Recursos naturais

Metas atuais cortam até 8% das emissões; necessário é 18%

Guia da WWF-Brasil para a COP31 usa relatório da ONU e cobra implementação, financiamento e proteção das comunidades mais expostas ao clima.

Imagem de satélite mostra floresta, áreas desmatadas e pontos de fogo no Acre em 2005
Queimadas no Acre registradas por satélite em 2005 ilustram os impactos ambientais discutidos pela agenda climática.Imagem: Jesse Allen e Jeff Schmaltz / NASA / Wikimedia Commons (domínio público)

O mundo segue caminho para aquecer 2,8 °C neste século se mantiver as políticas atuais, segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). O alerta embasa o guia da WWF-Brasil para a 31ª Conferência das Partes da Convenção do Clima (COP31), divulgado nesta sexta-feira (6).

A conferência ocorrerá de 9 a 20 de novembro, em Antália, na Turquia. O documento de nove páginas organiza 12 perguntas e defende que os governos saiam da negociação abstrata para entregas com financiamento, prazo e verificação.

A diferença entre a meta e o corte necessário chega a 13 pontos

O cumprimento integral das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), os planos climáticos dos países, reduziria as emissões entre 5% e 8% até 2030, ante os níveis de 2025. O PNUMA calcula que seria necessário cortar 18% no mesmo período para seguir a trajetória analisada.

A lacuna vai de 10 a 13 pontos percentuais. Mesmo com todas as NDCs implementadas, o aquecimento projetado seria de 2,6 °C. O resultado ficaria 0,2 °C abaixo do cenário com as políticas atuais, mas ainda acima do objetivo central do Acordo de Paris.

Cumprir as metas nacionais ainda deixa o aquecimento em 2,6 °C Projeções do PNUMA para políticas, metas e emissões globais

Cenário ou trajetória Resultado apontado
Políticas atuais Aquecimento de 2,8 °C neste século
Cumprimento integral das NDCs Aquecimento de 2,6 °C
Corte previsto pelas NDCs até 2030 5% a 8% ante 2025
Corte necessário até 2030 18% ante 2025

Fonte: Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2026, do PNUMA. Diferenças calculadas pela redação.

O relatório avalia uma trajetória de menor ultrapassagem possível de 1,5 °C. Nela, o pico ficaria entre 1,7 °C e 1,8 °C por volta da metade do século, com retorno a 1,5 °C ou menos até 2100. Isso não equivale a afirmar que o limite nunca será ultrapassado.

Florestas e financiamento entram na cobrança por implementação

A WWF-Brasil apoia os roteiros voluntários criados após a COP30, em Belém, para transição dos combustíveis fósseis e interrupção do desmatamento até 2030. A organização quer que os documentos se transformem em políticas, investimentos e compromissos verificáveis.

O guia também cobra financiamento público novo e previsível dos países desenvolvidos. Defende acesso direto de povos indígenas e comunidades locais aos recursos. A meta de US$ 300 bilhões anuais até 2035 e o roteiro mais amplo de US$ 1,3 trilhão têm escopos distintos e não devem ser confundidos.

Na adaptação, o documento pede uma trajetória para triplicar o financiamento até 2035, com etapas intermediárias em 2030. Adaptação reúne medidas para reduzir danos já esperados, como sistemas de alerta, infraestrutura resiliente e proteção de comunidades.

O oceano ganha um capítulo de destaque. A organização quer reconhecimento de seu papel no clima e financiamento rastreável para comunidades costeiras. Para a Amazônia, a mesma lógica exige que recursos cheguem a quem protege a floresta e enfrenta seca e fogo.

O que diz a WWF-Brasil: Alexandre Prado, líder de mudanças climáticas da organização, afirma que os mapas do caminho precisam “sair do campo das intenções” e virar políticas verificáveis. Tatiana Oliveira cobra que o financiamento deixe de ser uma promessa renovada a cada conferência.

A COP31 começará na segunda-feira com presidência da Turquia e negociações conduzidas pela Austrália. O teste para o guia será a inclusão de medidas mensuráveis nas decisões e nos projetos apresentados.

Para o leitor amazônida, o número mais importante não é apenas a projeção global. É a distância entre os cortes prometidos e os necessários, enquanto as cidades já pagam por adaptação e resposta a eventos extremos.

Como fizemos: Conferimos o guia apresentado pela WWF-Brasil e o resumo oficial do Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2026. Subtraímos os cortes de 5% a 8% dos 18% necessários e comparamos as projeções de 2,6 °C e 2,8 °C. Mantivemos separados cenários de temperatura, metas nacionais e compromissos financeiros.

Fontes