Exploração madeireira cresce no Pará mesmo com ilegalidade menor
Área explorada chega a 60,7 mil hectares; extração autorizada avança mais de 83%, mas 19,1 mil hectares seguem sem autorização no estado.

O Pará registrou 60.664 hectares de exploração madeireira entre agosto de 2024 e julho de 2025. É a maior área desde o ciclo 2019-2020 e um aumento superior a 40% sobre o período anterior. O crescimento ocorreu mesmo com uma queda de cerca de 6% na extração ilegal.
Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (4) pela Rede Simex. O Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex) combina imagens de satélite e autorizações oficiais. A rede reúne Imazon, Instituto Centro de Vida (ICV) e Imaflora.
A extração autorizada puxou o aumento
Do total mapeado, 41.538 hectares tinham autorização, ou 68%. Outros 19.126 hectares não tinham permissão, equivalentes a 32%. A área autorizada cresceu mais de 83% na comparação com o ciclo anterior.
A diferença de movimento é o principal achado: a atividade legal avançou mais de 83%, enquanto a ilegal recuou cerca de 6%. A área total aumentou porque o crescimento da primeira superou, em hectares, a redução da segunda.
A área autorizada é 2,17 vezes a extensão explorada sem permissão. Essa proporção mostra por que o resultado não pode ser resumido a uma expansão da ilegalidade. Também não permite concluir que toda a atividade esteja sob controle, porque quase um terço segue sem autorização.
A autorização é uma etapa jurídica, não um selo de resultado ambiental. O monitoramento por satélite mostra onde houve exploração, enquanto o cruzamento documental indica se havia permissão. A avaliação do manejo exige outras informações, como plano de trabalho, fiscalização e destino da madeira.
Dois de cada três hectares explorados tinham autorização Área de exploração madeireira no Pará, de agosto de 2024 a julho de 2025
| Situação | Área | Participação | Variação anual |
|---|---|---|---|
| Autorizada | 41.538 ha | 68% | Mais de 83% |
| Sem autorização | 19.126 ha | 32% | Cerca de -6% |
| Total | 60.664 ha | 100% | Mais de 40% |
Fonte: Rede Simex, divulgado em 04/11/2026.
O monitoramento identifica exploração seletiva de madeira, não apenas corte raso da floresta. Por isso, esses hectares não devem ser somados aos dados de desmatamento. O levantamento também não informa que toda a área autorizada tenha cumprido todas as regras de manejo.
A ilegalidade ainda alcança milhares de árvores
Apesar da queda, 19.126 hectares sem autorização continuam sendo uma área extensa. O coordenador do programa de monitoramento da Amazônia do Imazon, Carlos Souza Jr., apresentou uma estimativa para dimensionar o impacto.
Em cenário conservador de duas a três árvores extraídas por hectare, seriam 38 mil a 57 mil árvores. A conta é do pesquisador, não uma contagem individual feita pelo satélite. Essa madeira entra no mercado sem plano de manejo, vistoria ou rastreabilidade de origem.
A pesquisadora Camila Damasceno, do Imazon, avaliou a redução como positiva, mas insuficiente. Ela defendeu mais fiscalização e responsabilização dos infratores. Também pediu incentivos ao manejo florestal, especialmente o comunitário.
Terra Amanayé concentra o alerta indígena
As terras indígenas responderam por 424 hectares da extração sem autorização. Isso equivale a 2,2% da ilegalidade mapeada no Pará. A Rede Simex arredonda a participação para 2% e informa ser o segundo menor volume da série histórica.
Todo esse total indígena foi identificado na Terra Indígena Amanayé. É a quinta vez consecutiva que o território aparece nos boletins da rede. A continuidade mostra que a queda estadual não elimina um foco específico de invasão.
Em 2019-2020, as terras indígenas haviam registrado 158 hectares de exploração ilegal. O total atual é menor que a maioria dos ciclos, mas 168% maior que aquele piso. A comparação ajuda a evitar que o segundo menor número seja lido como ausência de pressão.
O que diz o Imazon: a instituição afirma que a redução da ilegalidade é positiva, mas pede fiscalização mais forte e incentivo ao manejo comunitário. Sobre Amanayé, Camila Damasceno alerta para conflitos, ameaças e restrições à circulação das comunidades, em nota divulgada com o levantamento.
Fiscalização precisa olhar para os dois indicadores
O próximo ciclo mostrará se a queda da extração ilegal continuará. Também será necessário acompanhar se o manejo autorizado ampliará a rastreabilidade e a renda local. Os dois resultados respondem a perguntas diferentes.
Para os povos indígenas, a média estadual não reduz a urgência em Amanayé. Para o setor regular, a madeira sem origem conhecida mantém concorrência desleal. O desafio é reduzir a ilegalidade sem tratar o avanço da área autorizada como prova automática de boa gestão.
Como fizemos: Conferimos os dados da Rede Simex divulgados pela Agência Brasil em 04/11/2026. Dividimos 41.538 por 19.126 para obter a proporção de 2,17. Calculamos 424 dividido por 19.126 para obter 2,2% e comparamos 424 com 158 hectares, alta de 168,4%. Não somamos exploração madeireira ao desmatamento nem apresentamos a estimativa de árvores como medição direta.
Fontes
- Pará registra maior exploração madeireira dos últimos cinco anos — Agência Brasil, 04/11/2026 (acesso em 06/11/2026)
- Rede Simex: monitoramento da exploração madeireira na Amazônia (acesso em 06/11/2026)
- Terra Indígena Cachoeira Seca — Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0) (acesso em 06/11/2026)



