Mineração

Candidatos ao Senado na Amazônia defendem garimpo em terra indígena

Levantamento do O Globo, citado pela ClimaInfo, aponta 19 candidatos ao Senado na Amazônia que defendem garimpo em terras indígenas.

Avião pequeno em chamas sobre uma pista de terra vermelha, com um fiscal do Ibama de uniforme ao lado, observando a cena
Avião usado no garimpo ilegal é incendiado por fiscais do Ibama na Terra Yanomami, em foto de janeiro de 2024.Foto: Ricardo Campos da Nóbrega / Ibama / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Dezenove candidatos ao Senado na Amazônia defendem o garimpo em terras indígenas (TIs). O dado é de um levantamento do jornal O Globo, citado pela ClimaInfo em 1º de outubro de 2026. O Brasil de Fato, republicado pelo ICL Notícias, fala em “cerca de vinte”.

Os eleitos tomam posse em 2027. Pela Constituição, a lavra, ou extração do minério, em TI só pode ocorrer com autorização do Congresso, “ouvidas as comunidades afetadas”. A lei que deveria regular o tema ainda não existe.

Quem defende, e de onde fala

Segundo a ClimaInfo, a maioria dos candidatos é de partidos de direita ou alinhados ao bolsonarismo, como PL, Republicanos, Podemos e União Brasil.

Em Roraima, a ClimaInfo diz que os quatro primeiros colocados defendem regulamentar a mineração em TIs. Nicoletti (PL) e Teresa Surita (MDB) foram eleitos em 4 de outubro, segundo a Rádio Senado. Nicoletti disse que vai “regulamentar” o garimpo em TI, “respeitando o meio ambiente”. A Rádio Senado não traz declaração de Teresa Surita sobre o tema.

Em Rondônia, Fernando Máximo (PL), que liderava a corrida ao Senado, segundo a ClimaInfo, classificou a contaminação por mercúrio no garimpo ilegal como “falácia”. Estudo da Fiocruz, apoiado pelo Instituto Socioambiental (ISA), achou mercúrio em 92% dos examinados em Aracaçá, comunidade yanomami de Roraima.

O que o Senado pode decidir em 2027

O projeto em tramitação no Senado é o PL 1331/2022, do senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR). A Comissão de Direitos Humanos (CDH) aprovou o texto em 20 de agosto de 2025. Segundo a Rádio Senado, ele exige consentimento prévio e prevê entre 2% e 4% do faturamento bruto às comunidades. A última atualização da tramitação, de 27 de agosto de 2025, mostra o texto aguardando relator na Comissão de Meio Ambiente (CMA).

Um grupo de trabalho do Senado, presidido por Tereza Cristina (PP-MS), tinha 180 dias a partir de outubro de 2025 para propor um projeto. Não localizamos relatório final.

Em 13 de agosto de 2026, o Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou o prazo de 24 meses para o Congresso editar a lei. O tribunal disse que a decisão “não autoriza a exploração mineral em terras indígenas”. Se o prazo contar da decisão, termina em agosto de 2028.

O outro lado

Os candidatos argumentam que a mineração gera progresso econômico. Eles criticam apreensões de máquinas de garimpos ilegais e pedem licenças mais rápidas para garimpeiros artesanais, segundo a ClimaInfo. Uma coluna de 2022 no Congresso em Foco diz que o setor busca a legalização irrestrita do garimpo.

Mecias de Jesus disse: “O PL cumpre integralmente esses requisitos”. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) publicou nota contra o projeto, segundo a Rádio Senado. Em audiência de novembro de 2025, o representante da Apib, Cisnea Menezes Basílio, disse: “Falar sobre atividades dentro dos nossos territórios é muito delicado”.

Márcio Santilli, presidente do ISA, afirmou, segundo a ClimaInfo: “Se legalizar o garimpo em Terra Indígena, não vai acabar com a atividade ilegal”. No mesmo grupo, o vice-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Fernando Azevedo e Silva, disse: “não é possível regulamentar o que não se conhece”.

O que diz o grupo de trabalho do Senado: a coordenadora, Tereza Cristina (PP-MS), afirmou em audiência, em 18 de novembro de 2025, que “é indispensável compreender o que já se sabe sobre o subsolo das terras indígenas”. Fonte: Agência Senado.

O que isso significa

Segundo o Brasil de Fato, nove desses candidatos foram eleitos. A Amazônia Legal tem nove estados, com dois senadores cada: são 18 cadeiras. Nove, ou metade, couberam a candidatos com essa posição (conta nossa).

O Senado chega a 2027 com o PL 1331/2022 aguardando relator, segundo a última atualização que encontramos. A questão em aberto é se o Congresso aprova a lei no prazo do STF.

Como fizemos: Usamos a reportagem da ClimaInfo (01/10/2026), que cita levantamento d’O Globo. Não conseguimos acessar o texto original do jornal. Os dados de eleitos e de partidos vêm do Brasil de Fato, publicado pelo ICL Notícias (08/10/2026), e a eleição de Roraima, da Rádio Senado (04/10/2026). A contagem de nove de 18 cadeiras é nossa, sobre a lista publicada. A tramitação do PL 1331/2022 foi consultada em 25/10/2026. Não consultamos os candidatos citados antes da publicação: as falas vêm de reportagens e de registros públicos.

Fontes