Mineração

Desde março, Flávio associa minerais brasileiros a parceria com os Estados Unidos

Plano de agosto prevê licenciamento mais simples e capital estrangeiro; apresentação com a marca da campanha projeta investimentos de grande escala em dez anos.

O senador Flávio Bolsonaro, de terno e gravata, durante entrevista no Senado Federal, em Brasília
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concede entrevista no Senado Federal, em Brasília, em 30 de abril de 2026.Foto: Andressa Anholete / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 13 de agosto, Flávio Bolsonaro apresentou um plano de governo de 75 páginas, segundo o portal eixos. Na mineração, o texto é direto: quer licenciamento mais simples, capital estrangeiro e um Estado que atue como “regulador e coordenador, e não como empresário”.

Um mês depois, uma apresentação com a marca da campanha veio a público. Segundo o Estado de Minas, que publicou o caso em 12 de setembro, o jornalista Guilherme Amado a revelou no Amado Mundo. O documento propõe uma aliança com os Estados Unidos em minerais críticos, matérias-primas consideradas estratégicas para tecnologia e energia. A proposta aparece em falas e documentos desde março: o plano traz a direção, e a apresentação traz os números.

Segundo a Reuters, o acesso americano aos minerais brasileiros é um dos principais pontos de disputa no grupo de trabalho que negocia as tarifas dos Estados Unidos. Washington quer reduzir a dependência da China nessa cadeia.

Falas desde março

Na tabela 1, a apresentação em inglês, de 22 páginas, tem data de 19 de março, segundo o Estado de Minas. Em 28 de março, na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), Flávio disse que o Brasil é “a solução da América”. A frase completa, segundo o Poder360, fala em “quebrar a dependência da China em minerais críticos”. Em 26 de maio, após encontrar Donald Trump em Washington, Flávio prometeu “parceria estratégica de longo prazo” no setor, com “investimento protegido”, segundo a CNN Brasil.

Proposta de parceria com os Estados Unidos aparece desde março Falas e documentos sobre minerais críticos, em ordem de data, 2026

Data Fala ou documento O que diz
19 de março Apresentação “Prosperity Partnership” (data do arquivo) Aliança com os Estados Unidos em minerais críticos
28 de março Discurso na CPAC Brasil é “a solução da América”
26 de maio Após encontro com Trump “Parceria estratégica de longo prazo” no setor
13 de agosto Plano de governo Licenciamento mais simples e capital estrangeiro
12 de setembro Reportagem do Estado de Minas Documento de 22 páginas com a marca da campanha

Fonte: Estado de Minas, Poder360, CNN Brasil, Brasil de Fato e portal eixos. Elaboração: redação.

O que propõe o plano de governo

Segundo o Brasil de Fato, que resumiu o plano, o texto defende atrair capital estrangeiro, transferir tecnologia e simplificar o licenciamento. Licenciamento é o conjunto de licenças que autoriza uma mina a operar. O plano também promete acelerar os direitos minerários, as autorizações para pesquisar e lavrar um depósito, e ampliar o processamento de minérios no Brasil. O portal eixos cita o plano: “Em vez de somente exportar a pedra bruta e comprar de volta o produto acabado, vamos agregar valor no Brasil.”

Os números vêm da apresentação

O plano, segundo o portal eixos, não traz valores em dinheiro. Já a apresentação associa a parceria a projeções de investimento, geração de empregos e impacto no Produto Interno Bruto (PIB), que não são resultados garantidos nem metas detalhadas no plano de governo.

As projeções são apresentadas pelo Estado de Minas como estimativas do documento, não como compromissos da campanha nem como resultados comprovados.

Os metadados do arquivo apontam André Marinho, do partido Novo, como autor. Ele é candidato ao governo do Rio de Janeiro e aliado de Flávio, segundo o Estado de Minas. Marinho confirmou, segundo a reportagem, ter elaborado o material e disse que o estudo foi “uma iniciativa exclusivamente minha”. Afirma que nunca o enviou a autoridades americanas e nega pedido ou orientação da campanha.

Ele também esteve nos Estados Unidos e se encontrou com o vice-presidente J.D. Vance, mas diz que a viagem não tinha relação com o tema. O Estado de Minas não registrou resposta de Flávio sobre o documento.

O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: Segundo resumo do plano feito pelo Brasil de Fato, o texto define um Estado que atue como “regulador e coordenador, e não como empresário”. Sobre a apresentação, Marinho diz tratar-se de iniciativa pessoal, sem pedido da campanha, segundo o Estado de Minas. A reportagem não registrou resposta de Flávio sobre o documento.

O que isso significa

Plano, falas públicas e apresentação apontam para o mesmo modelo: licenciamento mais simples e capital de fora. A apresentação acrescenta a parceria com os Estados Unidos e os valores. As fontes consultadas não registram manifestação da campanha sobre a apresentação, e o plano não traz valores.

Flávio chegou ao segundo turno, marcado para 25 de outubro, com 47% dos votos no primeiro turno, contra 45% de Lula, segundo a Reuters. Para o eleitor interessado em mineração, a pergunta é quem fiscalizaria cada licença e cada contrato com sócios estrangeiros. As fontes consultadas não descrevem como esses controles funcionariam.

Como fizemos: A análise distingue o plano de governo, resumido pelo portal eixos e pelo Brasil de Fato, da apresentação descrita pelo Estado de Minas. As falas públicas são atribuídas ao Poder360, à CNN Brasil e à Reuters. As projeções do documento não são tratadas como compromissos do plano nem como resultados comprovados.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que o plano foi registrado no TSE em 13 de agosto; o texto agora diz apenas que ele foi apresentado nessa data. A revelação da apresentação foi feita pelo jornalista Guilherme Amado, no Amado Mundo, e publicada pelo Estado de Minas em 12 de setembro. O nome correto é Programa Nacional de Desestatização, e a fala publicada é “a solução da América”. O encontro de maio é descrito apenas como realizado em Washington.

Fontes