Recursos naturais

Metade do lucro recorde da CBA vem de efeito extraordinário

Ganho líquido de R$ 315 milhões representa 51,1% do resultado; receita, margem e geração própria também melhoraram no terceiro trimestre.

Fachada da Companhia Brasileira de Alumínio com letreiro da empresa e torre de transmissão ao fundo
Fachada da Companhia Brasileira de Alumínio, na cidade de Alumínio, em São Paulo, fotografada em 2010.Foto: Roberto Sabino / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) lucrou R$ 616 milhões no terceiro trimestre de 2026, alta de 366% em um ano. Um ganho líquido de R$ 315 milhões representa 51,1% desse resultado. O efeito veio da renegociação e liquidação antecipada de obrigações de Uso do Bem Público (UBP).

A operação gerou benefício econômico de R$ 526 milhões antes dos tributos. A empresa fez pagamento líquido de R$ 262 milhões e reduziu compromissos futuros de caixa. O ganho extraordinário explica metade do lucro, mas não todo o avanço operacional.

O ganho da UBP pesa mais que a outra metade

Os R$ 315 milhões superam em R$ 14 milhões a diferença entre o lucro total e esse efeito. Subtraindo o ganho, restam R$ 301 milhões. Essa conta mostra o peso do item, mas não representa um lucro ajustado oficial.

Efeito extraordinário responde por 51,1% do lucro Lucro líquido da CBA no terceiro trimestre de 2026 e ganho após tributos da operação de UBP

Componente Valor Participação no lucro
Ganho líquido com UBP R$ 315 milhões 51,1%
Lucro menos o ganho R$ 301 milhões 48,9%
Lucro líquido total R$ 616 milhões 100%

Fonte: CBA, Brasil Mineral e InfoMoney. Participações calculadas pela redação; a subtração não é medida oficial de lucro ajustado.

A empresa não apresentou essa diferença como resultado recorrente. Por isso, a divisão correta é entre o lucro contábil e a parcela extraordinária. O leitor deve evitar tanto ignorar o efeito quanto apagar toda a melhora do negócio.

A operação também melhorou

A receita líquida consolidada chegou a R$ 2,7 bilhões, aumento de 18% em um ano e recorde trimestral. O negócio Alumínio respondeu por R$ 2,5 bilhões, ou 92,6% do total. Preços maiores e produtos de mais valor agregado sustentaram o avanço.

O Ebitda ajustado foi de R$ 565 milhões, alta de 142%. Ebitda é o resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização. A margem subiu de 10% para 21%, ganho de 11 pontos percentuais.

O preço médio do alumínio na Bolsa de Metais de Londres foi de US$ 3.226 por tonelada, alta anual de 23%. Na comparação com o trimestre anterior, porém, houve queda de 9,7%. O resultado aproveitou preços ainda elevados, mas abaixo do pico imediatamente anterior.

As vendas ficaram estáveis no volume total, em 132 mil toneladas. A reciclagem cresceu 8%, para 28 mil toneladas. Entre o alumínio primário, produtos de maior valor agregado representaram 80% das 73 mil toneladas vendidas.

A receita maior, portanto, não decorreu simplesmente de vender mais volume. A composição dos produtos e os preços tiveram papel central. As exportações passaram de 12% para 15% das vendas, aumento de 3 pontos percentuais.

Energia própria reduziu custo e exposição

A geração própria cresceu 15% e cobriu todas as necessidades da operação de alumínio no trimestre. O custo médio caiu 2,3%, para R$ 11.845 por tonelada. A produção de alumínio líquido subiu apenas 1%, para 94 mil toneladas.

O efeito negativo de contratos futuros e derivativos de energia caiu de R$ 208 milhões para R$ 47 milhões. A redução foi de R$ 161 milhões, ou 77,4%. Derivativos são contratos usados para limitar riscos de preços, mas podem gerar perdas ou ganhos.

A dívida líquida recuou 16%, para R$ 2,8 bilhões. Cerca de 80% está denominada em dólar, segundo a diretora financeira Camila Abel. Ela avaliou o endividamento como confortável e apto a suportar períodos de alta da moeda.

A participação elevada do dólar ainda exige acompanhamento. A empresa também tem receita ligada a uma commodity negociada em moeda estrangeira. A avaliação de conforto é da CBA, não uma garantia contra variações cambiais e de preço.

O que diz a CBA: o presidente Luciano Alves afirma que a companhia não prevê quedas abruptas no alumínio e espera retomada gradual de capacidade internacional. Camila Abel diz que a estrutura financeira permite suportar alta do dólar e aproveitar oportunidades de investimento, em declarações à Broadcast publicadas pelo InfoMoney.

O próximo balanço terá uma comparação diferente

O ganho da UBP não deve se repetir trimestralmente. Os próximos resultados mostrarão melhor a trajetória sem esse item. Preço do alumínio, custo de energia e produtos de maior valor continuarão sendo os fatores operacionais centrais.

A empresa também aguarda a venda do controle pelo Grupo Votorantim a uma joint venture entre Chinalco e Rio Tinto. Joint venture é um empreendimento compartilhado por duas ou mais empresas. A CBA afirma manter o foco em produtividade enquanto a operação não é concluída.

Como fizemos: Conferimos os dados financeiros publicados pelo Brasil Mineral e pelo InfoMoney em 05/11/2026. Dividimos R$ 315 milhões por R$ 616 milhões e R$ 2,5 bilhões por R$ 2,7 bilhões. Calculamos a redução de R$ 208 milhões para R$ 47 milhões. Não tratamos a subtração do ganho de UBP como lucro ajustado oficial nem usamos projeções de preço como fato futuro.

Fontes