Recursos naturais

Fintechs movimentaram 88% do valor dos postos sob investigação

Postos e fintechs investigados movimentaram quase o mesmo valor entre 2020 e 2024. Nas propostas de Flávio Bolsonaro, o Coaf e as fintechs não aparecem.

Posto de combustíveis flutuante e barcos de passageiros atracados no meio de um rio largo de águas barrentas, sob nuvens carregadas
Posto de combustíveis flutuante no meio do rio Amazonas, em abril de 2014. A imagem é ilustrativa: o posto não tem relação com as investigações citadas.Foto: James Martins / Panoramio / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

Entre 2020 e 2024, mais de mil postos de combustíveis movimentaram cerca de R$ 52 bilhões. No mesmo período, fintechs que a investigação chama de “banco paralelo” movimentaram mais de R$ 46 bilhões. Fintech é uma empresa de tecnologia que oferece contas e pagamentos.

Os números são da Operação Carbono Oculto, deflagrada em 28 de agosto de 2025 contra o dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo o Poder360, a ação cumpriu mais de 350 mandados de prisão e de busca em oito estados. Comparados, os dois canais mostram que o dinheiro sob suspeita não ficou só no posto.

Segundo a investigação, postos e fintechs serviram para lavar dinheiro, isto é, dar aparência legal a recursos de origem criminosa. Mais de 40 fundos de investimento também passaram a ser investigados, com cerca de R$ 30 bilhões em ativos, segundo a Transparência Internacional. Entre as empresas citadas estão a gestora Reag Investimentos, que a Polícia Federal (PF) e a Receita investigam, e o BK Bank.

Depois da operação de 2025, a Receita Federal anunciou que voltaria a exigir das fintechs a declaração e-Financeira, documento com movimentações de alto valor, segundo a Agência Brasil. Em 28 de maio de 2026, a fase Fluxo Oculto mirou outras seis fintechs, suspeitas de movimentar mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025, segundo a CNN Brasil.

Quanto dinheiro passou por cada canal

Dividido por cinco anos, o total dá cerca de R$ 10,4 bilhões por ano nos postos e R$ 9,2 bilhões nas fintechs. A tabela mostra as contas, com os valores de cada canal entre 2020 e 2024.

Postos e fintechs movimentaram valores parecidos entre 2020 e 2024 Valor movimentado, em R$ bilhões, total e média por ano, 2020 a 2024 (valores nominais)

Canal Total Média por ano
Postos de combustíveis (mais de mil) 52 10,4
Fintechs (“banco paralelo”) 46 9,2

Fonte: Poder360; Transparência Internacional. Médias e proporção: cálculo da redação. Elaboração: redação.

As fintechs movimentaram 88% do valor dos postos. Dividindo os R$ 52 bilhões por mais de mil postos e por 60 meses, o valor dá, no máximo, cerca de R$ 870 mil por posto por mês. Esses valores são movimentações, não lucro. Duas empresas citadas negam irregularidades: a Ceopag diz que só intermedia transações com cartão, e a YAW afirma não ter envolvimento em atos ilícitos, segundo a CNN Brasil.

O que o plano de Flávio propõe

O plano de segurança do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro foi apresentado em 18 de junho de 2026, em São Paulo. Prevê cinco presídios de segurança máxima no modelo de El Salvador e 500 mil novas vagas em quatro anos. Para as facções, propõe classificar PCC, Comando Vermelho (CV) e milícias como narcoterroristas, com bloqueio de recursos. Para o crime armado, a proposta diz: “Bandido armado com fuzil na mão vai ser abatido pelas forças de segurança”, segundo o SBT News.

As propostas publicadas pelo SBT News não citam o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão que recebe alertas de movimentações suspeitas. Na Faria Lima, em 18 de junho, Flávio pediu a unidade de todo o mercado financeiro para “asfixiarmos financeiramente essas organizações narcoterroristas”, segundo a Gazeta do Povo. Seu aliado Guilherme Derrite falou em tirar de circulação “fintechs de fachada”. A Gazeta, porém, não relata medida específica para o Coaf, a Receita ou as fintechs.

Um aliado preso e a resposta do candidato

Em 15 de outubro, a PF prendeu Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo (RJ) e deputado estadual eleito. Um relatório do Coaf citado na investigação aponta movimentação de mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos por uma rede de postos ligada a ele. Canella é investigado, não condenado. Em abril, Flávio havia lhe dado “apoio integral, 100%” para o Senado, segundo a CNN Brasil; em agosto, Canella desistiu da disputa pelo Senado.

Flávio disse ter sido surpreendido pelas prisões de Canella e de Rodrigo Bacellar. Em entrevista à TV Globo, afirmou que “as pessoas têm direito de se defenderem e provar sua inocência”, segundo a CNN Brasil. As fontes consultadas não atribuem ao candidato participação nos fatos investigados.

O que diz Flávio Bolsonaro: O candidato disse ter sido surpreendido pelas prisões de Canella e de Rodrigo Bacellar e afirmou que os investigados têm direito de se defender. Ao Metrópoles, disse que quem tiver envolvimento comprovado com PCC ou CV deve pagar “dentro da lei”. Seu plano propõe tratar as facções como narcoterroristas e bloquear seus bens.

O que isso significa

Pelos dados, seguir esse dinheiro passa também pelo sistema financeiro, não só pela bomba. Postos e fintechs movimentaram valores quase iguais no mesmo período. O plano de Flávio prevê prisões e bloqueio de bens, mas as propostas publicadas não citam o Coaf, a Receita nem as fintechs.

Os casos ainda são investigações, e nenhum dos investigados foi condenado nas fontes consultadas. O segundo turno, em 25 de outubro, coloca essas propostas diante do eleitor. Os números comparam canais de movimentação e não apontam culpados.

Como fizemos: Usamos valores da Operação Carbono Oculto (2020 a 2024), do Poder360 e da Transparência Internacional, e da fase Fluxo Oculto, da CNN Brasil, acessados em 20 de outubro de 2026. Calculamos as médias anuais (total dividido por cinco, supondo divisão igual por ano, pois as fontes não detalham os anos), a proporção fintechs-postos (46 de 52, cerca de 88%) e o valor por posto (R$ 52 bilhões divididos por mais de mil postos e 60 meses, no máximo). Os valores são nominais, sem correção pela inflação, porque comparam canais no mesmo período. Eles mostram movimentação suspeita, não lucro nem culpa comprovada, e não revelam o destino final do dinheiro.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que a Receita Federal “voltou a exigir” a declaração das fintechs e que a PF apontava lavagem de R$ 7,6 bilhões por Canella. A Agência Brasil informou que a Receita anunciou a volta da exigência, e o valor de R$ 7,6 bilhões é movimentação apontada em relatório do Coaf, não lavagem comprovada.

Fontes