Recursos naturais

Óleo novo no Morpho; licença agora cobre quatro poços

Petrobras diz que o achado ainda não é comercial, e o MPF diz que a licença passou de um para quatro poços.

Três pessoas de macacão laranja e capacete branco da Petrobras sorrindo no convés de um navio-sonda, uma delas mostrando as palmas das mãos sujas de óleo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com outros visitantes, durante visita a navio-sonda da Petrobras no bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial (AP), em 17 de agosto de 2026.Foto: Ricardo Stuckert / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A Petrobras anunciou nesta sexta-feira (2) uma nova descoberta de petróleo no poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas. O poço fica no bloco FZA-M-59, em águas ultraprofundas, com lâmina d’água (profundidade do mar até o fundo) de 2.886 metros. É o segundo achado no mesmo poço.

O achado chega em meio a uma disputa judicial sobre a licença de perfuração. O Ministério Público Federal (MPF) quer suspendê-la. Esta reportagem mostra como a licença mudou e o que falta para saber se o campo tem valor.

Em agosto, a Petrobras anunciou o primeiro achado no Morpho. Em 3 de setembro, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) autorizou a perfuração de mais três poços no bloco, segundo a Reuters. O órgão também exigiu um cronograma atualizado em até 30 dias.

Quantos poços a licença permite

Petrobras e MPF divergem sobre o ponto de partida. Para a empresa, os três poços já constavam do projeto original; para o MPF, a autorização inicial previa só o Morpho, por cinco meses. Pelos relatos das duas partes, a licença agora cobre quatro poços. O MPF diz que a ampliação ocorreu sem novos estudos ambientais, com atividades até 2029.

Duas versões sobre a licença do Morpho Número de poços e prazo, segundo cada parte, em setembro e outubro de 2026

Ponto Petrobras MPF
Poços no início Morpho, com três já previstos no licenciamento Só o Morpho, por cinco meses
Poços depois da mudança Morpho mais três Quatro poços
Prazo Não citado nas fontes consultadas Atividades até 2029

Fonte: Agência Petrobras; SBT News (com informações da Reuters); MPF. Elaboração: redação. A tabela mostra as duas versões sem escolher uma.

Um poço ainda não é um campo

Segundo a CNN Brasil, o intervalo com óleo foi encontrado na quinta-feira (1), em uma camada mais profunda do mesmo poço. A Petrobras diz que a descoberta foi identificada por perfis elétricos (medições feitas com sensores dentro do poço), indícios nas rochas e amostras de fluido.

A presidente da estatal, Magda Chambriard, foi cautelosa: “Não podemos afirmar que temos descoberta ainda, precisamos dos poços de delimitação”, segundo a CNN Brasil. Esses poços são perfurados perto do primeiro para medir o tamanho da jazida. A perfuração do Morpho deve terminar até o fim de outubro, também segundo a CNN Brasil.

O que o MPF contesta

O recurso veio 25 dias depois da autorização do Ibama, e a descoberta foi anunciada quatro dias depois do recurso. O MPF recorreu ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) contra a decisão da Justiça Federal do Amapá, que rejeitou a ação do MPF e de entidades ambientais. O órgão pede a suspensão imediata de qualquer perfuração ou teste no bloco.

O recurso do MPF veio 25 dias depois da autorização do Ibama Datas de 2026 e dias contados a partir da autorização do Ibama, em 3 de setembro

Data Evento Dias após a autorização Quem informa
Agosto Primeiro achado de óleo no Morpho — Agência Petrobras
3 de setembro (quinta) Ibama autoriza mais três poços no bloco 0 Reuters, via SBT News
28 de setembro (segunda) MPF recorre ao TRF1 25 MPF
1 de outubro (quinta) Novo intervalo com óleo, em camada mais profunda 28 CNN Brasil
2 de outubro (sexta) Petrobras anuncia a descoberta 29 Agência Petrobras
Fim de outubro (previsão) Conclusão da perfuração do Morpho — CNN Brasil

Fonte: Agência Petrobras; CNN Brasil; SBT News (com informações da Reuters); MPF. Elaboração: redação.

O MPF cita um vazamento de mais de 18 mil litros de fluido químico no mar, em janeiro de 2026. Segundo o órgão, o Ibama multou a Petrobras em R$ 2,5 milhões por negligência operacional. As fontes consultadas não trazem resposta da Petrobras sobre esses pontos. Para dar escala, a multa equivale a 2,5 dias da multa diária de R$ 1 milhão que o MPF pede em caso de descumprimento.

Outro ponto é a consulta prévia, feita antes de decisões que afetam esses grupos. Segundo o MPF, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) exige essa consulta a povos indígenas, quilombolas e pescadores artesanais do Amapá e do Pará. A Justiça do Amapá entendeu que ela não era necessária, porque o poço fica a 179 quilômetros da costa. O MPF discorda.

O que diz a Petrobras: No texto da Agência Petrobras, a empresa diz ter alcançado “mais um intervalo portador de petróleo no poço Morpho” e que as análises seguem em curso. Segundo a estatal, a perfuração e a avaliação serão feitas “de forma segura e com respeito ao meio ambiente e às pessoas”. O texto não cita a licença nem o recurso do MPF.

O que isso significa

O que está em disputa é se os três poços adicionais estavam no projeto original e se a ampliação exigia novos estudos. Até a publicação desta reportagem, em 2 de outubro, não havia notícia de decisão do TRF1 sobre o recurso do MPF.

O que vem a seguir: a conclusão da perfuração do Morpho até o fim de outubro e a sonda rumo ao poço Mãe de Ouro, na Bacia Potiguar, no Rio Grande do Norte. Segundo Magda, a empresa ainda tem “mais sete poços para licenciar no Amapá”. Os poços de delimitação e as análises de laboratório vão mostrar quanto petróleo existe e se a extração é viável.

Como fizemos: A análise usa o texto da Agência Petrobras, a cobertura da CNN Brasil, a reportagem da Reuters publicada pelo SBT News e o comunicado do MPF, publicados entre 4 de setembro e 2 de outubro de 2026. As contagens de dias e a comparação da multa são cálculos simples. A situação do recurso é apresentada até 2 de outubro, e os dados não indicam o tamanho da jazida.

Fontes