Amazônia

Fornecedores da JBS em Tucumã somam 12,9 mil hectares desmatados

Investigação analisou 380.505 animais e 1.223 fornecedores; áreas têm desmatamento histórico, sem provar origem ilegal de cada boi.

Imagem de satélite mostra manchas de desmatamento entre floresta e nuvens no Pará
Desmatamento na Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo, no Pará, em imagem de 2018; não mostra as fazendas investigadas.Foto: Oton Barros / Inpe / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Uma investigação publicada nesta quinta-feira (5) identificou 12,9 mil hectares de desmatamento histórico em áreas de fornecedores da JBS de Tucumã, no sul do Pará. O levantamento examinou a origem de 380.505 bovinos enviados ao frigorífico entre janeiro de 2022 e junho de 2025.

A reportagem da Sumaúma cruzou Guias de Trânsito Animal (GTAs), documentos que registram o deslocamento de rebanhos, com dados de satélite. Foram mapeados 1.223 fornecedores diretos e indiretos. O histórico de desmatamento vai de 2008 a 2025 e não comprova que cada animal vendido tenha origem ilegal.

A diferença entre fornecedor direto e indireto

O trabalho foi realizado pelo Center for Climate Crime Analysis (CCCA) e pela Repórter Brasil, a pedido da Sumaúma. A análise mostra como o gado muda de fazenda antes do abate. Essa passagem pode dificultar o controle sobre as propriedades onde o animal foi criado.

A JBS afirma monitorar todos os fornecedores diretos na Amazônia com imagens de satélite e bases oficiais. A empresa também informou ter bloqueado propriedades depois de identificar irregularidades. O problema examinado pela reportagem está principalmente nas transferências entre fazendas, conhecidas como triangulação.

Outro levantamento, da organização AidEnvironment, aponta uma diferença de 28 pontos percentuais no histórico de desmatamento entre os dois elos. O trabalho foi divulgado com denúncias da Coalizão Jurídica Transnacional contra financiadores e prestadores de serviço ligados à JBS em quatro países europeus.

Fornecedores indiretos têm menos desmatamento histórico, mas ficam mais distantes do controle Propriedades analisadas pela AidEnvironment e parcela com episódios de desmatamento desde 1988

Elo da cadeia Propriedades Com desmatamento
Fornecedores diretos 3.329 83%
Fornecedores indiretos 9.247 55%

Fonte: AidEnvironment, divulgado pela Sumaúma em 05/11/2026.

O que as guias permitem rastrear

Na unidade de Tucumã, os pesquisadores calcularam uma média de 298 animais recebidos por dia. O volume corresponde a cerca de 311 bovinos para cada fornecedor ao longo do período analisado. A média não descreve a escala de cada fazenda, porque os lotes variam.

A Sumaúma relata casos de animais transferidos de propriedades com irregularidades para fazendas consideradas regulares antes da venda ao frigorífico. O Ministério Público Federal (MPF) chama esse mecanismo de “lavagem de gado” quando usado para ocultar a origem ilegal.

As guias registram lotes, não o chip individual de cada boi. Por isso, animais de origens distintas podem se misturar no caminho. A análise documental identifica rotas e inconsistências, mas nem sempre permite afirmar qual propriedade criou um animal específico.

Em um caso relatado, um sítio de 70 hectares vendeu 47.660 bois em dez anos para frigoríficos, incluindo unidades da JBS. Segundo parecer do MPF citado pela reportagem, a produtividade declarada em 2022 foi cem vezes o máximo estimado pela Agência de Defesa Agropecuária do Pará.

Compromissos e resposta da empresa

A JBS assinou em 2009 o Termo de Ajustamento de Conduta da Carne, acordo que estabelece critérios socioambientais para compras. As regras vetam fornecedores que desmatam ilegalmente, ocupam terras indígenas ou usam trabalho análogo à escravidão.

Sobre um fornecedor citado na investigação, a empresa disse que as compras seguiram seu protocolo e sua política de compra responsável. Informou ainda que uma fazenda estava bloqueada e que outra nunca integrou sua base. Em outro caso, declarou ter bloqueado duas propriedades, sem informar a data.

O que diz a JBS: a empresa afirmou à Sumaúma que monitora 100% dos fornecedores diretos na Amazônia por imagens de satélite e cruzamento de bases oficiais. Também declarou ter bloqueado fornecedores após descobrir irregularidades e disse que suas compras seguem protocolos de responsabilidade socioambiental.

O que permanece em aberto

A investigação amplia o foco do frigorífico para toda a trajetória dos animais. O ponto central não é apenas se a última fazenda parece regular, mas se o sistema consegue acompanhar as transferências anteriores.

As denúncias europeias e os processos brasileiros citados seguem seus próprios trâmites. Eles não representam condenação definitiva da empresa. Os próximos passos dependem das autoridades que receberem as peças e das provas apresentadas em cada jurisdição.

Como fizemos: Conferimos a investigação da Sumaúma publicada em 05/11/2026 e separamos os dados da CCCA sobre Tucumã dos números nacionais da AidEnvironment. Dividimos 380.505 animais por 1.223 fornecedores para obter cerca de 311 por fornecedor. Mantivemos a ressalva original: desmatamento histórico na propriedade não prova a origem ilegal de cada animal.

Fontes