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Fake do "imposto do Pix" enfraqueceu fiscalização das fintechs, admite Receita

Uma fintech citada pela PF movimentou mais de R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024, período anterior à revogação de janeiro de 2025.

Fachada do Bloco P da Esplanada dos Ministérios, com as letras douradas Ministério da Fazenda e a letra P, ao lado de uma ala de vidro
Edifício do Ministério da Fazenda, ao qual a Receita Federal é subordinada, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, em janeiro de 2023.Foto: Pedro França / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 15 de janeiro de 2025, a Receita Federal revogou uma norma que ampliava o monitoramento de movimentações feitas por fintechs. Fintechs são empresas de tecnologia que oferecem contas digitais e pagamentos. A decisão veio depois de notícias falsas sobre um suposto imposto sobre o Pix, o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central.

Em agosto de 2025, a própria Receita disse que a revogação “prejudicou a fiscalização das fintechs”, segundo a Agência Brasil. Esta reportagem calcula quanto dinheiro as operações da Polícia Federal (PF) citaram por ano. Também mostra o que os dados públicos ainda não permitem concluir.

A norma revogada era de 2024, segundo a CNN Brasil. Em agosto de 2025, a Receita publicou outra norma, que restabeleceu a obrigação de enviar a declaração e-Financeira, pela qual o órgão recebe dados financeiros. Lavar dinheiro é dar aparência legal a recursos obtidos com crime.

Quanto as operações citaram por ano

Em 28 de agosto de 2025, a PF deflagrou a Operação Carbono Oculto. Segundo o Poder360, uma fintech atuava como “banco paralelo” da organização criminosa e movimentou mais de R$ 46 bilhões de 2020 a 2024. A mesma operação citou mais de mil postos de combustível, com R$ 52 bilhões movimentados no período. A CNN Brasil relaciona a investigação ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

Dividindo os valores pelo número de anos, a fintech movimentou pelo menos R$ 9,2 bilhões por ano, e os postos, pelo menos R$ 10,4 bilhões. A Operação Fluxo Oculto, de 28 de maio de 2026, mirou seis novas fintechs. Ela citou mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025, ou pelo menos R$ 6,5 bilhões por ano. A tabela 1 resume as médias.

Cada grupo de alvos movimentou pelo menos R$ 6,5 bilhões por ano Média anual dos valores citados pelas operações, em R$ bilhões nominais, por período, 2020 a 2025

Alvo Período Valor citado (R$ bi) Média por ano (R$ bi)
Postos de combustível (mais de mil) 2020 a 2024 52 10,4
Fintech citada como “banco paralelo” 2020 a 2024 46 9,2
Seis fintechs (Operação Fluxo Oculto) 2022 a 2025 26 6,5

Fonte: Poder360 (Carbono Oculto) e CNN Brasil (Fluxo Oculto). Médias calculadas pela redação: valor dividido por 5 anos (2020 a 2024) ou 4 anos (2022 a 2025). Valores “mais de” tornam as médias mínimas. Elaboração: redação.

O que o calendário mostra

Os valores da Carbono Oculto cobrem 2020 a 2024, ou seja, são anteriores à revogação de janeiro de 2025. A Fluxo Oculto cobre 2025, período em que a obrigação ficou fora de vigor entre janeiro e 29 de agosto. As reportagens não separam os valores por ano, por isso não é possível dizer quanto foi movimentado depois da revogação.

O Banco Central também reagiu. Em setembro de 2025, limitou a R$ 15 mil o Pix e a TED feitos por empresas de pagamento sem autorização para funcionar, segundo a CNN Brasil. A TED é a transferência entre contas de bancos diferentes. A regra vale para quem opera sem licença do regulador.

E na campanha?

O segundo turno, em 25 de outubro, opõe Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), ao presidente Lula. Em 11 de janeiro de 2025, Flávio publicou um vídeo criticando o monitoramento do Pix. Nele, disse: “Já tomei as medidas cabíveis para revogar essa medida absurda de Lula!”, segundo o Portal de Prefeitura. Quatro dias depois, o governo anunciou a revogação da norma.

Em 18 de junho de 2026, na Faria Lima, Flávio disse: “Vamos declarar PCC, Comando Vermelho e milícias e todas as outras facções como organizações narcoterroristas.” Segundo a Gazeta do Povo, o discurso não citou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão que recebe alertas de movimentações suspeitas, nem a Receita. As propostas apresentadas no evento não detalham novas regras para essas instituições.

O que diz a Receita Federal: Segundo a Agência Brasil, o órgão afirmou que a revogação “prejudicou a fiscalização das fintechs”. Disse também que as fintechs “têm sido utilizadas para lavagem de dinheiro” em grandes operações contra o crime organizado. Em agosto de 2025, a Receita publicou nova norma para restabelecer a obrigação.

O que isso significa

Os valores citados são altos, e os da Carbono Oculto são anteriores à revogação. Como duas das cifras são “mais de”, as médias são mínimas. Os números indicam que os valores são recorrentes, não um episódio único, porque cada operação cita movimentações de vários anos.

O segundo turno acontece em 25 de outubro. No evento de junho, segundo a Gazeta do Povo, o Coaf não foi citado. Os dados públicos disponíveis não mostram quanto foi movimentado pelas fintechs citadas depois de janeiro de 2025.

Como fizemos: A análise usa valores divulgados em reportagens sobre as operações Carbono Oculto e Fluxo Oculto. As médias anuais dividem cada total pelos anos do período citado, cinco (2020 a 2024) ou quatro (2022 a 2025), em valores nominais. Patrimônio de fundos não entra nas médias, e os dados agregados não permitem separar quanto foi movimentado em cada ano.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que não havia declarações de Flávio Bolsonaro sobre a revogação da regra em janeiro de 2025. Ele publicou um vídeo sobre o tema em 11 de janeiro de 2025. O texto também atribuía a todas as empresas citadas a negativa de irregularidades, e dizia que o plano propõe bloquear bens das facções. Só a YAW Grupo e a Ceopag negaram irregularidades, segundo a CNN Brasil, e as reportagens sobre o discurso não descrevem bloqueio de bens.

Fontes