Única mina de terras raras do Brasil tem produção comprometida com compradora americana
A USA Rare Earth concluiu em setembro a compra da Serra Verde por US$ 2,8 bilhões, com toda a produção comprometida por 15 anos.

Em 20 de abril, a americana USA Rare Earth anunciou a compra da Serra Verde, única mina comercial de terras raras do Brasil, segundo o Centro de Tecnologia Mineral (Cetem). A mina fica em Minaçu, no norte de Goiás. O negócio foi avaliado em US$ 2,8 bilhões, segundo a agência Reuters.
A venda foi concluída em setembro. O achado central vai além da troca de dono. Toda a produção da primeira fase já tem comprador definido por 15 anos. Esse comprador é financiado por agências do governo americano e por capital privado.
Terras raras são 17 elementos químicos usados em ímãs de motores elétricos, turbinas eólicas, celulares e equipamentos de defesa. Por isso, o tema virou disputa entre potências. O Brasil tem reservas grandes, mas produz pouco.
Reservas dependem do critério adotado
O Brasil aparece entre os países com reservas relevantes, mas as estimativas mudam conforme o órgão, o ano e a classificação técnica. A Agência Nacional de Mineração (ANM) revisou seus números com base na norma brasileira, que distingue reservas provadas ou prováveis de outros recursos minerais. Misturar edições e metodologias diferentes produziria uma comparação enganosa.
Produção ainda limitada
A produção nacional continua pequena diante da China, e a Serra Verde concentra a operação comercial no país. A Reuters informa que a empresa espera ampliar sua produção anual de óxidos totais em 2027. A mineradora segue pagando a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), cobrada sobre a produção. Dessa receita, 60% ficam com o município produtor, Minaçu, pela Lei 13.540, de 2017.
Dinheiro americano e o debate eleitoral
Os US$ 565 milhões são um financiamento à própria Serra Verde, concedido pela Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional, agência americana conhecida como DFC. Os US$ 750 milhões do Departamento de Guerra americano entram em uma estrutura que compra a produção, como mostra a tabela. No debate da Band, em 18 de outubro, Lula perguntou se Flávio Bolsonaro entregaria as terras raras aos Estados Unidos. Os veículos divergem sobre se houve negação direta do tema.
Governo dos EUA financia a mina e a compradora da produção Valores em dólares, anunciados entre fevereiro e setembro de 2026
| Item | Valor |
|---|---|
| Preço da compra pela USA Rare Earth (cerca de R$ 14 bilhões) | US$ 2,8 bi |
| Investimento do Departamento de Guerra na estrutura compradora | US$ 750 mi |
| Financiamento da DFC à Serra Verde | US$ 565 mi |
| Pagamento em dinheiro, dentro do preço | US$ 300 mi |
Fonte: Reuters (via Investing.com), Poder360 e Times Brasil. Elaboração: redação.
A Lei 15.506, sancionada em 16 de setembro, cria o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), vinculado à Presidência. Segundo análise do escritório Cescon Barrieu, o conselho aprova mudanças de controle societário de empresas do setor. Essa é uma leitura jurídica, e o alcance prático ainda não está definido. A compra foi concluída em setembro, antes de a lei entrar em vigor.
O que diz Flávio Bolsonaro: No debate da Band, chamou a pergunta de “mais uma fake news”, segundo o Correio Braziliense, e não tratou diretamente do tema, segundo a Jovem Pan. Disse ter ido aos Estados Unidos “para defender as empresas e produtos brasileiros”. Em maio, prometeu “parceria estratégica de longo prazo” no setor, com “investimento protegido”, segundo a CNN Brasil.
O que isso significa
Os dados mostram três pontos. A única mina comercial do país já tem comprador e produção comprometida por 15 anos. A reserva nacional depende de critérios de classificação. E a produção brasileira segue pequena, com números que ainda não fecham entre as fontes.
Ficam em aberto a meta de 6,4 mil toneladas para 2027, a forma como o conselho vai atuar e quanto da receita da CFEM chegará a Minaçu. O segundo turno coloca duas propostas diante do eleitor: mais controle público sobre a venda de mineradoras, ou parceria com capital estrangeiro e investimento protegido.
Como fizemos: A reportagem reúne informações da Reuters, do Poder360, da CNN Brasil, do Correio Braziliense, da Jovem Pan, do Brasil61 e do Times Brasil. Os valores da aquisição e dos financiamentos são mantidos separados porque têm finalidades diferentes. As estimativas de reservas são apresentadas apenas de forma qualitativa, pois variam conforme a metodologia adotada.
Correção: uma versão anterior atribuía ao USGS um total de reservas revisado pela ANM. A referência foi corrigida e os totais conflitantes foram retirados da comparação.
Fontes
- USA Rare Earth buys Brazil’s Serra Verde for $2.8 billion — Reuters (via Investing.com)
- USA Rare Earth conclui compra da Serra Verde, em Goiás — Poder360
- USA Rare Earth conclui compra da Serra Verde e assume única mina comercial de terras raras do Brasil — Times Brasil
- Lula questiona Flávio sobre terras raras e desafia senador — Correio Braziliense
- Lula questiona suposta cessão de terras raras aos EUA, e Flávio rebate — Jovem Pan
- Terras raras: se eleito, Flávio diz que fará parcerias estratégicas com EUA — CNN Brasil
- Ainda em segundo lugar: nova estimativa traz Brasil com 15% das reservas de terras raras — Brasil61
- LEI Nº 15.506, DE 16 DE SETEMBRO DE 2026 — Planalto
- Brazilian National Policy on Critical and Strategic Minerals Signed into Law — Cescon Barrieu
- Informe Mineral 2024 — Governo do Paraná (distribuição da CFEM pela Lei 13.540/2017)
- Terras Raras 2024 (ano-base 2023), Sumário Mineral Brasileiro — ANM
- Rare Earths — Mineral Commodity Summaries 2026, USGS (PDF, em inglês) (acesso em 21/10/2026)



