Fintech investigada no caso PCC movimentou quase o mesmo que os postos
Segundo a Receita Federal, a fintech movimentou R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024; os postos, R$ 52 bilhões no mesmo período.

Uma fintech investigada na Operação Carbono Oculto movimentou mais de R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024, segundo a Receita Federal. Fintech é uma empresa de tecnologia que oferece serviços financeiros, como contas digitais e pagamentos. A Receita a descreveu como um “banco paralelo” do esquema ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). No mesmo período, mais de mil postos de combustíveis movimentaram R$ 52 bilhões.
Na comparação direta, a fintech chega a cerca de 88% do que os postos movimentaram. Uma empresa de pagamentos chegou perto do porte do varejo de combustíveis investigado. Mas os números da operação medem coisas diferentes, e somá-los engana.
A Carbono Oculto começou em 28 de agosto de 2025, com mais de 350 mandados de prisão e busca em oito estados, segundo o Poder360. Pela classificação do Banco Central, as fintechs investigadas não são bancos e seguem regras mais brandas que as dos bancos.
O que os números medem
Os R$ 46 bilhões e os R$ 52 bilhões cobrem os mesmos anos, de 2020 a 2024. Por isso, a comparação direta entre eles não depende de ajuste pela inflação. Os outros valores são de outra natureza: os R$ 30 bilhões dos fundos investigados são patrimônio, ou seja, ativos, e não o total que passou por eles. A tabela abaixo resume o que cada valor mede.
Os números da operação medem coisas diferentes e não se somam Valores em R$ bilhões, por alvo e período, conforme as fontes citadas
| Alvo | Valor (R$ bi) | Período | O que mede |
|---|---|---|---|
| Mais de mil postos de combustíveis | 52 | 2020 a 2024 | Vendas e movimentação |
| Fintech da Operação Carbono Oculto | 46 | 2020 a 2024 | Movimentação |
| Fundos investigados | 30 | Não informado | Patrimônio (ativos) |
| Seis fintechs da Operação Fluxo Oculto | 26 | 2022 a 2025 | Movimentação |
Fonte: Poder360; Transparência Internacional; CNN Brasil. Valores nominais, não corrigidos pela inflação. Elaboração: redação.
A fiscalização que recuou e depois reagiu
Em 15 de janeiro de 2025, o governo decidiu revogar uma regra da Receita que exigia informar movimentações acima de R$ 5 mil por mês para pessoas físicas. Para empresas, o limite era de R$ 15 mil, e a regra atingia bancos e algumas fintechs. A revogação veio após uma onda de notícias falsas sobre um suposto imposto sobre o Pix. Segundo a Agência Brasil, ela, na prática, prejudicou a fiscalização das fintechs.
Depois da operação, a Receita anunciou que voltaria a exigir a declaração e-Financeira, que informa movimentações à Receita. O Banco Central limitou a R$ 15 mil o Pix e a TED (transferência entre bancos) feitos por empresas de pagamento sem autorização, segundo a CNN Brasil. Outro gargalo aparece no Coaf. Em setembro de 2025, o secretário da Receita Robinson Barreirinhas disse que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) “simplesmente não está dando conta” das movimentações suspeitas.
A investigação avança e entra na campanha
Em 28 de maio de 2026, a Operação Fluxo Oculto mirou seis fintechs que, segundo as investigações, atuavam como “bancos paralelos”. Segundo a CNN Brasil, elas movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025, em outro período. A operação é um desdobramento da Carbono Oculto.
A Reag, uma das gestoras investigadas, teve a distribuidora liquidada pelo Banco Central em 15 de janeiro de 2026. A liquidação extrajudicial é o processo de encerramento de uma instituição financeira conduzido pelo regulador. Segundo a Agência Pública, a Polícia Federal (PF) suspeita que fundos administrados pela gestora possam ter movimentado cerca de R$ 250 milhões para o PCC. Em depoimento à CPI (comissão parlamentar de inquérito) do Crime Organizado, em 11 de março, o fundador da Reag negou qualquer conexão com o PCC.
