Recursos naturais

Seca no Norte encarece a geração, e a bandeira de outubro é verde

Na semana de 10 a 16 de outubro, o custo marginal da energia no Norte foi mais de 11 vezes o do Sudeste, com a bandeira tarifária verde.

Interior da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, com piso circular marcando as unidades geradoras e grandes janelas ao fundo
Interior da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, em foto de 2023.Foto: Túllio F / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Na semana de 10 a 16 de outubro, a energia gerada no Norte custou mais de 11 vezes o que custou no Sudeste e no Centro-Oeste. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o custo marginal do Norte foi de R$ 289,25 por megawatt-hora (MWh). No Sudeste e no Centro-Oeste, foi de R$ 25,20.

O custo marginal de operação (CMO) é o gasto para produzir mais uma unidade de energia no momento em que ela é necessária. Quando a água é pouca, o sistema recorre a termelétricas, usinas que queimam combustível e custam mais caro. A seca do Rio Madeira mostra o problema. Em Porto Velho, o rio chegou a 2,62 metros em 6 de outubro, contra média de 3,9 metros para o período, segundo o Censipam.

O Norte paga mais, e o Sul tem folga

O ONS explicou a diferença. Segundo o Programa Mensal de Operação (PMO), citado pela Cenário Energia, “a divergência do custo marginal no Norte decorre das restrições de escoamento e da menor oferta hídrica local no período”. Em outras palavras, a região tem pouca água nos rios e limites para levar energia para fora.

A tabela compara as regiões. A energia armazenada é a parte da capacidade dos reservatórios que está cheia, em porcentagem.

Norte tem o custo mais alto do país Custo marginal em R$ por MWh e reservatórios previstos para 31 de outubro, semana de 10 a 16 de outubro de 2026

Subsistema CMO (R$/MWh) Reservatórios em 31/10
Norte 289,25 63,0%
Sudeste/Centro-Oeste 25,20 56,3%
Nordeste 25,20 63,7%
Sul 13,10 88,2%

Fonte: ONS, Programa Mensal de Operação, via Cenário Energia (13/10/2026). Elaboração: redação.

Na semana seguinte, de 17 a 23 de outubro, a previsão de reservatórios do Norte caiu para 61,9%. A vazão natural dos rios da região ficou em 50% da média histórica, segundo o ONS. A demanda por energia no Norte também cresceu 10,3% em relação a outubro de 2025.

A Agência Nacional de Águas (ANA) publicou em 29 de setembro um boletim sobre a seca. Segundo o painel da agência, as vazões do Madeira e do Xingu estavam em recessão. A previsão é de vazões abaixo da média na Amazônia.

O que a seca custa na conta

A bandeira tarifária é o aviso da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) sobre o custo extra da conta de luz. A bandeira amarela, de maio a setembro, cobrava R$ 1,885 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos, segundo o Jornal do Brasil. Em 25 de setembro, a ANEEL anunciou a bandeira verde para outubro, sem acréscimo.

A agência explicou a decisão pelas chuvas no Sul e no Sudeste. Elas estabilizaram os reservatórios e permitiram reduzir o uso de termelétricas, as mais caras. O trecho citado pelo Jornal do Brasil não menciona o Norte, que tem o custo mais alto do país.

Em Belo Monte, o Ibama aprovou em agosto um pedido da Norte Energia. A vazão liberada no trecho desviado do Rio Xingu cai de 300 para 100 metros cúbicos por segundo, de 9 de agosto a 30 de novembro. A empresa argumenta que isso deixa mais água disponível para gerar energia.

Segundo a ClimaInfo, a estratégia preventiva do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) reduz a geração hidrelétrica para guardar água na seca. Isso pode significar mais geração térmica e conta mais alta. O texto não apresenta valores.

O custo marginal não informa, isoladamente, quanto as térmicas do Norte acrescentarão à conta de cada consumidor. Esse efeito depende das regras tarifárias e do despacho do sistema ao longo do tempo.

O que diz o ONS: Em 17 de junho, Alexandre Zucarato, do ONS, disse: “É tentar localizar onde estará a seca do Norte, se pega ou não pega os principais ativos estruturantes lá da região.” A fala foi publicada pela Agência iNFRA.

O que vem a seguir

Os dados mostram um Sul com reservatórios cheios e um Norte que depende de energia mais cara. A bandeira de outubro foi justificada pelas chuvas do Sul e do Sudeste, não pelo custo do Norte.

Em aberto estão duas questões. A primeira é se o Norte precisará de mais térmicas até dezembro. A segunda é se a bandeira de novembro vai refletir esse custo. Pelo painel da ANA, modelos dão 100% de probabilidade de o El Niño persistir “até, pelo menos, o início de 2027”.

Como fizemos: A análise reúne dados do ONS publicados em reportagens sobre o PMO das semanas de 10 a 16 e de 17 a 23 de outubro de 2026, a bandeira tarifária, o boletim da ANA e os níveis e vazões dos rios. A razão de cerca de 11,5 vezes compara o CMO do Norte ao do Sudeste/Centro-Oeste. Custo marginal e efeito final na tarifa não são a mesma medida.

Fontes