Amazônia

Exploração madeireira cresce no Pará mesmo com ilegalidade menor

Área explorada chega a 60,7 mil hectares; extração autorizada avança mais de 83%, mas 19,1 mil hectares seguem sem autorização no estado.

Estrada de terra atravessa floresta densa na Terra Indígena Cachoeira Seca, no Pará
Floresta na Terra Indígena Cachoeira Seca, no Pará, durante fiscalização do Ibama contra extração ilegal de madeira, em 2015.Foto: Felipe Werneck / Ibama / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

O Pará registrou 60.664 hectares de exploração madeireira entre agosto de 2024 e julho de 2025. É a maior área desde o ciclo 2019-2020 e um aumento superior a 40% sobre o período anterior. O crescimento ocorreu mesmo com uma queda de cerca de 6% na extração ilegal.

Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (4) pela Rede Simex. O Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex) combina imagens de satélite e autorizações oficiais. A rede reúne Imazon, Instituto Centro de Vida (ICV) e Imaflora.

A extração autorizada puxou o aumento

Do total mapeado, 41.538 hectares tinham autorização, ou 68%. Outros 19.126 hectares não tinham permissão, equivalentes a 32%. A área autorizada cresceu mais de 83% na comparação com o ciclo anterior.

A diferença de movimento é o principal achado: a atividade legal avançou mais de 83%, enquanto a ilegal recuou cerca de 6%. A área total aumentou porque o crescimento da primeira superou, em hectares, a redução da segunda.

A área autorizada é 2,17 vezes a extensão explorada sem permissão. Essa proporção mostra por que o resultado não pode ser resumido a uma expansão da ilegalidade. Também não permite concluir que toda a atividade esteja sob controle, porque quase um terço segue sem autorização.

A autorização é uma etapa jurídica, não um selo de resultado ambiental. O monitoramento por satélite mostra onde houve exploração, enquanto o cruzamento documental indica se havia permissão. A avaliação do manejo exige outras informações, como plano de trabalho, fiscalização e destino da madeira.

Dois de cada três hectares explorados tinham autorização Área de exploração madeireira no Pará, de agosto de 2024 a julho de 2025

Situação Área Participação Variação anual
Autorizada 41.538 ha 68% Mais de 83%
Sem autorização 19.126 ha 32% Cerca de -6%
Total 60.664 ha 100% Mais de 40%

Fonte: Rede Simex, divulgado em 04/11/2026.

O monitoramento identifica exploração seletiva de madeira, não apenas corte raso da floresta. Por isso, esses hectares não devem ser somados aos dados de desmatamento. O levantamento também não informa que toda a área autorizada tenha cumprido todas as regras de manejo.

A ilegalidade ainda alcança milhares de árvores

Apesar da queda, 19.126 hectares sem autorização continuam sendo uma área extensa. O coordenador do programa de monitoramento da Amazônia do Imazon, Carlos Souza Jr., apresentou uma estimativa para dimensionar o impacto.

Em cenário conservador de duas a três árvores extraídas por hectare, seriam 38 mil a 57 mil árvores. A conta é do pesquisador, não uma contagem individual feita pelo satélite. Essa madeira entra no mercado sem plano de manejo, vistoria ou rastreabilidade de origem.

A pesquisadora Camila Damasceno, do Imazon, avaliou a redução como positiva, mas insuficiente. Ela defendeu mais fiscalização e responsabilização dos infratores. Também pediu incentivos ao manejo florestal, especialmente o comunitário.

Terra Amanayé concentra o alerta indígena

As terras indígenas responderam por 424 hectares da extração sem autorização. Isso equivale a 2,2% da ilegalidade mapeada no Pará. A Rede Simex arredonda a participação para 2% e informa ser o segundo menor volume da série histórica.

Todo esse total indígena foi identificado na Terra Indígena Amanayé. É a quinta vez consecutiva que o território aparece nos boletins da rede. A continuidade mostra que a queda estadual não elimina um foco específico de invasão.

Em 2019-2020, as terras indígenas haviam registrado 158 hectares de exploração ilegal. O total atual é menor que a maioria dos ciclos, mas 168% maior que aquele piso. A comparação ajuda a evitar que o segundo menor número seja lido como ausência de pressão.

O que diz o Imazon: a instituição afirma que a redução da ilegalidade é positiva, mas pede fiscalização mais forte e incentivo ao manejo comunitário. Sobre Amanayé, Camila Damasceno alerta para conflitos, ameaças e restrições à circulação das comunidades, em nota divulgada com o levantamento.

Fiscalização precisa olhar para os dois indicadores

O próximo ciclo mostrará se a queda da extração ilegal continuará. Também será necessário acompanhar se o manejo autorizado ampliará a rastreabilidade e a renda local. Os dois resultados respondem a perguntas diferentes.

Para os povos indígenas, a média estadual não reduz a urgência em Amanayé. Para o setor regular, a madeira sem origem conhecida mantém concorrência desleal. O desafio é reduzir a ilegalidade sem tratar o avanço da área autorizada como prova automática de boa gestão.

Como fizemos: Conferimos os dados da Rede Simex divulgados pela Agência Brasil em 04/11/2026. Dividimos 41.538 por 19.126 para obter a proporção de 2,17. Calculamos 424 dividido por 19.126 para obter 2,2% e comparamos 424 com 158 hectares, alta de 168,4%. Não somamos exploração madeireira ao desmatamento nem apresentamos a estimativa de árvores como medição direta.

Fontes