de seis empresas, movimentou mais de R$ 26 bilhões em quatro anos. Para essas empresas, a Receita e o Banco Central já têm regras com valor e prazo.

O que segue em aberto é a execução. Nas fontes consultadas, não há balanço de quantas empresas se enquadraram nas regras, nem se os prazos foram cumpridos. O plano de Flávio também não diz se essas regras seriam mantidas ou ampliadas. Em 25 de outubro, o segundo turno escolhe quem governa o país a partir de 2027.

Como fizemos: A análise cruza reportagens da Gazeta do Povo, do Poder360, da CNN Brasil, da Agência Brasil, do SBT News e da Lex. Os valores de movimentação vêm das investigações, em reais correntes. A média de R$ 9,2 bilhões por ano resulta da divisão de R$ 46 bilhões por cinco anos, sem comparação entre períodos diferentes. As propostas atribuídas ao plano seguem a íntegra publicada pelo SBT News.

Correção: uma versão anterior deste texto atribuía os mais de 350 mandados apenas à Operação Carbono Oculto. O número se refere à megaoperação que também incluiu as operações Tank e Quasar.

Fontes