Candidatos ao Senado na Amazônia defendem garimpo em terra indígena
Levantamento do O Globo, citado pela ClimaInfo, aponta 19 candidatos ao Senado na Amazônia que defendem garimpo em terras indígenas.

Dezenove candidatos ao Senado na Amazônia defendem o garimpo em terras indígenas (TIs). O dado é de um levantamento do jornal O Globo, citado pela ClimaInfo em 1º de outubro de 2026. O Brasil de Fato, republicado pelo ICL Notícias, fala em “cerca de vinte”.
Os eleitos tomam posse em 2027. Pela Constituição, a lavra, ou extração do minério, em TI só pode ocorrer com autorização do Congresso, “ouvidas as comunidades afetadas”. A lei que deveria regular o tema ainda não existe.
Quem defende, e de onde fala
Segundo a ClimaInfo, a maioria dos candidatos é de partidos de direita ou alinhados ao bolsonarismo, como PL, Republicanos, Podemos e União Brasil.
Em Roraima, a ClimaInfo diz que os quatro primeiros colocados defendem regulamentar a mineração em TIs. Nicoletti (PL) e Teresa Surita (MDB) foram eleitos em 4 de outubro, segundo a Rádio Senado. Nicoletti disse que vai “regulamentar” o garimpo em TI, “respeitando o meio ambiente”. A Rádio Senado não traz declaração de Teresa Surita sobre o tema.
Em Rondônia, Fernando Máximo (PL), que liderava a corrida ao Senado, segundo a ClimaInfo, classificou a contaminação por mercúrio no garimpo ilegal como “falácia”. Estudo da Fiocruz, apoiado pelo Instituto Socioambiental (ISA), achou mercúrio em 92% dos examinados em Aracaçá, comunidade yanomami de Roraima.
O que o Senado pode decidir em 2027
O projeto em tramitação no Senado é o PL 1331/2022, do senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR). A Comissão de Direitos Humanos (CDH) aprovou o texto em 20 de agosto de 2025. Segundo a Rádio Senado, ele exige consentimento prévio e prevê entre 2% e 4% do faturamento bruto às comunidades. A última atualização da tramitação, de 27 de agosto de 2025, mostra o texto aguardando relator na Comissão de Meio Ambiente (CMA).
Um grupo de trabalho do Senado, presidido por Tereza Cristina (PP-MS), tinha 180 dias a partir de outubro de 2025 para propor um projeto. Não localizamos relatório final.
Em 13 de agosto de 2026, o Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou o prazo de 24 meses para o Congresso editar a lei. O tribunal disse que a decisão “não autoriza a exploração mineral em terras indígenas”. Se o prazo contar da decisão, termina em agosto de 2028.
O outro lado
Os candidatos argumentam que a mineração gera progresso econômico. Eles criticam apreensões de máquinas de garimpos ilegais e pedem licenças mais rápidas para garimpeiros artesanais, segundo a ClimaInfo. Uma coluna de 2022 no Congresso em Foco diz que o setor busca a legalização irrestrita do garimpo.
Mecias de Jesus disse: “O PL cumpre integralmente esses requisitos”. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) publicou nota contra o projeto, segundo a Rádio Senado. Em audiência de novembro de 2025, o representante da Apib, Cisnea Menezes Basílio, disse: “Falar sobre atividades dentro dos nossos territórios é muito delicado”.
Márcio Santilli, presidente do ISA, afirmou, segundo a ClimaInfo: “Se legalizar o garimpo em Terra Indígena, não vai acabar com a atividade ilegal”. No mesmo grupo, o vice-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Fernando Azevedo e Silva, disse: “não é possível regulamentar o que não se conhece”.
O que diz o grupo de trabalho do Senado: a coordenadora, Tereza Cristina (PP-MS), afirmou em audiência, em 18 de novembro de 2025, que “é indispensável compreender o que já se sabe sobre o subsolo das terras indígenas”. Fonte: Agência Senado.
O que isso significa
Segundo o Brasil de Fato, nove desses candidatos foram eleitos. A Amazônia Legal tem nove estados, com dois senadores cada: são 18 cadeiras. Nove, ou metade, couberam a candidatos com essa posição (conta nossa).
O Senado chega a 2027 com o PL 1331/2022 aguardando relator, segundo a última atualização que encontramos. A questão em aberto é se o Congresso aprova a lei no prazo do STF.
Como fizemos: Usamos a reportagem da ClimaInfo (01/10/2026), que cita levantamento d’O Globo. Não conseguimos acessar o texto original do jornal. Os dados de eleitos e de partidos vêm do Brasil de Fato, publicado pelo ICL Notícias (08/10/2026), e a eleição de Roraima, da Rádio Senado (04/10/2026). A contagem de nove de 18 cadeiras é nossa, sobre a lista publicada. A tramitação do PL 1331/2022 foi consultada em 25/10/2026. Não consultamos os candidatos citados antes da publicação: as falas vêm de reportagens e de registros públicos.
Fontes
- Defesa do garimpo e de mineração em TIs domina candidaturas ao Senado na Amazônia — ClimaInfo, 01/10/2026 (acesso em 25/10/2026)
- Mineração em terras indígenas: o que já propuseram os novos senadores da Amazônia Legal — ICL Notícias (reportagem do Brasil de Fato), 08/10/2026 (acesso em 25/10/2026)
- Roraima elege Nicoletti e Teresa Surita para mandato no Senado — Rádio Senado, 04/10/2026 (acesso em 25/10/2026)
- Comissão define normas para mineração em terras indígenas — Rádio Senado, 21/08/2025 (acesso em 25/10/2026)
- Projeto de Lei 1331/2022 — Senado Federal, tramitação (acesso em 25/10/2026)
- Mineração em terras indígenas: é preciso ampliar debate e conhecimento geológico — Agência Senado, 18/11/2025 (acesso em 25/10/2026)
- Congresso tem 24 meses para editar lei sobre mineração em terras indígenas, decide STF — STF, 13/08/2026 (acesso em 25/10/2026)
- Constituição Federal de 1988 — Planalto (acesso em 25/10/2026)
- Garimpo aposta em candidaturas federais e estaduais para garantir expansão — Congresso em Foco, coluna de 13/09/2022 (acesso em 25/10/2026)
- Garimpo ilegal contamina peixes de rios de Roraima, revela estudo — IHU, 24/08/2022 (acesso em 25/10/2026)
- Foto: Ibama, “2º Lugar - Ibama em Ação” — Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0) (acesso em 25/10/2026)



