Amazônia

Queda do desmatamento evitou emissões, mas falta o cálculo

Governo compara redução às emissões anuais do Japão, sem divulgar o volume nem o cálculo; Prodes registra quedas de 41,8% e 23,8%.

Imagem de satélite em falsa cor mostra desmatamento, floresta, pastagem e nuvens em Novo Progresso
Desmatamento de 20 km² em Novo Progresso (PA), entre junho de 2017 e maio de 2018, em imagem de satélite de falsa cor.Foto: Oton Barros / Inpe / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, afirmou nesta quarta-feira (28) que a queda do desmatamento na Amazônia e no Cerrado evitou emissões equivalentes às anuais do Japão. A comparação foi feita no programa Bom Dia, Ministro, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

O material divulgado não informa o volume de emissões evitadas nem apresenta o cálculo. Sem esses elementos, não é possível reproduzir a equivalência. Os dados de área desmatada, porém, são públicos e confirmam reduções nos dois biomas.

As quedas têm magnitudes diferentes

O Projeto de Monitoramento do Desmatamento por Satélite (Prodes) registrou 3.335 km² desmatados na Amazônia entre agosto de 2025 e julho de 2026. O total anterior era 5.731 km². A redução foi de 41,8%, ou 2.396 km².

No Cerrado, a área passou de 7.235,27 km² para 5.516,69 km². A queda foi de 23,8%, ou 1.718,58 km². Os períodos de referência são os mesmos, mas os recortes territoriais não devem ser somados diretamente.

Amazônia teve queda percentual maior que o Cerrado Área desmatada nos períodos Prodes de 2024/2025 e 2025/2026

Bioma Período anterior Período atual Queda
Amazônia 5.731 km² 3.335 km² 41,8%
Cerrado 7.235,27 km² 5.516,69 km² 23,8%

Fonte: Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Elaboração: redação.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) explica que a Amazônia Legal inclui áreas do bioma Cerrado. Somar as duas reduções sem compatibilizar os recortes poderia contar território duas vezes. Por isso, a tabela mantém os biomas separados.

Emissões evitadas exigem outra metodologia

O Prodes mede supressão de vegetação nativa em quilômetros quadrados. Transformar a redução em emissões evitadas exige informações sobre carbono estocado, vegetação e método de cálculo. A reportagem da Agência Brasil não trouxe esses dados nem o ano usado para as emissões japonesas.

A declaração ministerial, portanto, deve ser lida como uma comparação do governo. Ela não é um resultado numérico do Prodes. O monitoramento fornece a base territorial, mas não publica, nas tabelas citadas, a equivalência climática apresentada pelo ministro.

Capobianco vinculou o resultado aos esforços de governos federal, estaduais e municipais. Ele também afirmou que o desmatamento caiu nos seis biomas brasileiros. Nesta análise, os números apresentados se limitam à Amazônia e ao Cerrado.

Queda anual não apaga os incêndios de outubro

O período Prodes terminou em 31 de julho. Os incêndios que atingiram Amazonas e Pará em outubro estão fora desse intervalo. Além disso, fogo e desmatamento são fenômenos distintos: uma área queimada não entra automaticamente na taxa de supressão de vegetação.

Segundo o ministro, as ações no Pará já extinguiram 361 grandes incêndios florestais. Esse balanço não informa quantos seguem ativos nem a área atingida. Também não altera retroativamente os dados anuais do Prodes.

A Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e forças locais investigam a origem dos incêndios. Capobianco citou indícios de ação humana e uma coincidência temporal com o período eleitoral. Ele ressalvou que caberá à Polícia Federal concluir se houve propósito.

O que diz o Ministério do Meio Ambiente: Capobianco afirma que a redução do desmatamento evitou impactos ainda maiores dos incêndios recentes. No Bom Dia, Ministro, ele destacou as quedas de 41,8% na Amazônia e 23,8% no Cerrado e disse que a investigação sobre a origem do fogo cabe à Polícia Federal.

O que vem a seguir

Os próximos dados de área queimada permitirão avaliar os incêndios de outubro com medida própria. Eles não devem ser confundidos com focos de calor ou com a taxa anual de desmatamento.

Para sustentar a comparação com o Japão, o governo precisa publicar o volume estimado e a metodologia. Até lá, o dado verificável é a redução de área nos dois recortes do Prodes.

Como fizemos: Subtraímos as áreas atuais das anteriores nas tabelas do Inpe, obtendo 2.396 km² na Amazônia e 1.718,58 km² no Cerrado. Não somamos os resultados porque o próprio Inpe alerta para sobreposição territorial. Também separamos emissões evitadas, área desmatada e incêndios. As fontes foram acessadas em 28/10/2026 e não apresentam o cálculo da equivalência com o Japão.

Fontes