Mineração

97% das gestantes monitoradas no Tapajós têm mercúrio acima do limite

Estudo preliminar da Fiocruz, apresentado em junho de 2026, aponta que cerca de 90% dos bebês Munduruku nascem já contaminados pelo metal.

Vista aérea de um rio de águas barrentas cercado por floresta, com uma balsa de garimpo em chamas na margem e fumaça preta subindo
Balsa usada em garimpo ilegal de ouro é destruída durante operação do Ibama no rio Jamanxim, no Pará, em 2017.Foto: Felipe Werneck / Ibama / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Na quarta-feira (3) de junho de 2026, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apresentaram o acompanhamento de 195 gestantes indígenas. Entre elas, 97% tinham mercúrio acima do nível considerado seguro.

O coordenador do estudo, Paulo Basta, apresentou os dados no Rio Nature & Climate Week, no Rio de Janeiro. A Agência Brasil publicou a reportagem no dia seguinte, com a ressalva de que os números são preliminares. Ainda assim, o quadro é grave: cerca de 90% dos bebês já nascem contaminados, porque o mercúrio passa da mãe para o filho pela placenta.

O estudo acompanha o povo Munduruku do Médio Tapajós, no Pará. A primeira fase começou em 2019, em três aldeias da Terra Indígena Sawré Muybu, e os resultados foram divulgados em 2022. Segundo a reportagem, o garimpo ilegal de ouro e o mercúrio usado para separar o metal precioso são as principais fontes de contaminação.

O problema não é novo. Em 2020, um estudo da Fiocruz com a WWF-Brasil encontrou mercúrio em 100% dos Munduruku examinados na Terra Indígena Sawré Muybu, segundo a Amazônia Real. Os dois estudos usam limites de referência diferentes, por isso seus números não se comparam diretamente.

Gestantes e bebês acima do limite

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera seguro até 2 microgramas de mercúrio por grama de cabelo (µg/g), segundo a Agência Brasil. A média das gestantes ficou em 9,1 µg/g, cerca de 4,5 vezes esse limite.

Médias de mercúrio chegam a 4,5 vezes o limite da OMS Concentração de mercúrio no cabelo, em µg/g, dados preliminares de 2026

Grupo Média (µg/g) Maior caso (µg/g) Média em relação ao limite de 2 µg/g
Gestantes 9,1 39,9 cerca de 4,5 vezes
Bebês 5,8 30,8 cerca de 3 vezes

Fonte: Agência Brasil, 04/06/2026, com dados do estudo da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz). Razões calculadas pela redação.

O maior caso entre as gestantes chegou a 39,9 µg/g, cerca de 20 vezes o limite. Das 195 mulheres acompanhadas, 134 já tinham dado à luz. Entre os bebês, o maior valor foi de 30,8 µg/g, perto de 15 vezes o limite.

Peixe é a base da alimentação

Alessandra Korap Munduruku, coordenadora da Associação Indígena Pariri, explica por que a exposição é difícil de evitar. “Nossa principal fonte de alimento é o peixe e não há como fugir disso.” Segundo a reportagem, depois dos resultados de 2022, mulheres perguntaram se deveriam interromper a gravidez.

Eliane Moreira, do Ministério Público do Pará (MPPA), aponta a fragilidade do licenciamento, o processo de autorização ambiental dos empreendimentos. “Essa grande contaminação de mercúrio acontece a partir de um licenciamento bastante frágil.” Segundo a reportagem, municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) têm pouca capacidade para fiscalizar.

Falta ficha para registrar os casos

O sistema de saúde ainda não tem ficha de notificação para esses casos, segundo Basta. A Fiocruz soma 751 casos indígenas confirmados em laboratório: 318 no Pará e 378 em Roraima, ligados aos Yanomami. As duas parcelas somam 696, e a reportagem não explica os 55 casos restantes.

O que diz a Fiocruz: Segundo a Agência Brasil, o coordenador Paulo Basta afirma que a equipe trabalha com a hipótese de que a exposição antes do nascimento atrasa marcos do desenvolvimento neurológico das crianças. Os dados foram apresentados como preliminares. A reportagem não traz resposta do Ministério da Saúde nem da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

O que isso significa

Os dados preliminares ligam a exposição ao peixe e à gestação. Para confirmar o quadro, faltam a publicação completa do estudo e um registro oficial dos casos, apontado pelos próprios pesquisadores.

As mulheres e os bebês analisados já mostram níveis acima do limite. O que ainda não está claro é o efeito completo sobre o desenvolvimento das crianças, que o estudo continua investigando.

Como fizemos: Usamos a reportagem da Agência Brasil publicada em 4 de junho de 2026, republicada no mesmo dia pelo Brasil de Fato, e a reportagem da Amazônia Real sobre o estudo de 2020, acessadas em 24 de outubro de 2026. Os números de 2026 são preliminares e não têm publicação científica citada na reportagem. As razões em relação ao limite (9,1 ÷ 2 ≈ 4,5; 5,8 ÷ 2 ≈ 2,9) são cálculos da redação. A soma de 318 e 378 é 696, diferente dos 751 casos informados, e a diferença não é explicada. Os valores de 2020 usam outro limite de referência. Não localizamos nota oficial da Fiocruz sobre o estudo de 2026.

Fontes