Mineração

Armas deixadas pelo garimpo seguem ferindo Yanomami em Roraima

Centro de direitos humanos contou 30 yanomami com ferimentos por arma de fogo internados em Boa Vista de janeiro a agosto de 2026.

Avião de pequeno porte pega fogo em pista de terra vermelha, enquanto um fiscal do Ibama de uniforme verde observa a cena
Fiscal do Ibama observa avião usado no garimpo ilegal ser incendiado na Terra Indígena Yanomami, em janeiro de 2024.Foto: Ricardo Campos / Ibama / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Um homem yanomami de 53 anos, ferido por arma de fogo, teria sido levado por um garimpeiro até a porta de um hospital em janeiro de 2026. Esse é um dos 30 casos de yanomami com ferimentos por arma de fogo internados no Hospital Geral de Roraima, em Boa Vista, entre janeiro e agosto. Os dados são do Centro de Referência em Direitos Humanos Yanomami e Ye’kwana (CREDHYY), segundo a Repórter Brasil.

Segundo associações ouvidas pela Repórter Brasil, o avanço do garimpo ilegal sobre a Terra Indígena Yanomami se deu no governo de Jair Bolsonaro (2019–2022). A própria reportagem diz que a atividade caiu desde 2023, mas que as armas que entraram com ela continuam no território.

Feridos e mortes em números

A tabela reúne os números citados pela reportagem, com fonte e período de cada um.

Feridos e mortes por arma de fogo, e queda do garimpo, segundo fontes citadas Número de casos, mortes e percentual, por fonte e período indicados

Dado Valor Período
Yanomami feridos por arma de fogo internados em Boa Vista (CREDHYY) 30 Jan. a ago. de 2026
Mortes de indígenas por arma de fogo (Ministério da Saúde) 18 2022
Mortes de indígenas por arma de fogo (Ministério da Saúde) 24 2023

Fonte: Repórter Brasil, com dados do CREDHYY, do Ministério da Saúde e do Ministério dos Povos Indígenas. Elaboração: redação.

Os 30 casos são de pacientes levados das comunidades para atendimento na capital. Eles não são o total de feridos da terra yanomami. É a primeira vez que o CREDHYY reúne esses dados, por isso não há comparação com anos anteriores.

O Ministério da Saúde registrou 18 mortes por arma de fogo em 2022 e 24 em 2023, somando 42. A reportagem não deixa claro se o levantamento se limita aos yanomami. Os óbitos incluem casos nas comunidades e em hospitais depois da remoção dos feridos.

As armas continuam no território

Para o sociólogo Rodrigo Chagas, da Universidade Federal de Roraima (UFRR), “retirar o garimpo é o primeiro passo, mas essas relações ficam no território”. Ele cita armas, celulares, álcool e drogas como fatores de violência depois da saída dos garimpeiros.

O antropólogo Rogério do Pateo, em tese de doutorado de 2005, escreveu que as espingardas “potencializam a letalidade” de conflitos antes travados com armas menos letais. Uma moradora do Xitei, identificada como Elena, disse: “As armas aumentaram muito onde os garimpeiros estavam.”

Em manifesto em vídeo, mulheres yanomami se posicionam contra a eleição de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência e temem que o garimpo volte, segundo a reportagem. A Repórter Brasil diz ter procurado a campanha do candidato, sem resposta até a publicação.

O que diz o CREDHYY: Segundo a Repórter Brasil, o centro afirma que “os dados revelam situação de elevada gravidade, com risco à vida e à integridade física e psicológica das pessoas e comunidades Yanomami”. A reportagem não traz declaração direta dos ministérios da Saúde e dos Povos Indígenas.

O que isso significa

Segundo os números citados, o garimpo caiu, mas a violência com armas não desapareceu. Os dados do CREDHYY são o primeiro registro desse tipo e ainda não permitem dizer se os casos aumentam ou diminuem. Não há série histórica para comparar.

Para o sociólogo citado, retirar o garimpo não encerra os conflitos. O que os dados mostram é que a violência segue no território depois da saída dos garimpeiros, pelo menos nos casos documentados.

Como fizemos: A análise usa a reportagem da Repórter Brasil, com números atribuídos ao CREDHYY e ao Ministério da Saúde. O total de 42 mortes resulta da soma de 18 registros em 2022 e 24 em 2023. Os dados do CREDHYY formam um primeiro registro e não permitem comparação histórica.

Fontes