Mineração

Anglo ameaça fechar minas de níquel se Europa barrar venda à MMG

A venda de ativos de níquel de Goiás à MMG, controlada pela estatal chinesa China Minmetals, segue sem decisão final na Europa e no Brasil.

Monumento preto com a inscrição 'Niquelândia 250 anos' em área pública da cidade de Niquelândia, em Goiás, sob céu azul com nuvens
Monumento dos 250 anos de Niquelândia (GO), município onde fica a unidade de ferro-níquel Codemin.Foto: Gabriel vicente oliveira / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Em 8 de outubro de 2026, a Anglo American disse a autoridades europeias que pode fechar suas operações de níquel no Brasil. A ameaça vale se a Europa barrar a venda desses ativos à MMG. O negócio foi anunciado em fevereiro de 2025 e ainda não foi concluído.

A venda inclui as unidades de ferro-níquel de Barro Alto e Codemin, em Goiás, e dois projetos em desenvolvimento, no Pará e no Mato Grosso. Ferro-níquel é uma liga de ferro e níquel usada na produção de aço inoxidável. Segundo a Anglo, a compradora pagaria US$ 350 milhões na conclusão, com parcelas condicionais de até US$ 150 milhões.

A MMG é listada em Hong Kong e controlada pela estatal chinesa China Minmetals. Juntas, as duas unidades goianas produziram cerca de 39,4 mil toneladas de níquel em 2024, segundo a Revista Mineração.

No Brasil, o caso passou pelo Cade, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica, órgão que cuida da concorrência. Em 26 de agosto de 2025, o órgão abriu um procedimento após uma denúncia. A empresa Corex Holding, ligada ao grupo turco Yildirim, contesta a venda e diz ter oferecido US$ 900 milhões.

Em setembro de 2025, segundo a Folha de S.Paulo, citada pela Reuters, o Cade encerrou o caso. O Poder360 relatou que o órgão adotou uma posição mais branda que a da Comissão Europeia.

Bruxelas é o ponto de decisão

Em 16 de setembro de 2026, a Comissão Europeia enviou à MMG uma objeção preliminar, chamada de “statement of objections”. O documento mostra a visão do órgão antes de qualquer decisão final. A Comissão teme que a MMG desvie o fornecimento para produtores de aço inoxidável ligados ao próprio grupo, o que elevaria preços na Europa.

A investigação aprofundada começou em 4 de novembro de 2025. Segundo a Reuters, citada pela Revista Mineração, a Comissão tem até 30 de novembro de 2026 para decidir. Esse prazo pode mudar durante o processo.

Na audiência fechada de 8 de outubro, o diretor de operações da Anglo, Ruben Fernandes, disse em comentários preparados: “teremos poucas alternativas além de avançar para um processo de ‘care and maintenance’”. Na prática, isso significa manter as minas paradas e preservadas, passo que pode levar ao fechamento. Segundo a empresa, a MMG é “a única compradora viável identificada”.

O que diz a MMG: Segundo a Revista Mineração, a empresa afirma que “as suspeitas levantadas pelos reguladores não refletem as condições do mercado de ferroníquel”. A reportagem diz também que a MMG está aberta a negociar compromissos para resolver as dúvidas da Comissão.

O governo federal ficou de fora da negociação

Em agosto de 2025, o Ministério de Minas e Energia informou por nota que o governo não participou da negociação, segundo o Aos Fatos. A União também não tem participação acionária na Anglo American.

Em 16 de setembro de 2026, Lula sancionou a Lei 15.506/2026, que criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A lei cria o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (Cimce). Segundo a CNN Brasil, o conselho pode impedir operações que não recebam seu aval, incluindo mudanças de controle de empresas.

Ainda não há regra sobre quais operações precisarão passar pelo conselho. Nenhuma reportagem encontrada liga o Cimce ao caso da MMG. A lei também não deixa claro se vale para negócios já em andamento.

Nos Estados Unidos, a associação do setor de aço AISI pediu ao governo Trump que atue no caso. Para a entidade, “China obteria influência direta sobre uma parte substancial das reservas de níquel do Brasil”. Em março de 2026, o encarregado de negócios dos EUA, Gabriel Escobar, disse que Washington aguarda uma resposta brasileira sobre minerais críticos. Segundo o Poder360, o governo Lula afirmou que não havia proposta formal a ser respondida.

O que isso significa

A venda completa 20 meses sem conclusão. A decisão mais próxima é de Bruxelas. No Brasil, o novo conselho pode impedir operações como esta, mas ainda sem regras definidas.

Se a Europa barrar, a Anglo diz que as minas podem parar. Se a venda passar, o Poder360 informa que a estatal chinesa passaria a controlar cerca de 60% da produção nacional de níquel.

Até 24 de outubro de 2026, não encontramos decisão final do Cade, da Comissão Europeia ou do governo brasileiro sobre o negócio. O que está em aberto é a decisão de Bruxelas e se o Cimce vai analisar o caso.

Como fizemos: Usamos o comunicado da Anglo de fevereiro de 2025 e reportagens publicadas entre agosto de 2025 e outubro de 2026, acessadas em 24/10/2026. O conteúdo da Comissão Europeia foi lido por meio de veículos especializados, não diretamente no site do órgão. A informação sobre o arquivamento pelo Cade vem de reportagem da Folha, e nem o órgão nem a Anglo tinham comentado quando ela foi publicada. Não fizemos cálculos próprios. As posições das empresas vêm de declarações públicas, e não de entrevistas feitas para esta reportagem.

Fontes