Amazônia

Campanha de Flávio nega privatizar a Petrobras, mas não descarta vender ativos

A refinaria de Manaus, vendida no governo Bolsonaro, pratica preço de importação, segundo o Brasil de Fato; a campanha de Flávio deu sinais diferentes sobre a Petrobras.

Posto de combustíveis flutuante com cobertura vermelha, bombas e painel de preços, ancorado sobre boias de pneus num rio largo, com mata ao fundo
Posto flutuante de combustíveis da rede Atem em um rio do Amazonas, em outubro de 2019.Foto: Dennis G. Jarvis / Flickr / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Em 16 de outubro, o Brasil de Fato publicou que refinarias privatizadas no governo Bolsonaro elevam preços e ampliam desigualdades regionais. O caso central é a Refinaria da Amazônia (Ream), em Manaus. Segundo a reportagem, a refinaria pratica preços iguais ou acima da paridade de importação.

A reportagem saiu nove dias antes do segundo turno, em 25 de outubro, com a Petrobras no centro da disputa. Este texto reúne o que a campanha de Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, disse sobre a estatal e o que os registros mostram.

A paridade de importação, conhecida pela sigla PPI, calcula quanto custaria trazer combustível do exterior. A conta soma cotação internacional, dólar e frete. Quem segue essa regra cobra um valor próximo ao de um produto importado. A Ream foi uma das refinarias vendidas durante o governo Bolsonaro, em 2022, segundo a Brasil de Fato.

O que a campanha disse sobre a Petrobras

Em dezembro de 2025, Flávio disse à Reuters que “a Petrobras é complexa demais”. Segundo a InfoMoney, ele afirmou que partes da empresa poderiam ser privatizadas: “o que não funciona e pode ser privatizado”. Em 5 de abril de 2022, segundo um vídeo do UOL, disse que o pai tinha dado aval para estudar a privatização da estatal.

Em fevereiro de 2026, mudou o tom e disse que uma empresa monopolista e estratégica não pode simplesmente ser vendida. Na mesma época, num evento do BTG Pactual, disse planejar “privatizar 95%” das estatais, sem detalhar quais, segundo o Aos Fatos.

Negativas, ressalvas e a checagem

Em 18 de agosto, o coordenador da campanha, o senador Rogério Marinho, disse que “não há nenhum plano no sentido de privatizar a Petrobras”. Ele não descartou, porém, a venda de ativos. Como exemplo, citou a venda de poços maduros de petróleo no governo Bolsonaro, segundo a CNN Brasil. Em 8 de outubro, o economista Adolfo Sachsida, da coordenação econômica da campanha, disse que “nenhuma dessas empresas será tocada”, ao citar Petrobras, Banco do Brasil e Caixa, segundo a Forbes.

No dia 9 de outubro, Flávio chamou de “boataria” a conversa sobre privatizar a Petrobras. Segundo a InfoMoney, disse que os boatos fazem parte de uma onda de ataques para reverter sua liderança no primeiro turno. Na entrevista à TV Globo, em 16 de outubro, afirmou que o PT fazia “um verdadeiro terrorismo” com servidores e estatais. O Aos Fatos checou a fala e concluiu que ele omitiu declarações anteriores da própria campanha sobre privatizações.

A tabela abaixo resume essas declarações, em ordem de data.

Campanha nega privatizar a Petrobras, mas não descarta vender ativos Declarações públicas sobre a Petrobras e as estatais, por data, de dezembro de 2025 a outubro de 2026

Data Quem O que foi dito
22/12/2025 Flávio Bolsonaro, à Reuters “A Petrobras é complexa demais”
Fev./2026 Flávio Bolsonaro, em evento do BTG Pactual Planejar “privatizar 95%” das estatais
13/08/2026 Plano de governo apresentado Petrobras não aparece no capítulo de energia
18/08/2026 Rogério Marinho, coordenador da campanha “Não há nenhum plano no sentido de privatizar a Petrobras”
08/10/2026 Adolfo Sachsida, da coordenação econômica “Nenhuma dessas empresas será tocada”
09/10/2026 Flávio Bolsonaro “Isso é uma boataria”
16/10/2026 Flávio Bolsonaro, à TV Globo “Um verdadeiro terrorismo” com servidores e estatais

Fontes: InfoMoney, Reuters, eixos, CNN Brasil, Forbes e Aos Fatos. Elaboração: redação.

O caso de Manaus e o plano de governo

Segundo a Brasil de Fato, refinarias privatizadas praticam preços alinhados à paridade de importação, e às vezes acima dela. O dado vem do boletim de outubro do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep). Mahatma Ramos, diretor técnico do Ineep, afirma que a privatização cria monopólios privados regionais que priorizam o lucro de curto prazo. Segundo a reportagem, a Petrobras mantém os menores preços de refino.

A Petrobras nem sequer aparece no capítulo de energia do plano de governo apresentado em 13 de agosto. O plano promete retomar o Programa Nacional de Desestatização (PND), avaliando “caso a caso onde a presença do Estado deixou de fazer sentido”, segundo o eixos. O plano também promete reduzir impostos sobre combustíveis.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele chamou de “boataria” a conversa sobre privatizar a Petrobras e disse que os boatos fazem parte de uma onda de ataques para reverter sua liderança no primeiro turno, segundo a InfoMoney. A campanha, pelo coordenador Rogério Marinho, afirmou em 18 de agosto que não há plano de privatizar a estatal, segundo a CNN Brasil. As declarações citadas não apresentam uma posição explícita de Flávio sobre a volta da paridade de importação na Petrobras.

O que isso significa

Na prática, cada venda muda quem define o preço do combustível na região. Se o PND for retomado caso a caso, como promete o plano, a mesma lógica poderia chegar a outras regiões. O registro mostra um candidato que já defendeu vender partes da Petrobras, e uma campanha que hoje nega planos de privatização, mas não descarta vender ativos.

O que segue em aberto é se novas vendas manteriam a regra de preço de Manaus. O plano não diz quem opera a maior parte dos ativos de petróleo e gás que cita, segundo o eixos. O segundo turno é em 25 de outubro.

Como fizemos: A análise reúne a reportagem do Brasil de Fato, a checagem do Aos Fatos e textos da InfoMoney, da CNN Brasil, da Forbes e do eixos. A tabela apresenta declarações em ordem de data e mantém a atribuição de cada uma. Valores de combustíveis não entram na comparação porque o foco é o modelo de preço e as declarações sobre privatização.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que Flávio Bolsonaro “já defendeu vender a Petrobras” e atribuía a ele a frase “manter as partes que funcionam e privatizar as que não funcionam”. Segundo a InfoMoney, a frase é “o que não funciona e pode ser privatizado”, e ele tratou de partes da estatal, não da venda integral.

Fontes