Carbono Oculto: regra das fintechs ficou revogada por mais de sete meses
Postos e uma fintech investigados na Carbono Oculto movimentaram bilhões. A regra da Receita sobre fintechs ficou revogada por mais de sete meses.

Em 28 de agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto cumpriu mais de 350 mandados em oito estados. Mandado é a ordem judicial que autoriza buscas ou prisões. Junto com as operações Quasar e Tank, ela mirou o dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). Os alvos não eram vielas, e sim postos de combustíveis, uma fintech e fundos de investimento.
Segundo o Poder360, mais de mil postos movimentaram cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Uma fintech que atuava como “banco paralelo” movimentou mais de R$ 46 bilhões no mesmo período. Este texto mostra o que esses números significam.
Fintech é uma empresa de tecnologia que oferece serviços financeiros, como contas digitais e pagamentos. Fundos de investimento reúnem dinheiro de vários investidores, que é administrado por uma gestora. Entre os alvos estavam a gestora Reag Investimentos e o BK Bank, segundo o Poder360. O caso chegou ao mercado financeiro da Faria Lima.
Quanto passou por cada elo
A tabela abaixo mostra que os R$ 52 bilhões dos postos e os R$ 46 bilhões da fintech são volumes movimentados, não lucro. Dividindo os R$ 52 bilhões pelos mais de mil postos, a média fica abaixo de R$ 52 milhões por posto em cinco anos. Por ano, isso dá menos de R$ 10,4 milhões por posto, um cálculo nosso. Os fundos têm patrimônio de R$ 30 bilhões, e a Polícia Federal (PF) fala em R$ 23 bilhões de movimentações ilícitas, segundo o Poder360.
Postos e fintech movimentaram entre R$ 9 bi e R$ 10 bi por ano, em média Valores em R$ bilhões, nominais, pelo período informado pela investigação; média por ano em R$ bilhões
| Dado | Valor | Período | Média por ano |
|---|---|---|---|
| Postos de combustível (movimentação) | R$ 52 bi | 2020 a 2024 | R$ 10,4 bi |
| Fintech “banco paralelo” (movimentação) | R$ 46 bi | 2020 a 2024 | R$ 9,2 bi |
| Fundos investigados (patrimônio) | R$ 30 bi | não informado | — |
| Seis fintechs da fase Fluxo Oculto (movimentação) | R$ 26 bi | 2022 a 2025 | R$ 6,5 bi |
| Movimentações ilícitas da operação, segundo a PF | R$ 23 bi | não informado | — |
Fonte: Poder360; CNN Brasil; Transparência Internacional. Valores nominais, sem correção pela inflação. Média por ano: cálculo próprio da redação (valor dividido pelos anos do período). Elaboração: redação.
Uma brecha de sete meses e os alvos seguintes
Em 15 de janeiro de 2025, a Receita Federal revogou uma instrução normativa que ampliava a fiscalização das transações de fintechs, inclusive as transferências por Pix. A decisão veio após uma onda de notícias falsas sobre taxação do Pix. Segundo a Agência Brasil, a revogação prejudicou a fiscalização das fintechs e, de acordo com a Receita, ajudou o crime organizado.
Em 29 de agosto de 2025, um dia depois da operação, a Receita publicou a Instrução Normativa nº 2.278. A norma passou a exigir das fintechs de pagamento a e-Financeira, declaração de movimentações que os bancos já enviam à Receita. Em setembro, o Banco Central limitou a R$ 15 mil o valor de Pix e de TED (Transferência Eletrônica Disponível) de empresas de pagamento sem autorização.
Em 15 de janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Reag Investimentos, por “graves violações às normas” do sistema financeiro, segundo a Forbes. Na liquidação extrajudicial, o Banco Central assume a empresa e conduz seu encerramento. A PF suspeita que fundos da gestora tenham movimentado cerca de R$ 250 milhões para o PCC, segundo a Agência Pública; a Reag nega qualquer ligação com a facção.
Em 28 de maio de 2026, a nova fase, Fluxo Oculto, apontou seis fintechs que movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025, segundo a CNN Brasil. Duas delas, a YAW e a Ceopag, negam irregularidades. A CNN informou que ainda tentava contato com as demais empresas citadas.
A visita à Faria Lima
Quase dez meses depois, em 18 de junho de 2026, Flávio Bolsonaro foi a um evento na Faria Lima. Ali, pediu a “unidade de todo o mercado financeiro” para “asfixiarmos financeiramente essas organizações narcoterroristas”. Segundo a InfoMoney, ele também disse: “Vamos declarar PCC, Comando Vermelho e milícias e todas as outras facções como organizações narcoterroristas.” A Gazeta do Povo não cita medidas para a Receita, as fintechs ou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que recebe alertas de movimentações suspeitas.
O que dizem a Reag e Flávio Bolsonaro: O fundador e ex-presidente do conselho da Reag, João Carlos Falbo Mansur, negou à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, em 11 de março de 2026, qualquer conexão com o PCC, segundo a Agência Pública. Em 18 de junho, Flávio Bolsonaro defendeu declarar essas facções como narcoterroristas e disse que é preciso asfixiá-las financeiramente, segundo a Gazeta do Povo e a InfoMoney.
O que isso significa
As investigações apontam um volume grande de dinheiro movimentado por postos e fintechs. Além disso, a regra da Receita sobre fintechs ficou revogada por mais de sete meses, até um dia depois da operação. O pré-candidato ao Senado Guilherme Derrite disse que é possível tirar de circulação as fintechs de fachada.
A pergunta para o eleitor é o que cada candidato propõe para a fiscalização das fintechs. Os valores apresentados vêm de investigações e reportagens, não de condenações.
Como fizemos: A análise reúne dados divulgados pelo Poder360, pela CNN Brasil, pela Agência Brasil, pela Agência Pública, pela Forbes e pela Transparência Internacional, entre outras fontes. Os valores são nominais e os períodos diferem, por isso a tabela não mostra tendência. As médias dividem cada total pelos anos do período; a média por posto é um teto, porque o universo é de “mais de mil” estabelecimentos. Movimentação financeira não equivale, por si só, a dinheiro ilícito.
Correção: Uma versão anterior deste texto dizia que as seis fintechs da fase Fluxo Oculto negavam irregularidades. Apenas duas se manifestaram, e a CNN Brasil ainda tentava contato com as demais. Também dizia que Flávio Bolsonaro propôs bloquear os bens das facções, o que não aparece nas fontes consultadas, e atribuía à Gazeta do Povo a afirmação de que não houve medidas específicas, que a reportagem não faz.
Fontes
- Postos, fintechs e portos: saiba quais foram os alvos da PF — Poder360
- Operação Carbono Oculto: revelações e desdobramentos — Transparência Internacional
- Receita voltará a exigir declaração de fintechs após operações da PF — Agência Brasil
- Receita revoga ato normativo que previa fiscalização do Pix — O Povo
- Receita volta a exigir declaração de fintechs; texto da Instrução Normativa nº 2.278, de 28 de agosto de 2025 — Fenacon
- Banco Central aperta regras para fintechs para inibir crime organizado — CNN Brasil
- Banco Central decreta liquidação extrajudicial da Reag Investimentos — Forbes
- Master: como CPMI do INSS e CPI do crime organizado se conectam — Agência Pública
- Faria Lima, PCC e combustíveis: veja alvos da nova fase da Carbono Oculto — CNN Brasil
- Flávio mira fintechs de fachada contra o crime organizado na Faria Lima — Gazeta do Povo
- Vamos declarar PCC, CV e milícias como organizações narcoterroristas — InfoMoney



