Cassiterita: o minério do estanho que a PF investiga na Terra Yanomami
Entenda o que é a cassiterita, para que serve, quem a compra e como sua origem pode ser rastreada no caso da Operação Disco de Ouro.

Na quarta-feira, 23 de setembro de 2026, a Polícia Federal (PF) deflagrou a segunda fase da Operação Disco de Ouro. A PF cumpriu 12 mandados de busca e apreensão e 17 ordens de sequestro de bens e valores. Segundo a nota oficial, há movimentação e ocultação de recursos que ultrapassam US$ 48 milhões.
A nota fala em “minério”, sem citar o tipo. Reportagens sobre a operação dizem que o minério é a cassiterita, extraída da Terra Indígena Yanomami, em Roraima. Este texto explica o que é esse mineral, para que serve e por que sua origem é difícil de provar.
O que é a cassiterita e para que serve
A cassiterita é um óxido de estanho, de fórmula química SnO2. Segundo o BNDES, o estanho ocorre na natureza principalmente nesse mineral.
O metal tem dois usos principais. O primeiro é a folha de flandres, aço coberto de estanho que protege latas de alimentos e bebidas. O segundo é a solda, usada para unir peças em placas eletrônicas, segundo o USGS, o serviço geológico dos Estados Unidos.
No Brasil, cerca de 92% das reservas de cassiterita estão no Amazonas e em Rondônia. O dado é do Ministério de Minas e Energia (MME), em relatório de 2009. A Terra Indígena Yanomami foi demarcada por decreto de 25 de maio de 1992. Tem 9.664.975,48 hectares, em municípios de Roraima e do Amazonas.
Por que a origem é difícil de provar
Para o ouro, já existem iniciativas de rastreio. Para a cassiterita e o estanho, ainda não, segundo o Ministério Público Federal (MPF) do Amazonas. Para o MPF, essa lacuna estimula o desvio do crime para minérios com menos controle.
O caso de Roraima mostra o problema na prática. No fim de agosto, o MPF informou que a Justiça Federal recebeu denúncia contra seis pessoas e quatro empresas. A acusação trata de exploração ilegal de cassiterita e ouro na Terra Yanomami. Segundo o MPF, o esquema envolveu mais de 525 toneladas de cassiterita e R$ 54,2 milhões em movimentações entre maio e agosto de 2021.
Com a denúncia aceita, os acusados passam a ser réus. Ainda não há condenação. Segundo reportagens sobre a segunda fase, a PF afirma que o minério era declarado como se tivesse origem legal no Pará, para esconder a procedência real.
Como se tenta rastrear
Em 27 de fevereiro de 2026, o MPF do Amazonas recomendou a criação de um sistema nacional de rastreio para cassiterita e estanho. A recomendação vai a órgãos federais. Ela pede que a Agência Nacional de Mineração (ANM) torne o rastreio obrigatório para cada lote vendido. Também pede ao Serviço Geológico do Brasil (SGB) um banco de dados geológicos para identificar a origem do minério. O prazo de resposta era de 30 dias.
Segundo o MPF, já existem métodos para identificar a origem geológica do minério. A procuradoria cita o Projeto Ouro Alvo, de rastreio do ouro, como exemplo de sistema integrado que já funciona.
Fora do Brasil, a indústria também usa etiquetas. O programa iTSCi rastreia estanho, tântalo e tungstênio, os chamados 3T, com equipes de campo e minerais etiquetados. Segundo o próprio site, o programa atua em províncias do Congo.
O que diz a Polícia Federal: segundo a nota oficial de 23 de setembro de 2026, a investigação apura lavagem de capitais, organização criminosa transnacional e falsidade ideológica. A nota não cita nomes de investigados. A redação não teve contato direto com a PF antes da publicação.
O que isso significa
Na prática, a origem do minério depende de documentos, dinheiro e rotas de venda. A PF descreve esse caminho na investigação, mas a prova ainda será analisada pela Justiça. Sem rastreio obrigatório por lote, o minério legal e o ilegal podem parecer iguais no papel.
Não localizamos, nas fontes consultadas, a resposta dos órgãos federais à recomendação do MPF. Os investigados seguem sem condenação. O próximo passo está na Justiça, com a análise do material apreendido e a defesa dos acusados.
Como fizemos: Usamos a nota da PF sobre a segunda fase da Operação Disco de Ouro (23/09/2026), a recomendação do MPF-AM (27/02/2026), a notícia do MPF-RR sobre a denúncia (31/08/2026), o decreto de 25/05/1992, o relatório do MME (2009), o site do iTSCi e o USGS, todos acessados em 27/10/2026. Não fizemos cálculos próprios: os valores e as toneladas são os das fontes citadas. A reportagem não tem acesso ao conteúdo integral da investigação, à quantidade de minério apreendido nesta fase nem ao desfecho dos processos.
Fontes
- Nota da PF: PF combate lavagem de capitais e organização criminosa transnacional (23/09/2026) (acesso em 27/10/2026)
- ClimaInfo: operação contra garimpo na Terra Yanomami mira empresários e cantor (23/09/2026) (acesso em 27/10/2026)
- MPF-AM: MPF recomenda criação de sistema que possibilite o rastreio de cassiterita e estanho no país (27/02/2026) (acesso em 27/10/2026)
- MPF-RR: Justiça recebe denúncia do MPF por esquema de exploração ilegal de cassiterita e ouro em terra indígena em RR (31/08/2026) (acesso em 27/10/2026)
- Decreto de 25 de maio de 1992: Terra Indígena Yanomami (Planalto) (acesso em 27/10/2026)
- MME: Relatório Técnico 27, Perfil da Mineração de Estanho (2009) (acesso em 27/10/2026)
- BNDES: Minerações e Metalurgia, n. 34 (jul. 2000) (acesso em 27/10/2026)
- USGS: Mineral Commodity Summaries 2026, Tin (acesso em 27/10/2026)
- iTSCi: site oficial do programa (acesso em 27/10/2026)
- Foto: Zinnstein (cassiterita), BlueBreezeWiki, Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0) (acesso em 27/10/2026)



