Presença do Estado

Facção que se diz evangélica está em nove estados, diz Abin

Segundo a Abin, o Terceiro Comando Puro está em nove estados; na Amazônia Legal, facções já estão em 344 de 772 municípios.

Carros trafegam por uma via expressa elevada sob placas verdes e azuis que indicam São Cristóvão, Linha Vermelha, aeroporto internacional e Petrópolis
A Linha Vermelha, via expressa do Rio de Janeiro, em julho de 2025. Segundo a polícia, ônibus escolares foram interceptados na via em setembro de 2026.Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC0)

Em novembro de 2025, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) apresentou ao Congresso um alerta sobre facções, entre elas o Terceiro Comando Puro (TCP). Segundo a BBC, a facção aparece como a terceira força do crime organizado no país, atrás do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC). A Abin afirmou que o grupo já está presente em nove estados.

Este texto cruza o alerta com um levantamento sobre a Amazônia Legal. Os números mostram que facções já estão em quase metade dos municípios da região. Eles não mostram, porém, o tamanho exato do TCP.

O líder do TCP no Rio é Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão. Segundo a CartaCapital e a BBC, desde 2016 ele tomou cinco favelas da zona norte da cidade, que passaram a se chamar “Complexo de Israel”. Peixão se apresenta como evangélico e usa símbolos de Israel, como a Estrela de Davi. Em março de 2025, o chefe da Polícia Civil do Rio, delegado Felipe Curi, descreveu o domínio dele como uma “ditadura religiosa”.

Nove estados, sem lista pública

O informe da Abin cita três facções com atuação nacional: CV, PCC e TCP. Também aponta outras 31 facções com potencial de afetar estados inteiros, segundo a Tribuna do Sertão. As reportagens consultadas não dizem em quais nove estados o TCP está. Também não explicam o critério usado para ordenar as facções. A tabela resume esses números.

Abin mapeia nove estados do TCP; facções já estão em 344 municípios da região Número de estados, facções e municípios; informe de novembro de 2025 e levantamento de 2025

Indicador Número
Municípios da Amazônia Legal com facções, de 772 344
Outras facções com potencial de impactar estados inteiros 31
Estados com presença do TCP 9
Facções com atuação nacional (CV, PCC e TCP) 3

Fonte: Abin, informe ao Congresso de novembro de 2025, conforme Tribuna do Sertão; FBSP, Cartografias da Violência na Amazônia 2025. Elaboração: redação.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) registrou presença de facções em 344 dos 772 municípios da Amazônia Legal em 2025. Em 2024, eram 260. Segundo o levantamento, a alta foi de 32% em um ano, ou 84 municípios a mais. O gráfico mostra a diferença.

Gráfico de barras mostra que o número de municípios da Amazônia Legal com presença de facções subiu de 260 em 2024 para 344 em 2025 Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Cartografias da Violência na Amazônia 2025. Elaboração: redação.

O levantamento conta municípios com presença de facções em geral. As reportagens consultadas não trazem a contagem específica do TCP. Em agosto de 2026, uma operação policial no Complexo de Israel levou ao fechamento temporário da Avenida Brasil e da Linha Vermelha. Segundo as autoridades, 20 linhas de ônibus mudaram de trajeto e oito escolas municipais foram afetadas.

Fé como marca, e o que ainda não se mede

A pesquisadora Viviane Costa, autora do livro Traficantes evangélicos (2023), rejeita o termo “narcopentecostalismo”. Para ela, a palavra reduz uma relação antiga, que não é exclusiva do pentecostalismo. Ela prefere narcorreligiosidade, e lembra que traficantes já buscaram proteção em entidades afro-brasileiras e santos católicos, segundo a Agência Brasil.

Segundo a Agência Brasil, o estudo de Costa é qualitativo, baseado em entrevistas e observação, sem números nacionais. Até hoje, o fenômeno não foi medido em escala nacional, segundo a mesma reportagem.

A fé usada pelo crime não se limita ao TCP. Em 2023, a Operação Plata apontou um esquema com sete igrejas que teria movimentado mais de R$ 23 milhões do PCC, segundo a investigação. Em setembro de 2026, a polícia de Mato Grosso acusou dois pastores de usar um projeto de assistência religiosa em presídios para servir ao CV.

Peixão aparece nas reportagens como foragido da Justiça. As acusações contra ele e contra outros integrantes do grupo devem ser distinguidas de condenações.

O plano de governo de Flávio Bolsonaro prevê declarar PCC, CV e milícias como narcoterroristas, com bloqueio de bens. As investigações e os estudos citados neste texto não estabelecem ligação entre o TCP, ou a narcorreligião, e o candidato ou seus aliados.

O que diz a Abin: Ao Congresso, em novembro de 2025, a agência apresentou o TCP como uma das três facções de atuação nacional e disse que ele está em nove estados. Segundo a Tribuna do Sertão, a Abin não quis comentar quando foi procurada pelo veículo.

O que isso significa

Os dados mostram que a Abin coloca o TCP em nove estados. Também mostram que facções já estão em 344 municípios da Amazônia Legal, alta de 32% em um ano. O que falta é uma contagem pública, por facção e por estado, para medir o tamanho real de cada grupo. O segundo turno da eleição presidencial acontece em 25 de outubro, com a segurança pública entre os temas em disputa.

Como fizemos: A análise usa o informe da Abin conforme reportado pela Tribuna do Sertão e o sumário do levantamento Cartografias da Violência na Amazônia 2025, do FBSP. A alta de 32% compara 260 municípios em 2024 com 344 em 2025, e o valor de R$ 23 milhões é nominal. As fontes não detalham os nove estados do TCP, seu número de integrantes nem os municípios em que o grupo atua.

Correção: uma versão anterior deste texto dava julho de 2026 como o mês do caso em Mato Grosso; a reportagem que revelou o caso foi exibida em 13 de setembro de 2026. O texto também situava a Operação Plata no Rio Grande do Norte, quando a investigação foi conduzida por promotores do estado e as igrejas ficavam em São Paulo e no Rio Grande do Norte. Além disso, tratava como fato o que a investigação apenas aponta.

Fontes