O tema também entrou na campanha eleitoral. Em 18 de junho de 2026, Flávio Bolsonaro (PL) pediu “a unidade de todo o mercado financeiro” para “asfixiarmos financeiramente essas organizações narcoterroristas”, segundo a Gazeta do Povo. Guilherme Derrite afirmou: “Temos certeza de que, juntos, podemos tirar de circulação essas fintechs de fachada”. As fontes consultadas não ligam Flávio Bolsonaro às fintechs investigadas, e esta reportagem não faz essa ligação.
O que dizem as empresas citadas: A YAW afirmou não ter “registro de processos criminais ou envolvimento em atos ilícitos”, e a Ceopag disse que não há desdobramento que comprove irregularidades, segundo a CNN Brasil. O fundador da Reag negou ligação com o PCC em depoimento à CPI do Crime Organizado, segundo a Agência Pública. A CNN Brasil informou que tentava contato com as demais empresas citadas.
O que isso significa
Os dados mostram que uma fintech movimentou, no mesmo período, quase o equivalente ao varejo de combustíveis investigado. Eles não mostram quanto desse dinheiro tem origem ilícita. As fontes consultadas não relatam condenação de nenhum dos citados.
A fiscalização mudou em 2025, mas as fontes consultadas não trazem dados sobre o que ela já encontrou. Está em aberto se a Receita, o Banco Central e o Coaf conseguem acompanhar o volume dessas movimentações. A resposta depende das investigações em andamento e de dados que as fontes consultadas não trazem.
Como fizemos: Reunimos valores divulgados pela Receita Federal, pela Polícia Federal e pelo Banco Central, conforme reproduzidos por Poder360, CNN Brasil, Agência Brasil, Agência Pública, Gazeta do Povo, InfoMoney, Forbes Brasil, Money Times, BBC e Transparência Internacional, todos acessados em 21 de outubro de 2026. A razão de 88% é nossa divisão de R$ 46 bilhões por R$ 52 bilhões, dois valores do mesmo período (2020 a 2024); ambos estão em valores nominais, sem correção pela inflação, porque cobrem os mesmos anos. Não somamos valores nem calculamos médias anuais, porque os períodos diferem e as fontes não trazem séries por ano. Os números são movimentações informadas pelas autoridades e não dizem quanto é de origem ilícita; a Transparência Internacional fala em fintechs, no plural, para os R$ 46 bilhões.
Correção: uma versão anterior deste texto atribuía à própria Receita o reconhecimento de que a revogação enfraqueceu a fiscalização; a frase é da reportagem da Agência Brasil. A versão anterior dizia que a Receita havia restabelecido a exigência de declaração das fintechs; a reportagem diz que ela anunciou que voltaria a exigir. Também atribuía à Gazeta do Povo a informação de que não houve medida específica para o Coaf, que não consta da reportagem, e dizia que as seis fintechs negavam irregularidades; apenas duas empresas se manifestaram, segundo a CNN Brasil. Por fim, a negativa da Reag era atribuída à Agência Pública de forma imprecisa: a reportagem registra a negativa do fundador em depoimento à CPI.
Fontes
- Postos, fintechs e portos: saiba quais foram os alvos da PF — Poder360
- Operação Carbono Oculto: revelações e desdobramentos — Transparência Internacional
- Receita voltará a exigir declaração de fintechs após operações da PF — Agência Brasil
- Pix acima de R$ 5 mil vai ser taxado? 10 respostas sobre a nova regra da Receita — InfoMoney
- Banco Central aperta regras para fintechs para inibir crime organizado — CNN Brasil
- Coaf não está dando conta de monitorar fintechs após nova regra, diz Receita — Gazeta do Povo
- Faria Lima, PCC e combustíveis: veja alvos da nova fase da Carbono Oculto — CNN Brasil
- Fintechs ligadas ao crime organizado movimentaram R$ 26 bilhões — Forbes Brasil
- Crime organizado na Faria Lima: por que fintechs viraram meio ‘fácil’ de lavar dinheiro? — BBC Brasil (publicado em O Povo)
- Banco Central decreta liquidação da Reag — Money Times
- Master: como CPMI do INSS e CPI do crime organizado se conectam — Agência Pública
- Flávio mira fintechs de fachada contra o crime organizado na Faria Lima — Gazeta do Povo



