Presença do Estado

Fintech investigada no caso PCC movimentou quase o mesmo que os postos

Segundo a Receita Federal, a fintech movimentou R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024; os postos, R$ 52 bilhões no mesmo período.

Duas torres com fachada listrada em preto e branco, com o brasão da Polícia Federal no alto, sob céu azul
Nova sede da Polícia Federal, no Setor Comercial Norte, em Brasília, em abril de 2023.Foto: Marcos Oliveira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Uma fintech investigada na Operação Carbono Oculto movimentou mais de R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024, segundo a Receita Federal. Fintech é uma empresa de tecnologia que oferece serviços financeiros, como contas digitais e pagamentos. A Receita a descreveu como um “banco paralelo” do esquema ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). No mesmo período, mais de mil postos de combustíveis movimentaram R$ 52 bilhões.

Na comparação direta, a fintech chega a cerca de 88% do que os postos movimentaram. Uma empresa de pagamentos chegou perto do porte do varejo de combustíveis investigado. Mas os números da operação medem coisas diferentes, e somá-los engana.

A Carbono Oculto começou em 28 de agosto de 2025, com mais de 350 mandados de prisão e busca em oito estados, segundo o Poder360. Pela classificação do Banco Central, as fintechs investigadas não são bancos e seguem regras mais brandas que as dos bancos.

O que os números medem

Os R$ 46 bilhões e os R$ 52 bilhões cobrem os mesmos anos, de 2020 a 2024. Por isso, a comparação direta entre eles não depende de ajuste pela inflação. Os outros valores são de outra natureza: os R$ 30 bilhões dos fundos investigados são patrimônio, ou seja, ativos, e não o total que passou por eles. A tabela abaixo resume o que cada valor mede.

Os números da operação medem coisas diferentes e não se somam Valores em R$ bilhões, por alvo e período, conforme as fontes citadas

Alvo Valor (R$ bi) Período O que mede
Mais de mil postos de combustíveis 52 2020 a 2024 Vendas e movimentação
Fintech da Operação Carbono Oculto 46 2020 a 2024 Movimentação
Fundos investigados 30 Não informado Patrimônio (ativos)
Seis fintechs da Operação Fluxo Oculto 26 2022 a 2025 Movimentação

Fonte: Poder360; Transparência Internacional; CNN Brasil. Valores nominais, não corrigidos pela inflação. Elaboração: redação.

A fiscalização que recuou e depois reagiu

Em 15 de janeiro de 2025, o governo decidiu revogar uma regra da Receita que exigia informar movimentações acima de R$ 5 mil por mês para pessoas físicas. Para empresas, o limite era de R$ 15 mil, e a regra atingia bancos e algumas fintechs. A revogação veio após uma onda de notícias falsas sobre um suposto imposto sobre o Pix. Segundo a Agência Brasil, ela, na prática, prejudicou a fiscalização das fintechs.

Depois da operação, a Receita anunciou que voltaria a exigir a declaração e-Financeira, que informa movimentações à Receita. O Banco Central limitou a R$ 15 mil o Pix e a TED (transferência entre bancos) feitos por empresas de pagamento sem autorização, segundo a CNN Brasil. Outro gargalo aparece no Coaf. Em setembro de 2025, o secretário da Receita Robinson Barreirinhas disse que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) “simplesmente não está dando conta” das movimentações suspeitas.

A investigação avança e entra na campanha

Em 28 de maio de 2026, a Operação Fluxo Oculto mirou seis fintechs que, segundo as investigações, atuavam como “bancos paralelos”. Segundo a CNN Brasil, elas movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025, em outro período. A operação é um desdobramento da Carbono Oculto.

A Reag, uma das gestoras investigadas, teve a distribuidora liquidada pelo Banco Central em 15 de janeiro de 2026. A liquidação extrajudicial é o processo de encerramento de uma instituição financeira conduzido pelo regulador. Segundo a Agência Pública, a Polícia Federal (PF) suspeita que fundos administrados pela gestora possam ter movimentado cerca de R$ 250 milhões para o PCC. Em depoimento à CPI (comissão parlamentar de inquérito) do Crime Organizado, em 11 de março, o fundador da Reag negou qualquer conexão com o PCC.

O tema também entrou na campanha eleitoral. Em 18 de junho de 2026, Flávio Bolsonaro (PL) pediu “a unidade de todo o mercado financeiro” para “asfixiarmos financeiramente essas organizações narcoterroristas”, segundo a Gazeta do Povo. Guilherme Derrite afirmou: “Temos certeza de que, juntos, podemos tirar de circulação essas fintechs de fachada”. As fontes consultadas não ligam Flávio Bolsonaro às fintechs investigadas, e esta reportagem não faz essa ligação.

O que dizem as empresas citadas: A YAW afirmou não ter “registro de processos criminais ou envolvimento em atos ilícitos”, e a Ceopag disse que não há desdobramento que comprove irregularidades, segundo a CNN Brasil. O fundador da Reag negou ligação com o PCC em depoimento à CPI do Crime Organizado, segundo a Agência Pública. A CNN Brasil informou que tentava contato com as demais empresas citadas.

O que isso significa

Os dados mostram que uma fintech movimentou, no mesmo período, quase o equivalente ao varejo de combustíveis investigado. Eles não mostram quanto desse dinheiro tem origem ilícita. As fontes consultadas não relatam condenação de nenhum dos citados.

A fiscalização mudou em 2025, mas as fontes consultadas não trazem dados sobre o que ela já encontrou. Está em aberto se a Receita, o Banco Central e o Coaf conseguem acompanhar o volume dessas movimentações. A resposta depende das investigações em andamento e de dados que as fontes consultadas não trazem.

Como fizemos: Reunimos valores divulgados pela Receita Federal, pela Polícia Federal e pelo Banco Central, conforme reproduzidos por Poder360, CNN Brasil, Agência Brasil, Agência Pública, Gazeta do Povo, InfoMoney, Forbes Brasil, Money Times, BBC e Transparência Internacional, todos acessados em 21 de outubro de 2026. A razão de 88% é nossa divisão de R$ 46 bilhões por R$ 52 bilhões, dois valores do mesmo período (2020 a 2024); ambos estão em valores nominais, sem correção pela inflação, porque cobrem os mesmos anos. Não somamos valores nem calculamos médias anuais, porque os períodos diferem e as fontes não trazem séries por ano. Os números são movimentações informadas pelas autoridades e não dizem quanto é de origem ilícita; a Transparência Internacional fala em fintechs, no plural, para os R$ 46 bilhões.

Correção: uma versão anterior deste texto atribuía à própria Receita o reconhecimento de que a revogação enfraqueceu a fiscalização; a frase é da reportagem da Agência Brasil. A versão anterior dizia que a Receita havia restabelecido a exigência de declaração das fintechs; a reportagem diz que ela anunciou que voltaria a exigir. Também atribuía à Gazeta do Povo a informação de que não houve medida específica para o Coaf, que não consta da reportagem, e dizia que as seis fintechs negavam irregularidades; apenas duas empresas se manifestaram, segundo a CNN Brasil. Por fim, a negativa da Reag era atribuída à Agência Pública de forma imprecisa: a reportagem registra a negativa do fundador em depoimento à CPI.

Fontes