Amazônia

Funai delimita duas terras indígenas com 1,5 milhão de hectares

Waimiri Atroari e Mura do Médio Madeira têm relatórios aprovados, mas declaração, homologação e registro ainda precisam ser concluídos.

Estrada de terra avança entre vegetação na entrada da Terra Indígena Waimiri Atroari
Entrada da Terra Indígena Waimiri Atroari, em Presidente Figueiredo, no Amazonas, fotografada em julho de 2013.Foto: James Martins / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) aprovou nesta sexta-feira (6) os relatórios de identificação e delimitação de duas terras no Amazonas e em Roraima. Juntas, Waimiri Atroari e Mura do Médio Madeira somam cerca de 1,5 milhão de hectares.

A assinatura conclui uma etapa técnica, mas não homologa os territórios. Ainda há fases de declaração, homologação presidencial e registro. Essa diferença determina o que muda agora e o que continua pendente para os povos Kinja e Mura.

Revisão de limites e nova delimitação têm histórias distintas

Waimiri Atroari tem 1,24 milhão de hectares e população estimada de 2.673 pessoas. A terra foi homologada em 1989, mas passa por revisão de limites iniciada em 2014. O pedido busca incorporar áreas tradicionalmente usadas e excluídas nas versões anteriores.

O território fica em Novo Airão, Presidente Figueiredo e Urucará, no Amazonas, além de Rorainópolis e São João da Baliza, em Roraima. Segundo a Funai, a BR-174, a Usina Hidrelétrica de Balbina e a mineração em Pitinga reduziram o território tradicional ao longo do século 20.

Waimiri Atroari concentra 82% da área dos dois relatórios Dados das terras com identificação e delimitação aprovadas em 6 de novembro

Terra Área População Situação
Waimiri Atroari 1,24 milhão ha 2.673 Revisão de limites
Mura do Médio Madeira 268 mil ha 830 Delimitação em estudo concluída

Fonte: Funai. Participação calculada com os valores arredondados; a soma divulgada é de cerca de 1,5 milhão de hectares.

Mura do Médio Madeira fica entre Humaitá e Manicoré, no sul do Amazonas. A ocupação Mura nos lagos Capanã Grande, Baetas e Acará tem registros desde o período colonial, de acordo com o estudo institucional.

A Funai situa a área no interflúvio Purus-Madeira, sob influência da BR-319. O órgão associa a delimitação ao ordenamento fundiário e à prevenção de conflitos, grilagem e desmatamento. Grilagem é a apropriação ilegal de terras.

Os 1,5 milhão de hectares equivalem a 15% dos estudos desde 2023

Desde 2023, a Funai aprovou 23 Relatórios Circunstanciados de Identificação e Delimitação (RCIDs), que reúnem estudos antropológicos, históricos, fundiários, cartográficos e ambientais. As áreas somam cerca de 10 milhões de hectares. Os dois novos relatórios representam aproximadamente 15% desse total.

No mesmo período, 20 territórios foram homologados, com mais de 3,2 milhões de hectares. Outros 21 foram declarados de posse indígena, somando 1,5 milhão. São etapas diferentes e não devem ser somadas como se fossem terras distintas sem a identificação de cada processo.

A autarquia também informa 156 grupos técnicos em atividade no país. Eles incluem 53 novos grupos e 58 recompostos desde 2023. O número indica trabalho em curso, mas não permite prever quando cada terra concluirá a homologação.

O que diz a Funai: a presidenta Lucia Alberta Baré afirma que uma terra regularizada precisa ser protegida e chama a demarcação de reparação histórica. A diretora substituta de Demarcação, Nina Paiva Almeida, ressalta que a assinatura dos RCIDs é apenas a primeira de uma série de etapas.

Os relatórios seguem para publicação e para as fases administrativas previstas no Decreto nº 1.775/1996. A homologação depende de decreto presidencial. Depois dela, a Funai auxilia o registro cartorário da área em nome da União, com usufruto exclusivo dos povos indígenas.

A proteção efetiva continuará sendo o teste seguinte. Delimitar o território organiza a atuação do Estado, mas não substitui fiscalização nem impede, por si só, novas invasões e pressões econômicas.

Como fizemos: Conferimos a nota e os dados territoriais publicados pela Funai em 6 de novembro de 2026. Somamos 1,24 milhão e 268 mil hectares e dividimos o resultado pelos cerca de 10 milhões de hectares dos 23 RCIDs. Mantivemos aproximações porque a própria fonte arredonda as áreas.

Fontes