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Só a Operação Plata aponta igrejas abertas para lavar dinheiro do PCC

Segundo a investigação, sete igrejas serviram para lavar mais de R$ 23 milhões do PCC; nos outros casos citados, a fé aparece de outra forma.

Vista aérea de Natal, com prédios altos, avenidas arborizadas e casas baixas, e o mar ao fundo
Vista aérea de Natal, capital do Rio Grande do Norte, estado onde a Operação Plata foi deflagrada, em junho de 2004.Foto: Asarug / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Sete igrejas, mais de R$ 23 milhões e uma facção por trás, segundo a investigação. Em 14 de fevereiro de 2023, o Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) deflagrou a Operação Plata. Ela investigou lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Segundo a acusação, o irmão de um líder da facção e a mulher dele abriram as igrejas para dar aparência legal ao dinheiro. Mas um caso não diz o que acontece com a fé no país. Esta reportagem compara cinco casos citados em reportagens, de 2023 a 2026, para mostrar o papel da religião em cada um.

Lavagem de dinheiro é fazer recursos de crime parecerem fruto de atividade legal. No caso do Rio Grande do Norte, a fachada escolhida foi a religiosa, segundo a investigação. O líder da facção, conhecido como Colorido, irmão do pastor, está preso em Brasília, segundo O Liberal.

Igrejas abertas para lavar dinheiro

A tabela mostra o papel da igreja ou da fé em cada caso. Só na Operação Plata, segundo a investigação, igrejas foram abertas para movimentar dinheiro ilícito. Nos demais, a religião aparece como projeto, identidade ou citação em três casos, e o quarto não menciona igrejas.

Só em um dos cinco casos a igreja foi usada para lavar dinheiro Classificação de cinco casos citados, de 2023 a 2026, sem unidade numérica

Caso Papel da igreja ou da fé Situação, segundo a fonte
Operação Plata (2023) Igrejas abertas para lavar dinheiro, segundo a investigação Denunciados pelo MPRN, segundo o Metrópoles (2024)
Operação Mafiusi (2025) Igreja citada em transações atípicas Nenhum citado indiciado até março de 2025
Operação Fariseus (2026) Projeto de evangelização em presídios Alvos da operação em julho de 2026
Terceiro Comando Puro Facção cujos traficantes se dizem evangélicos Líder nunca preso até março de 2025
Operação Carbono Oculto (2025) Nenhuma igreja citada Alvos: postos de combustíveis, fintechs e fundos

Fonte: O Liberal (2023); Metrópoles (2024 e 2025); Brasil de Fato (2025); BBC via O Povo (2025); CartaCapital (2025); Minuto MT (2026). Elaboração: redação.

Segundo o Metrópoles, cinco igrejas foram abertas no Rio Grande do Norte e duas em São Paulo. O MPRN denunciou o pastor Júnior, a mulher, o irmão Colorido e outros dois irmãos por associação criminosa, associação para o tráfico e lavagem de dinheiro, de 2008 a 2023.

Quando a fé aparece de outro jeito

Na Operação Mafiusi, da Polícia Federal (PF), a Igreja Mundial do Poder de Deus, do pastor Valdemiro Santiago, apareceu em transações financeiras atípicas. Segundo o Brasil de Fato, nenhum dos citados havia sido formalmente indiciado, ou seja, apontado pela polícia como autor de crime, até 14 de março de 2025. Uma colaboração premiada, ou delação, de um empresário ligado ao PCC sugere que a igreja pode ter sido usada para movimentar recursos ilícitos. O veículo informou não ter obtido resposta da igreja.

Em julho de 2026, a Operação Fariseus, em Mato Grosso, mirou um casal de pastores e a filha. Segundo a polícia, um projeto de evangelização em presídios servia para facilitar a comunicação entre integrantes do Comando Vermelho (CV). Segundo o Minuto MT, a família levaria celulares e carregadores a presos, mas a entrada desses aparelhos não foi comprovada.

No Rio, o Terceiro Comando Puro (TCP) é liderado por Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, que nunca tinha sido preso em março de 2025, segundo a CartaCapital. A BBC descreve a facção como conhecida por traficantes que se dizem evangélicos. No início de novembro de 2025, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) disse ao Congresso que o TCP é o terceiro grupo emergente do país, segundo a BBC. O grupo fica atrás do CV e do PCC, e um levantamento da Abin, citado pela BBC, aponta presença em outros nove estados.

O que os dados não mostram

Não há, nas fontes analisadas, um levantamento nacional sobre quantas igrejas o crime usa. Segundo a Agência Brasil, o estudo da pesquisadora Viviane Costa, autora de Traficantes evangélicos, tem como campo o Complexo de Israel, no Rio, e não traz números nacionais. Costa prefere “narcoreligião”, que pensa de forma mais ampla o papel de identidades religiosas no tráfico, e rejeita “narcopentecostalismo”. Para ela, “a presença da religião na estrutura do crime não é algo novo”.

O que diz a defesa: As fontes consultadas não registram manifestação pública da defesa dos denunciados na Operação Plata. Os denunciados são presumidos inocentes até decisão definitiva da Justiça.

O que isso significa

Dos cinco casos, só um aponta igrejas abertas para lavar dinheiro e chegou à denúncia do MPRN. Nos outros, a fé aparece como projeto, identidade ou citação, ou não aparece, como na Operação Carbono Oculto. Os dados disponíveis não permitem medir o tamanho do problema no país.

As fontes consultadas não informam o andamento atual dos processos. Também não ligam esses casos ao pré-candidato Flávio Bolsonaro, que defende classificar PCC e CV como organizações terroristas, segundo o Metrópoles.

Como fizemos: A análise reúne cinco casos citados em reportagens de 2023 a 2026 e distingue denúncias, investigações e menções a projetos religiosos. A tabela não calcula prevalência nem taxas, e os valores em reais são nominais. Os casos não permitem estimar quantas igrejas são usadas pelo crime no país.

Correção: Uma versão anterior deste texto atribuía à Abin a expressão “terceira força do crime”, que é do título da BBC; a Abin falou em “terceiro grupo emergente”. Também dizia que o casal levava “recados e dinheiro” do CV, o que o Minuto MT não relata, e atribuía ao Metrópoles os termos “milícias” e “bloqueio de bens”, que a reportagem não traz.

Fontes