Amazônia

Inpe mostra que fogo e desmatamento fazem a Amazônia emitir carbono

Estudo do Inpe na Nature, com 15 anos de voos sobre a Amazônia, liga o balanço de carbono a desmatamento e fogo, mais que à seca.

Imagem de satélite de cor natural mostra uma pluma de fumaça de queimada e manchas de desmatamento ao longo de uma estrada reta na Amazônia
Imagem de satélite CBERS-4 mostra fumaça de queimada e áreas desmatadas às margens da Rodovia Transamazônica, em Canutama (AM), em agosto de 2019.Foto: Coordenação-Geral de Observação da Terra/Inpe / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Na quarta-feira (21), a revista científica Nature publicou um estudo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Segundo a Agência FAPESP, a Amazônia liberou, em média, 1,17 bilhão de toneladas de gás carbônico (CO2) a mais do que absorveu por ano, entre 2010 e 2024. A ação humana, dizem os pesquisadores, é a principal causa.

A pesquisa é coordenada por Luciana Gatti, pesquisadora do Inpe. A equipe usou pequenos aviões que medem CO2 e monóxido de carbono (CO) em quatro pontos da região. O balanço de carbono é a diferença entre o que a floresta emite e o que ela absorve.

Desmatamento e fogo pesam mais que a seca

O estudo divide os 15 anos em três grupos de anos. No grupo 2, de 2019 a 2022, o desmatamento foi 97% maior que no grupo 1, e as queimadas foram 25% maiores. O grupo 1 reúne anos chuvosos, de 2011 a 2014, 2017 e 2018, com pouca atividade humana.

No grupo 2, o clima não foi extremo. Mesmo assim, a emissão líquida chegou a cerca de 1,58 bilhão de toneladas de CO2 por ano, quase quatro vezes a do grupo 1. Os autores atribuem esse salto à ação humana.

O grupo 3 reúne os anos quentes e secos: 2010, 2015, 2016, 2023 e 2024. Nele, as queimadas subiram 92%, e o balanço chegou a cerca de 1,8 bilhão de toneladas, o maior dos três grupos. Segundo o estudo, a seca agrava o problema, mas a ação humana segue como fator dominante.

Gatti resumiu o achado: “A principal mensagem da pesquisa é chocante: o problema da Amazônia é a ação humana.” Segundo o estudo, as queimadas são a maior fonte de carbono, com cerca de 1,47 bilhão de toneladas por ano. A mata absorve cerca de 300 milhões de toneladas por ano.

O que os dados de fiscalização mostram

O estudo de 2026 não mede multas. A mesma equipe, porém, publicou em agosto de 2023 outro estudo na Nature, sobre 2019 e 2020. Segundo a Agência Brasil, as emissões subiram 89% em 2019 e 122% em 2020, em relação à média de 2010 a 2018.

No mesmo estudo de 2023, as multas aplicadas caíram 30% em 2019 e 54% em 2020. Os pagamentos de multas caíram 74% e 89%. Os autores ligaram a alta das emissões ao enfraquecimento da aplicação da lei.

Os anos de 2019 e 2020 estão no grupo 2 do estudo de 2026. Os dois estudos apontam o mesmo padrão: menos fiscalização, mais desmatamento e mais carbono no ar. Coincidência de padrão não prova causa, mas o padrão se repete.

Os dados de 2026 vão na direção oposta. O Prodes, sistema anual do Inpe que mede o desmatamento, estimou 3.335 km² derrubados na Amazônia de agosto de 2025 a julho de 2026. Foi 41,8% menos que os 5.731 km² de 2025, segundo o Poder360. A queda é a menor desde 1988.

Mas o artigo da Nature não cobre esse período, porque seus dados vão até 2024. A queda de 2026 é um sinal de menos desmatamento, não uma medição de carbono. A Greenpeace credita a queda a políticas de proteção e fiscalização, e diz que o resultado depende da continuidade dessas políticas.

O que diz o Inpe: Segundo o comunicado do instituto, o estudo aponta a atividade humana como principal fator das emissões de carbono na Amazônia. O texto também cita a necessidade de políticas de desmatamento zero. A pesquisa usa dados do Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE), do Inpe.

O que isso significa

O achado é claro. A Amazônia emite mais carbono do que absorve, e o desmatamento e o fogo estão no centro dessa conta. A seca piora o quadro, mas não explica sozinha o salto.

O estudo de 2023 ligou os anos de 2019 e 2020 à queda da fiscalização. A queda de 41,8% no desmatamento de 2026 vai na direção certa. Ainda não há medição de carbono que mostre o efeito dessa queda no balanço da floresta.

Gatti alertou para o cenário atual: “Vemos a floresta absorvendo cada vez menos carbono.”

Como fizemos: Os números do estudo entre 2010 e 2024 vêm do comunicado do Inpe e da reportagem da Agência FAPESP sobre o artigo na Nature. A queda do Prodes é calculada como (5.731 − 3.335) ÷ 5.731, ou 41,8%, equivalente a 2.396 km². O Prodes mede área desmatada; o estudo mede gases na atmosfera, e as duas medidas não se somam diretamente.

Fontes